Queremos saber

Queremos saber,
O que vão fazer
Com as novas invenções
Queremos notícia mais séria
Sobre a descoberta da antimatéria
e suas implicações
Na emancipação do homem
Das grandes populações
Homens pobres das cidades
Das estepes dos sertões.

Queremos saber,
Quando vamos ter
Raio laser mais barato
Queremos, de fato, um relato
Retrato mais sério do mistério da luz
Luz do disco voador
Pra iluminação do homem
Tão carente, sofredor
Tão perdido na distância
Da morada do senhor.

Queremos saber,
Queremos viver
Confiantes no futuro
Por isso se faz necessário prever
Qual o itinerário da ilusão
A ilusão do poder
Pois se foi permitido ao homem
Tantas coisas conhecer
É melhor que todos saibam
O que pode acontecer.

Queremos saber, queremos saber
Queremos saber, todos queremos saber.

Saiba

O açúcar

O branco açúcar que adoçará meu café
nesta manhã de Ipanema
não foi produzido por mim
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.

Vejo-o puro
e afável ao paladar
como beijo de moça, água
na pele, flor
que se dissolve na boca. Mas este açúcar
não foi feito por mim.

Este açúcar veio
da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira, dono da mercearia.
Este açúcar veio
de uma usina de açúcar em Pernambuco
ou no Estado do Rio
e tampouco o fez o dono da usina.

Este açúcar era cana
e veio dos canaviais extensos
que não nascem por acaso
no regaço do vale.

Em lugares distantes, onde não há hospital
nem escola,
homens que não sabem ler e morrem de fome
aos 27 anos
plantaram e colheram a cana
que viraria açúcar.

Em usinas escuras,
homens de vida amarga
e dura
produziram este açúcar
branco e puro
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.

(Ferreira Gullar, “Toda Poesia”. 11ª edição, Rio de Janeiro: José Olympio, 2001, p. 165-166)

Saiba de onde as coisas vêm. Não tenha nada, não use nada, não queira nada, sem saber de onde aquilo vem. Não rejeite nada, não condene nada, não abomine nada, sem saber quantas coisas das que você preza existem somente por causa daquilo, porque dependeram daquilo para existir.

De que infernal manufatura num distante arrabalde da China veio o colorido brinquedo com que presenteia seus filhos, você sabe? De que maltrapilha roda de degredados e malquistos boêmios veio a poesia, a música, a arte que o encantam, você sabe? De seu mundo que se crê ordenado e delimitado, quanto há que teve de ser pilhado e arrancado àqueles que nele não têm lugar (e para os quais você não daria nele lugar), você sabe?

Você quer saber?

Como pode, tão seguro de si, ó quem tão pouco sabe, quem tanto insiste em ignorar? Está tudo bem para você, talvez, porque nunca vivemos tempos tão justos, tempos tão certos, tempos tão dignos de serem conservados, ó senhor conservador?

