Achei isto tão bonito…

Bem desse jeito…

Algo para manter em mente nos próximos dois anos. Caso as legendas não apareçam automaticamente, use os controles no canto inferior direito do video para exibi-los.

Muitas vidas cabem em Elke Maravilha | Cultura | EL PAÍS Brasil

Fiquei muito triste com esta notícia. Admirava muito essa grande pessoa e artista.

http://brasil.elpais.com/brasil/2016/08/16/cultura/1471357019_769441.html

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“Jornalismo” coloca em perigo a vida de atletas LGBT nos Jogos Olímpicos do Rio – http://wp.me/p4sW69-4v4

Memória cultural brasileira

Eu me policio sempre para que não saiam da minha boca coisas como “antigamente a (insira aqui a manifestação cultural de sua preferência) era boa, hoje é uma porcaria”. Eu acredito que o que existe é a prova do tempo, que faz com que nos lembremos das coisas boas de antigamente e esqueçamos as ruins. Creio que em toda a época se produziram textos, músicas, filmes, peças, etc. irrelevantes, superficiais, e mesmo ruins sem escapatória do termo. Em todo presente (o de hoje e os de ontem), o bom e o ruim nos chegam misturados, e a mistura por si mesma é uma cacofonia de que não gostamos. O saudosismo é uma reação compreensível, mas estatisticamente enviesada, portanto.

E, mesmo pensando assim, há coisas que me fazem tremer nas bases e imaginar por um momento que houve, realmente, picos dos quais vimos rolando morro abaixo até o presente. De qualquer forma, acho que a reunião de gênios abaixo foi um ponto fora da curva média e um momento histórico da cultura deste país. Sou muito grato ao internauta que tentou recompor o programa televisivo original, um dos últimos de uma série chamada “Chico & Caetano”, produzida e transmitida pela Rede Globo em 1986 quando, já dispensada de bater continência aos generais, talvez lá alguém tenha se sentido compelido por alguma espécie de remorso a dar espaço aos artistas que antes se havia tão injustamente ignorado.

Tudo é emocionante, mas ainda mais me arrepiei após a entrada em cena de Mercedes Sosa, cuja voz poderosa, mais seus tambores tucumanos, conjuram as magias necessárias para que, depois, em apoteose, o quinteto entregue “Volver a los 17”, canção pulsante para os lindos versos de Violeta Parra. Chile, Argentina e Brasil, sangue misturado ao verter-se sob o tacão das ditaduras, mas unidos e irmanados também pela luz brilhante de verso e canção, e que pena que não por outras formas e forças comuns…

Desfrutai, e não vos esqueçais de que já houve tais momentos ricos e belos na história cultural desse nosso país, de outros muitos modos tão irremediavelmente pobre.

Estas são as canções em castelhano que se iniciam em 14:24 do vídeo

Venganza (“Galopa Murrieta”)

(Pablo Neruda / Manuel Picón)

¿Donde está el atrevido jinete?
vengando a su pueblo y su gente
¿Donde esta el solitario insurgente,
al que ayer lo oculto su vestuario?
¿Donde esta su caballo y su rayo?
¿Donde asechan sus ojos ardientes?

CORO: Galopa, galopa

Lo dice la arena que traigo
la sangre de los desdichados

Galopa, galopa

Lo dice la luna que ahí va la venganza
en esta montura
Va certero y seguro este rayo
Vengando en la noche a los suyos
Sin bandera, sin ley, sin destino,
solo tiene un dolor asesino
Hay nocturno chileno distante
azotado por daño incesante

REPETIR CORO

Hay nocturno chileno distante
azotado por daño incesante

Galopa, galopa

Lo dice la arena que traigo
la sangre de los desdichados
Hay nocturno chileno y distante
azotado por rayo incesante

Galopa, galopa

Lo dice la luna que ahí va
la venganza en esa montura
Hay nocturno chileno y distante
azotado por daño incesante
Hay nocturno chileno y distante
azotado por daño incesante

