Sem dó nem piedade

Fico impressionado com a quantidade de textos que se encontram por aí na internet dedicados ao propósito de criticar. O objeto da crítica não importa muito: pode ser alguém, ou algo que alguém fez, disse ou pareceu pensar, ou deixou de.

Fica a pergunta: qual o propósito da verve irada de muitos dos críticos de plantão? Tem ela o propósito de produzir alguma melhoria no mundo, ou será apenas fruto da necessidade de alguém de se colocar numa posição de onde pode aprovar, desaprovar, aceitar, rejeitar, permitir, proibir – em suma, julgar?

Às vezes a segunda opção se torna tão evidente que faz muita pena, porque revela o tamanho da insegurança e da frustração daqueles que procuram, mediante o exercício da arrogância, afirmar-se sobre o solo incerto de suas existências.

Com isso não se quer criticar essas atitudes, insegurança e frustração. Não se pode criticá-las, porque são vicissitudes do ser humano; podem assaltar qualquer um de nós, sujeitos que estamos a tantas incertezas e questões fundamentais sobre a razão de sermos no mundo, e sobre nossa obscura finitude comum.

Mas seria bom que aqueles que pretendem recorrer ao paliativo da arrogância refletissem sobre o mal que podem fazer aos demais, ou pelo menos a algumas pessoas, igualmente inocentes das falhas do mundo… Que experimentassem, em tese, e naquela dose mínima de quem escolhe os temperos ao cozinhar, a dor e o desencanto que podem trazer àqueles que criticam… Que se dedicassem à mais divina das funções do intelecto humano: a capacidade de (tentar ao menos) projetar-se, colocar-se no lugar do outro, enxergar o mundo pela perspectiva do outro.

Porque, ainda que não seja o caso de dar exemplos, nem de verberar demasiado sobre a atitude arrogante de muitas críticas levianas, é difícil não reconhecer que o mundo anda um tanto quanto farto de sua multiplicidade asfixiante, e bastante poluído pelas manchas estéreis deixadas pelas palavras mordazes, agudas, astutas e sagazes e, contudo, incapazes de trazer uma melhoria sequer àquilo ou àquele(a) que se esforçaram para provar, com tantos argumentos, ser tão mau ou tão imprestável.

Quem dera se todos os que tripudiam, sem dó nem piedade, sobre as fraquezas e imperfeições das pessoas, das sociedades, e do mundo, pudessem dar-se conta de que com suas críticas que nada acrescentam, que nada constróem, que nada aperfeiçoam, eles próprios não conseguem ser nem um pouco mais, ou melhor, do que tudo que criticam.

Embora possam tornar-se, por vezes, piores. Muito, imensuravelmente, piores.

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2 Responses to Sem dó nem piedade

  1. Perfeito. É algo assim que eu gostaria de saber escrever. E comungo integralmente com este pensamento.
    ( acabo de, enquanto escrevo, ouvir Leonardo Boff dizendo que temos em nós anjos e demonios (entre muitas coisas importantes) em http://bioterra.blogspot.com/2009/02/leonardo-boff-e-urgente-rever-os_26.html

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