Mas não ! Só uma estreita e reluzente casta goza na Cidade os gozos especiais que ela cria. O resto, a escura, imensa plebe, só nela sofre, e com sofrimentos especiais que só nela existem! Deste terraço, junto a esta rica Basílica consagrada ao Coração que amou o Pobre e pôr ele sangrou, bem avistamos nós o lôbrego casario onde a plebe se curva sob esse antigo opróbrio de que nem Religiões, nem Filosofias, nem Morais, nem a sua própria força brutal a poderão jamais libertar! Aí jaz, espalhada pela Cidade, como esterco vil que fecunda a cidade. Os séculos rolam; e sempre imutáveis farrapos lhe cobrem o corpo, e sempre debaixo deles, através do longo dia, os homens labutarão e as mulheres chorarão. E com este labor e este pranto dos pobres, meu Príncipe, se edifica a abundância da Cidade! Ei-la agora coberta de moradas em que eles se não abrigam; armazenada de estofos, com que eles se não agasalham; abarrotada de alimentos, com que eles se não saciam! Para eles só a neve, quando a neve cai, e entorpece e sepulta as criancinhas aninhadas pelos bancos das praças ou sob os arcos das pontes de Paris… A neve cai, muda e branca na treva; as criancinhas gelam nos seus trapos; e a polícia, em torno, ronda atenta para que não seja perturbado o tépido sono daqueles que amam a neve, para patinar nos lagos do Bosque de Bolonha com peliças de três mil francos. Mas quê, meu Jacinto! a tua Civilização reclama insaciavelmente regalos e pompas, que só obterá, nesta amarga desarmonia social, se o Capital der Trabalho, pôr cada arquejante esforço, uma migalha ratinhada. Irremediável, é, pois, que incessantemente a plebe sirva, a plebe pene! A sua esfalfada miséria é a condição do esplendor sereno da Cidade. Se nas suas tigelas fumegasse a justa ração de caldo – não poderia aparecer nas baixelas de prata a luxuosa porção de foie-gras e túbaras que são o orgulho da Civilização. Há andrajos em trapeiras – para que as belas Madamas de Oriol, resplandecentes de sedas e rendas, subam em doce ondulação, a escadaria da Ópera. Há mãos regeladas que se estendem e beiços sumidos que agradecem o dom magnânimo dum sou – para que os Efrains tenham dez milhões no Banco de França, se aqueçam à chama rica da lenha aromática, e surtam de colares de safiras as suas concubinas, netas dos duques de Atenas. E um povo chora de fome, e da fome dos seus pequeninos – para que os Jacintos, em Janeiro, debiquem, bocejando, sobre pratos de Saxe, morangos gelados em Champanhe e avivados dum fio de éter!

– E eu comi dos teus morangos, Jacinto! Miseráveis, tu e eu!

(Eça de Queirós. A cidade e as serras. São Paulo : Ática.)

Congresso Internacional do Medo *

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Carlos Drummond de Andrade in ‘Sentimento do Mundo’ (Editora Record)

Publicado primeiro em 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer, lindo blog do qual me tornei seguidor e recomendo aos amigos que também o façam.

Achei isto tão bonito…

Bem desse jeito…

Algo para manter em mente nos próximos dois anos. Caso as legendas não apareçam automaticamente, use os controles no canto inferior direito do video para exibi-los.

Muitas vidas cabem em Elke Maravilha | Cultura | EL PAÍS Brasil

Fiquei muito triste com esta notícia. Admirava muito essa grande pessoa e artista.

http://brasil.elpais.com/brasil/2016/08/16/cultura/1471357019_769441.html

Compartilhado de WordPress

“Jornalismo” coloca em perigo a vida de atletas LGBT nos Jogos Olímpicos do Rio – http://wp.me/p4sW69-4v4

Memória cultural brasileira

Eu me policio sempre para que não saiam da minha boca coisas como “antigamente a (insira aqui a manifestação cultural de sua preferência) era boa, hoje é uma porcaria”. Eu acredito que o que existe é a prova do tempo, que faz com que nos lembremos das coisas boas de antigamente e esqueçamos as ruins. Creio que em toda a época se produziram textos, músicas, filmes, peças, etc. irrelevantes, superficiais, e mesmo ruins sem escapatória do termo. Em todo presente (o de hoje e os de ontem), o bom e o ruim nos chegam misturados, e a mistura por si mesma é uma cacofonia de que não gostamos. O saudosismo é uma reação compreensível, mas estatisticamente enviesada, portanto.

E, mesmo pensando assim, há coisas que me fazem tremer nas bases e imaginar por um momento que houve, realmente, picos dos quais vimos rolando morro abaixo até o presente. De qualquer forma, acho que a reunião de gênios abaixo foi um ponto fora da curva média e um momento histórico da cultura deste país. Sou muito grato ao internauta que tentou recompor o programa televisivo original, um dos últimos de uma série chamada “Chico & Caetano”, produzida e transmitida pela Rede Globo em 1986 quando, já dispensada de bater continência aos generais, talvez lá alguém tenha se sentido compelido por alguma espécie de remorso a dar espaço aos artistas que antes se havia tão injustamente ignorado.