Galopa, galopa galopa, galopa

Hay nocturno…

Un Son para Portinari

(Inti-Illimani)

Para Candido Portinari
La miel y el ron
Y una guitarra de azucar
Y una cancion
Y un corazon
Para Candido Portinari
Buenos aires y un Bandoneon

Ay, esta noche se puede
Se puede
Ay, esta noche se puede
Se puede
Se puede cantar un son

Sueña y fulgura
Un hombre de mano dura
Hecho de sangre y pintura
Grita en la tela
Sueña y fulgura
Su sangre de mano dura
Sueña y fulgura
Como tallado en candela
Sueña y fulgura
Como una estrella en la altura
Sueña y fulgura
Como una chispa que vuela
Sueña y fulgura

Asi, con su mano dura
Hecho de sangre y pintura
Sobre la tela
Sueña y fulgura
Un hombre de mano dura

Portinari lo desvela
Y el roto pecho le cura

Volver a los 17

(Violeta Parra)

Volver a los diecisiete después de vivir un siglo
Es como descifrar signos sin ser sabio competente
Volver a ser de repente tan frágil como un segundo
Volver a sentir profundo como un niño frente a Dios

Eso es lo que siento yo en este instante fecundo

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay sí, sí, sí

Mi paso retrocedido cuando el de usted es avance
El arca de las alianzas ha penetrado en mi nido
Con todo su colorido se ha paseado por mis venas
Y hasta la dura cadena con que nos ata el destino
Es como un diamante fino que alumbra mi alma serena

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay sí, sí, sí

Lo que puede el sentimiento no lo ha podido el saber
Ni el más claro proceder, ni el más ancho pensamiento
Todo lo cambia al momento cual mago condescendiente
Nos aleja dulcemente de rencores y violencias
Solo el amor con su ciencia nos vuelve tan inocentes

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay sí, sí, sí

El amor es torbellino de pureza original
Hasta el feroz animal susurra su dulce trino
Detiene a los peregrinos, libera a los prisioneros
El amor con sus esmeros al viejo lo vuelve niño
Y al malo sólo el cariño lo vuelve puro y sincero

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay sí, sí, sí.

Prelúdio para ninar gente grande (“menino passarinho”) / Paz do meu amor

As vozes podem envelhecer, fraquejar… até calar-se. Mas a poesia é imortal.

Quando estou nos braços teus

Sinto o mundo bocejar.

Quando estás nos braços meus

Sinto a vida descansar.

No calor do teu carinho

Sou menino-passarinho

Com vontade de voar.

Sou menino-passarinho

Com vontade de voar.

Você é isso: Uma beleza imensa,

Toda recompensa de um amor sem fim.

Você é isso: Uma nuvem calma

No céu de minh’alma; é ternura em mim.

Você é isso: Estrela matutina,

Luz que descortina um mundo encantador.

Você é isso: É parto de ternura,

Lágrima que é pura, paz do meu amor.

Canções que compartilham, parcialmente, uma mesma melodia, e um mesmo mote poético. Lindas.

Meu Refrão

Quem canta comigo, canta o meu refrão
Meu melhor amigo é meu violão
Meu melhor amigo é meu violão

Já chorei sentido de desilusão
Hoje estou crescido
Já não choro não
Já brinquei de bola, já soltei balão
Mas tive que fugir da escola
Pra aprender a lição

Quem canta comigo, canta o meu refrão
Meu melhor amigo é meu violão
Meu melhor amigo é meu violão

O refrão que eu faço é pra você saber
Que eu não vou dar braço pra ninguém torcer
Deixa de feitiço
Que eu não mudo não
Pois eu sou sem compromisso, sem relógio e sem patrão

Quem canta comigo, canta o meu refrão
Meu melhor amigo é meu violão
Meu melhor amigo é meu violão

Nasci sem sorte
Moro num barraco
Mas meu santo é forte
O samba é meu fraco
No meu samba eu digo o que é de coração

Quem canta comigo, canta o meu refrão
Quem canta comigo, canta o meu refrão
Meu melhor amigo é meu violão
Meu melhor amigo é meu violão

Cirandeiro

Ô cirandeiro, ô cirandeiro, ó
A pedra do teu anel
Brilha mais do que o sol
A ciranda de estrelas
Caminhando pelo céu
É o luar da lua cheia
É o farol de Santarém
Não é lua nem estrela
É saudade clareando
Nos olhinhos de meu bem

Ô cirandeiro, ô cirandeiro, ó
A pedra do teu anel
Brilha mais do que o sol
A ciranda de estrelas
Caminhando pelo céu
É o luar da lua cheia
É o farol de Santarém
Não é lua nem estrela
É saudade clareando
Nos olhinhos de meu bem

A ciranda de sereno
Visitando a madrugada
O espanto achei dormindo
Nos sonhos da namorada
Que serena dorme e sonha
Carregada pelo vento
Num andor de nuvem clara

Ô cirandeiro, ô cirandeiro, ó
A pedra do teu anel
Brilha mais do que o sol
A ciranda de estrelas
Caminhando pelo céu
É o luar da lua cheia
É o farol de Santarém
Não é lua nem estrela
É saudade clareando
Nos olhinhos de meu bem

São sete estrelas correndo
Sete juras a jurar
Três Marias, Três Marias
Se cuidem de bom cuidar
No amor e o juramento
Que a estrela D’alva chora
De nos sete a acreditar

Grande Sertão: Veredas

Com que, então, finalmente li o grande livro de Guimarães Rosa. Grande, grandioso, em todos os sentidos e direções. Como é que cheguei a esta altura da vida sem nunca tê-lo lido é que me escapa. Mas não me queixo: quase certo de que não teria antes maturidade para entendê-lo, apreciá-lo e senti-lo. Caso não o tenha lido e deseje fazê-lo sem saber mais de sua história, não prossiga na leitura. Como dizem os jovens: spoiler alert! E não se demore, vá buscá-lo e lê-lo, é fácil de encontrar, inclusive na internet.

Leia mais deste post

… para não esparramar raivas.

Do que de uma feita, por me valer, eu entendi o casco de uma coisa. Que, quando eu estava assim, cada de-manhã, com raiva de uma pessoa, bastava eu mudar querendo pensar em outra, para passar a ter raiva dessa outra, também, igualzinho, soflagrante. E todas as pessoas, seguidas, que meu pensamento ia pegando, eu ia sentindo ódio delas, uma por uma, do mesmo jeito, ainda que fossem muito mais minhas amigas e eu em outras horas delas nunca tivesse tido quizília nem queixa. Mas o sarro do pensamento alterava as lembranças, e eu ficava achando que, o que um dia tivessem falado, seria por me ofender, e punha significado de culpa em todas as conversas e ações. O senhor me crê? E foi então que eu acertei com a verdade fiel: que aquela raiva estava em mim, produzida, era minha sem outro dono, como coisa solta e cega. As pessoas não tinham culpa de naquela hora eu estar passeando pensar nelas. Hoje, que enfim eu medito mais nessa agenciação encoberta da vida, fico me indagando: será que é a mesma coisa com a bebedice de amor? Toleima. O senhor ainda me releve. Mas, na ocasião, me lembrei dum conselho que Zé Bebelo, na Nhanva, um dia me tinha dado. Que era: que a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve de tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a ideia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato é. Zé Bebelo falava sempre com a máquina de acerto ― inteligência só. Entendi. Cumpri. Digo: reniti, fazendo finca-pé, em força para não esparramar raivas.

(Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas)

Assista a “Joplin, Gladiolus Rag” no YouTube

Citação – Lygia Bojunga

1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer

“A literatura funciona para nós como um espelho. Quanto mais nos olhamos nele, mais vamos captando revelações sobre nós mesmos e, consequentemente, sobre nossa postura face ao mundo.” – Lygia Bojunga

Ver o post original

Beleza

Às vezes, num mundo tão duro e tão cheio de tristezas, somos realmente obrigados, por nossa mente cansada, a encontrar um ponto de apoio, um farol, algo que, ainda que não justifique por si próprio a existência, nos forneça um sentido capaz de nos prender um pouco mais firmemente a esse caminho tão estranho, que percorremos sem o ver e sem saber aonde nos leva.

A Beleza, para mim, pode às vezes cumprir esse papel, por isso a estimo profundamente sempre que a encontro. Ela pode vir dos mais diversos lugares e das mais diversas formas, surpreendendo-nos na luz estranha que a uma certa hora, por alguns instantes, atravessa frestas fortuitas entre edifícios e empresta certa graça a uma cidade feia; ou na silhueta graciosa de alguém com quem cruzamos rapidamente numa esquina e contemplamos apenas tempo suficiente para, sem saber quem é, de onde vem ou para onde vai, apenas pressentir que, ali e naquela hora, é feliz; ou no olhar de surpresa seguido pelo calmo cair em silêncio de quem subitamente descobriu que de nada vale discutir, objetar, contra o curso da história ou contra a estupidez universal; ou no semblante da pessoa amada que, em meio a um sono agitado, subitamente se acalma e repousa. São muitas possibilidades incomuns, é preciso estar-se atento.

E, claro, ela frequenta, embora não sempre tão assídua, as manifestações da Arte. Das artes, tantas quantas possam existir. Compartilho uma delas, que me enlevou pelos minutos todos que a execução leva: a interpretação, transcendente, de Hélène Grimaud (1969-), da transcrição para piano de Ferrucio Busoni (1866-1924) da Chaconne da Partita para Violino nº 2, em Ré menor, índice BWV 1004, de Johann Sebastian Bach (1685-1750).

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Assista a “Golden – A short film by Kai Stänicke” no YouTube

Os Pobres (Márcio Tavares D’Amaral)

http://historiafilosofiareligiao.com/conteudo_avulso.php?p=234

Saudades

2014-10-08 19.55.11-1“Gatos não morrem de verdade:
eles apenas se reintegram
no ronronar da eternidade.

Gatos jamais morrem de fato:
suas almas saem de fininho
atrás de alguma alma de rato.

Gatos não morrem: sua fictícia
morte não passa de uma forma
mais refinada de preguiça.

Gatos não morrem: rumo a um nível
mais alto é que eles, galho a galho,
sobem numa árvore invisível.

Gatos não morrem: mais preciso
– se somem – é dizer que foram
rasgar sofás no paraíso

e dormirão lá, depois do ônus
de sete bem vividas vidas,
seus sete merecidos sonos.”

(Nelson Ascher, “Elegiazinha”)

Para Tulipa (?.?.1996 – 30.03.2016)

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Escapando da rede

Vivi a maior parte de minha vida entre computadores, o meu primeiro tendo sido um PC-XT com unidade de disco rígido de 30 MB, unidade de disco flexível de 5¼″ (cinco polegadas e um quarto), processador Intel de 4,77 MHz de velocidade, ou “clock”, como se dizia na época. Como hoje a velocidade dos processadores é medida no próximo patamar de grandeza, convertamos para constatar que isso equivale a 0,0047 MHz. Sim, há cerca de 25 anos os computadores tinha processadores mil vezes mais lentos que os atuais.

Mas funcionavam. E de uma forma que, de certo modo, deixa saudades. Quando você o ligava, depois de cerca de um minuto de exibição de mensagens herméticas do sistema operacional, tudo que você recebia era uma hermética tela preta, e num canto da tela o seguinte:

 

C:>_

Só havia o teclado, e nele você precisava digitar o nome dos programas que queria executar. Era necessário conhecê-los pelo nome próprio, mas isso era fácil, porque eles nunca tinham mais que 8 caracteres que, ou eram letras de A a Z, ou números de 1 a 9. E nada mais. WS, CARTA, 123, DBASE… Saudades de vocês, passamos juntos tempos bons…

E só se podia executar um programa de cada vez: abria-se um programa, fazia-se seu trabalho com ele, gravavam-se seus arquivos, fechava-se o programa, voltava-se para o “C:>” e chamava-se o próximo.