Tudo é emocionante, mas ainda mais me arrepiei após a entrada em cena de Mercedes Sosa, cuja voz poderosa, mais seus tambores tucumanos, conjuram as magias necessárias para que, depois, em apoteose, o quinteto entregue “Volver a los 17”, canção pulsante para os lindos versos de Violeta Parra. Chile, Argentina e Brasil, sangue misturado ao verter-se sob o tacão das ditaduras, mas unidos e irmanados também pela luz brilhante de verso e canção, e que pena que não por outras formas e forças comuns…

Desfrutai, e não vos esqueçais de que já houve tais momentos ricos e belos na história cultural desse nosso país, de outros muitos modos tão irremediavelmente pobre.

Estas são as canções em castelhano que se iniciam em 14:24 do vídeo

Venganza (“Galopa Murrieta”)

(Pablo Neruda / Manuel Picón)

¿Donde está el atrevido jinete?
vengando a su pueblo y su gente
¿Donde esta el solitario insurgente,
al que ayer lo oculto su vestuario?
¿Donde esta su caballo y su rayo?
¿Donde asechan sus ojos ardientes?

CORO: Galopa, galopa

Lo dice la arena que traigo
la sangre de los desdichados

Galopa, galopa

Lo dice la luna que ahí va la venganza
en esta montura
Va certero y seguro este rayo
Vengando en la noche a los suyos
Sin bandera, sin ley, sin destino,
solo tiene un dolor asesino
Hay nocturno chileno distante
azotado por daño incesante

REPETIR CORO

Hay nocturno chileno distante
azotado por daño incesante

Galopa, galopa

Lo dice la arena que traigo
la sangre de los desdichados
Hay nocturno chileno y distante
azotado por rayo incesante

Galopa, galopa

Lo dice la luna que ahí va
la venganza en esa montura
Hay nocturno chileno y distante
azotado por daño incesante
Hay nocturno chileno y distante
azotado por daño incesante

Galopa, galopa galopa, galopa

Hay nocturno…

Un Son para Portinari

(Inti-Illimani)

Para Candido Portinari
La miel y el ron
Y una guitarra de azucar
Y una cancion
Y un corazon
Para Candido Portinari
Buenos aires y un Bandoneon

Ay, esta noche se puede
Se puede
Ay, esta noche se puede
Se puede
Se puede cantar un son

Sueña y fulgura
Un hombre de mano dura
Hecho de sangre y pintura
Grita en la tela
Sueña y fulgura
Su sangre de mano dura
Sueña y fulgura
Como tallado en candela
Sueña y fulgura
Como una estrella en la altura
Sueña y fulgura
Como una chispa que vuela
Sueña y fulgura

Asi, con su mano dura
Hecho de sangre y pintura
Sobre la tela
Sueña y fulgura
Un hombre de mano dura

Portinari lo desvela
Y el roto pecho le cura

Volver a los 17

(Violeta Parra)

Volver a los diecisiete después de vivir un siglo
Es como descifrar signos sin ser sabio competente
Volver a ser de repente tan frágil como un segundo
Volver a sentir profundo como un niño frente a Dios

Eso es lo que siento yo en este instante fecundo

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay sí, sí, sí

Mi paso retrocedido cuando el de usted es avance
El arca de las alianzas ha penetrado en mi nido
Con todo su colorido se ha paseado por mis venas
Y hasta la dura cadena con que nos ata el destino
Es como un diamante fino que alumbra mi alma serena

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay sí, sí, sí

Lo que puede el sentimiento no lo ha podido el saber
Ni el más claro proceder, ni el más ancho pensamiento
Todo lo cambia al momento cual mago condescendiente
Nos aleja dulcemente de rencores y violencias
Solo el amor con su ciencia nos vuelve tan inocentes

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay sí, sí, sí

El amor es torbellino de pureza original
Hasta el feroz animal susurra su dulce trino
Detiene a los peregrinos, libera a los prisioneros
El amor con sus esmeros al viejo lo vuelve niño
Y al malo sólo el cariño lo vuelve puro y sincero

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay sí, sí, sí.

Prelúdio para ninar gente grande (“menino passarinho”) / Paz do meu amor

As vozes podem envelhecer, fraquejar… até calar-se. Mas a poesia é imortal.

Quando estou nos braços teus

Sinto o mundo bocejar.