E, finalmente, você estava a sós com a máquina, e com os duendes de software que moravam dentro dela. Se quisesse que outra pessoa visse o que você fez, tinha-se que imprimir em papel (em geral em ruidosas máquinas matriciais que usavam formulário contínuo de bordas perfuradas) ou gravar nos discos flexíveis, envelopes de plástico preto contendo uma mídia magnética da espessura de um filme fotográfico, com capacidade de 360 KB. Melindrosos, perdia-se o que continham expondo-os ao calor (sendo pretos, bastava esquecê-los no sol por alguns minutos), ou aos perigosíssimos ímãs escondidos por trás de todo alto-falante.

Houve computadores ainda mais antigos, sem disco rígido e dependentes de gravadores de fitas cassette (francês para “caixinha”, e que nós falantes de português apelidamos de K7) , mas este foi o primeiro que desembarcou no meu quarto, tendo custado o preço de um carro usado, e que de minha casa só eu, aos 12 anos, tinha, alguma ideia de como dirigir.

Todas essas reminiscências me vieram à mente depois de decidir que já não me sinto mais tão à vontade com esses entes de corpo de cobre e silício e alma de eletricidade…

Não por culpa deles, coitados. Continuam sendo engenhos excelentes, e por baixo de todas as cores, sons e o que mais houver, ainda são feitos das mesmas pulsações de “ligado” e “desligado”, que, pulsando em grupos de oito (os famosos bytes), representam os números 0 a 255 e estes, por sua vez, tudo que existe.

Tudo que existe. Conte de 0 a 127 e caberão todos os caracteres necessários para escrever em inglês. Use as outras 128 posições e poderá utilizar acentos e alfabetos alternativos. Mande a economia às favas, e use dois ou três bytes de cada vez: 256 vezes 256 resulta em 65.536 possibilidades, vezes 256 e temos 16.777.216, bastantes para quase todos os caracteres fonéticos e ideográficos que há ou houve no mundo.

Os mesmos mais de 16 milhões são o número de cores que podem ser representadas em qualquer tela ordinária de nossos dias: nada mais que 256 níveis de vermelho vezes 256 níveis de verde vezes 256 níveis de azul. Vezes 1.920 pontos de largura, vezes 1.080 pontos de altura, e temos uma fantástica imagem capaz de encher a tela de um televisor Full HD. Vezes 24 quadros, e temos um segundo de video. Vezes 86.400 segundos, e temos um dia de programação de TV digital. Sem contar o audio, que tem seus próprios números vezes números vezes números para nos tocar, em estéreo, a trilha de nossa vida eletrônica.

E agora perdi-me nas imensidões dos números que essas máquinas, hoje reduzirdas ao tamanho de maços de cigarro, podem manusear com precisão e pouco esforço em uma fração do tempo que eu gasto para me lembrar qual é o meu primeiro nome…

Dizia que não me sinto mais à vontade na companhia dessas máquinas, mas a culpa, como eu disse, não é delas. Não me sinto (muito) assombrado por seu poder de processamento e por sua engenhosidade. Sinto-me, contudo, acabrunhado pelo pouco que fomos capazes de fazer com tanto poder e tantos recursos.

É que transformamos essas máquinas maravilhosas em bestas de carga de toda nossa mediocridade. Invertemos os papéis, e em vez de procurar respostas para nossos problemas globais, fizemos com que as máquinas nos fizessem perguntas, e nunca nos preocupamos em como fornecer respostas decentes. Quando o Facebook me indaga “o que você está pensando?” ou o navegador Edge me inquire “para onde vamos agora?”, sinto-me aflito. Por mim, pelas minhas respostas, e pelas dos outros, já que também fizemos com que as máquinas se ligassem umas às outras, criando uma imensa matriz global de milhões de milhões de milhões bits correndo o mundo na velocidade da luz, por fios de cobre e ondas de rádio, saltando até as órbitas baixas dos satélites de telecomunicação, e mergulhando até o leito dos oceanos pelos cabos intercontinentais.

E nem estou falando das fotos e dos filmes de cães e gatos, das piadas fracas, do entretenimento barato e superficial. Falo do que dizemos de nós mesmos como espécie, quando as notícias de factóides protagonizados por subcelebridades circulam lado a lado com notícias que expõem tamanha barbárie, tamanha desumanidade, sem que a maior parte das pessoas se mostre afetada mais por esta do que por aquelas. E nesse instante caio de joelhos, vencido.

De modo que a rede social me venceu, não pelo cansaço, mas pelo desespero. Não estou farto, mas exausto. Tenho endossado petições digitais às pencas, e procurado aprender tudo que não sei, até onde sou capaz, e o limite está do meu lado, porque todo o conhecimento universal está disponível pela rede mundial de computadores. Tenho procurado repercutir a informação que acho mais relevante e necessária. Tenho resistido à tentação de trocar a compreensão e o diálogo pela troca de ofensas. Mas cheguei ao meu limite.

Estou me impondo, doravante, uma tentativa de abstinência. A rede social já não me parece mais um tecido que nos suporta, nos conecta e nos apresenta em padrões e estampas intrigantes e belas. Parece mais com uma tarrafa sinistra, com uma rede de pesca que nos arranca de nosso flutuar natural e nos aperta uns contra os outros, acotovelados, empilhados, enfardados. Assim justapostos e sobrepostos, não temos mais o mínimo espaço necessário para olhar para o outro e vê-lo inteiro em nosso olhar. Não vemos mais ao outro, aos outros, a nada. Só vemos do outro a pupila escura a refletir o vermelho das veias inchadas de nossos olhos. Não admira que não façamos outra coisa que entrarmos em conflito, em manifestar sarcasmo, angústia, aflição… Incomunicabilidade, enfim, sem perceber que ao mesmo tempo estamos a ser pescados, a sermos a presa de um sistema que se coloca numa posição distante e obscura, de onde nos faz sentirmo-nos impotentes sequer para compreendê-lo, quanto mais para mudar seu curso.

Percebo que é muito o mal que a conexão constante à rede social me tem feito, e que é insuficiente para compensá-lo o irrisório bem que, quando otimista, penso conseguir fazer pelo intermédio dela.

Tenho, como todos, um trabalho para fazer e uma vida para percorrer. E quero realizar a ambas as coisas sem perder de vista os outros seres humanos, meus companheiros de esforço e jornada. E para isso quero vê-los, e para vê-los preciso me afastar um ou dois passos, a distância necessária para tê-los em perspectiva suficiente, para ouvir a sua voz, e para compreender o que seu rosto e seus olhos dizem. Quero voltar a me sentir o dia todo um ser humano, vivo e pulsante, sem esses momentos de bizarra conexão a um mundo invertido, em que as máquinas fazem perguntas e as pessoas não conseguem respondem senão com a frieza de máquinas.

Máquinas são ótimas, são bons brinquedos, e excelentes ferramentas. Mas não podemos nos deixar aprisionar por elas. E eu? Achei um buraco na rede, vou esgueirar-me por ele e escapar. Com licença.

Imperador

Considero primorosas quase todas as obras de Ludwig van Beethoven, mas o 5º Concerto para Piano e Orquestra, apelidado “Imperador”, é dos que me parece ocuparem o nicho superior reservado às suas obras gloriosas. São cerca de 40 minutos que demandam entrega e atenção de quem ouve, em troca de uma recompensa de beleza indescritível.

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