Quando estás nos braços meus

Sinto a vida descansar.

No calor do teu carinho

Sou menino-passarinho

Com vontade de voar.

Sou menino-passarinho

Com vontade de voar.

Você é isso: Uma beleza imensa,

Toda recompensa de um amor sem fim.

Você é isso: Uma nuvem calma

No céu de minh’alma; é ternura em mim.

Você é isso: Estrela matutina,

Luz que descortina um mundo encantador.

Você é isso: É parto de ternura,

Lágrima que é pura, paz do meu amor.

Canções que compartilham, parcialmente, uma mesma melodia, e um mesmo mote poético. Lindas.

Meu Refrão

Quem canta comigo, canta o meu refrão
Meu melhor amigo é meu violão
Meu melhor amigo é meu violão

Já chorei sentido de desilusão
Hoje estou crescido
Já não choro não
Já brinquei de bola, já soltei balão
Mas tive que fugir da escola
Pra aprender a lição

Quem canta comigo, canta o meu refrão
Meu melhor amigo é meu violão
Meu melhor amigo é meu violão

O refrão que eu faço é pra você saber
Que eu não vou dar braço pra ninguém torcer
Deixa de feitiço
Que eu não mudo não
Pois eu sou sem compromisso, sem relógio e sem patrão

Quem canta comigo, canta o meu refrão
Meu melhor amigo é meu violão
Meu melhor amigo é meu violão

Nasci sem sorte
Moro num barraco
Mas meu santo é forte
O samba é meu fraco
No meu samba eu digo o que é de coração

Quem canta comigo, canta o meu refrão
Quem canta comigo, canta o meu refrão
Meu melhor amigo é meu violão
Meu melhor amigo é meu violão

Cirandeiro

Ô cirandeiro, ô cirandeiro, ó
A pedra do teu anel
Brilha mais do que o sol
A ciranda de estrelas
Caminhando pelo céu
É o luar da lua cheia
É o farol de Santarém
Não é lua nem estrela
É saudade clareando
Nos olhinhos de meu bem

Ô cirandeiro, ô cirandeiro, ó
A pedra do teu anel
Brilha mais do que o sol
A ciranda de estrelas
Caminhando pelo céu
É o luar da lua cheia
É o farol de Santarém
Não é lua nem estrela
É saudade clareando
Nos olhinhos de meu bem

A ciranda de sereno
Visitando a madrugada
O espanto achei dormindo
Nos sonhos da namorada
Que serena dorme e sonha
Carregada pelo vento
Num andor de nuvem clara

Ô cirandeiro, ô cirandeiro, ó
A pedra do teu anel
Brilha mais do que o sol
A ciranda de estrelas
Caminhando pelo céu
É o luar da lua cheia
É o farol de Santarém
Não é lua nem estrela
É saudade clareando
Nos olhinhos de meu bem

São sete estrelas correndo
Sete juras a jurar
Três Marias, Três Marias
Se cuidem de bom cuidar
No amor e o juramento
Que a estrela D’alva chora
De nos sete a acreditar

Grande Sertão: Veredas

Com que, então, finalmente li o grande livro de Guimarães Rosa. Grande, grandioso, em todos os sentidos e direções. Como é que cheguei a esta altura da vida sem nunca tê-lo lido é que me escapa. Mas não me queixo: quase certo de que não teria antes maturidade para entendê-lo, apreciá-lo e senti-lo. Caso não o tenha lido e deseje fazê-lo sem saber mais de sua história, não prossiga na leitura. Como dizem os jovens: spoiler alert! E não se demore, vá buscá-lo e lê-lo, é fácil de encontrar, inclusive na internet.

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… para não esparramar raivas.

Do que de uma feita, por me valer, eu entendi o casco de uma coisa. Que, quando eu estava assim, cada de-manhã, com raiva de uma pessoa, bastava eu mudar querendo pensar em outra, para passar a ter raiva dessa outra, também, igualzinho, soflagrante. E todas as pessoas, seguidas, que meu pensamento ia pegando, eu ia sentindo ódio delas, uma por uma, do mesmo jeito, ainda que fossem muito mais minhas amigas e eu em outras horas delas nunca tivesse tido quizília nem queixa. Mas o sarro do pensamento alterava as lembranças, e eu ficava achando que, o que um dia tivessem falado, seria por me ofender, e punha significado de culpa em todas as conversas e ações. O senhor me crê? E foi então que eu acertei com a verdade fiel: que aquela raiva estava em mim, produzida, era minha sem outro dono, como coisa solta e cega. As pessoas não tinham culpa de naquela hora eu estar passeando pensar nelas. Hoje, que enfim eu medito mais nessa agenciação encoberta da vida, fico me indagando: será que é a mesma coisa com a bebedice de amor? Toleima. O senhor ainda me releve. Mas, na ocasião, me lembrei dum conselho que Zé Bebelo, na Nhanva, um dia me tinha dado. Que era: que a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve de tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a ideia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato é. Zé Bebelo falava sempre com a máquina de acerto ― inteligência só. Entendi. Cumpri. Digo: reniti, fazendo finca-pé, em força para não esparramar raivas.

(Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas)

Assista a “Joplin, Gladiolus Rag” no YouTube

Citação – Lygia Bojunga

1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer

“A literatura funciona para nós como um espelho. Quanto mais nos olhamos nele, mais vamos captando revelações sobre nós mesmos e, consequentemente, sobre nossa postura face ao mundo.” – Lygia Bojunga

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Beleza

Às vezes, num mundo tão duro e tão cheio de tristezas, somos realmente obrigados, por nossa mente cansada, a encontrar um ponto de apoio, um farol, algo que, ainda que não justifique por si próprio a existência, nos forneça um sentido capaz de nos prender um pouco mais firmemente a esse caminho tão estranho, que percorremos sem o ver e sem saber aonde nos leva.

A Beleza, para mim, pode às vezes cumprir esse papel, por isso a estimo profundamente sempre que a encontro. Ela pode vir dos mais diversos lugares e das mais diversas formas, surpreendendo-nos na luz estranha que a uma certa hora, por alguns instantes, atravessa frestas fortuitas entre edifícios e empresta certa graça a uma cidade feia; ou na silhueta graciosa de alguém com quem cruzamos rapidamente numa esquina e contemplamos apenas tempo suficiente para, sem saber quem é, de onde vem ou para onde vai, apenas pressentir que, ali e naquela hora, é feliz; ou no olhar de surpresa seguido pelo calmo cair em silêncio de quem subitamente descobriu que de nada vale discutir, objetar, contra o curso da história ou contra a estupidez universal; ou no semblante da pessoa amada que, em meio a um sono agitado, subitamente se acalma e repousa. São muitas possibilidades incomuns, é preciso estar-se atento.

E, claro, ela frequenta, embora não sempre tão assídua, as manifestações da Arte. Das artes, tantas quantas possam existir. Compartilho uma delas, que me enlevou pelos minutos todos que a execução leva: a interpretação, transcendente, de Hélène Grimaud (1969-), da transcrição para piano de Ferrucio Busoni (1866-1924) da Chaconne da Partita para Violino nº 2, em Ré menor, índice BWV 1004, de Johann Sebastian Bach (1685-1750).

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Assista a “Golden – A short film by Kai Stänicke” no YouTube

Os Pobres (Márcio Tavares D’Amaral)

http://historiafilosofiareligiao.com/conteudo_avulso.php?p=234

Saudades

2014-10-08 19.55.11-1“Gatos não morrem de verdade:
eles apenas se reintegram
no ronronar da eternidade.

Gatos jamais morrem de fato:
suas almas saem de fininho
atrás de alguma alma de rato.

Gatos não morrem: sua fictícia
morte não passa de uma forma
mais refinada de preguiça.

Gatos não morrem: rumo a um nível
mais alto é que eles, galho a galho,
sobem numa árvore invisível.

Gatos não morrem: mais preciso
– se somem – é dizer que foram
rasgar sofás no paraíso

e dormirão lá, depois do ônus
de sete bem vividas vidas,
seus sete merecidos sonos.”

(Nelson Ascher, “Elegiazinha”)

Para Tulipa (?.?.1996 – 30.03.2016)

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