De olhos bem abertos

Disse Joseph Campbell algo semelhante a isto: o que buscam as pessoas não é o sentido da vida, mas uma experiência de vida. Um experimentar o estar vivendo, o fazer parte do ciclo de nascimentos e mortes que se nutrem e se consomem mutuamente sobre a terra.

Acho que um dos sentimentos que marcam bem essa experiência, o estar vivo, é o espanto. O susto, o sobressalto. Por uma razão, quer ela venha de fora, como um acontecimento em nossas vidas, ou algo feito ou dito por alguém que nos importa, quer ela venha de dentro, como quando os pensamentos se deparam com questões que tocam os temas fundamentais do existir humano: o ser, o estar no mundo, o viver com os outros, o caminhar inexorável para a morte.

O espanto pode ser simplesmente o espanto de estar vivo. Pode ser tantos outros. Alguns deles são ruins, quer dizer, além do estremecimento que todo espanto traz consigo (que não é necessariamente bom ou mau: muitos gostam dessa adrenalina), deixam um rastro, uma marca, uma nódoa que teima em não sair. Espantamo-nos com a revelação de alguma coisa que nos desagrada, e ficamos doravante à mercê da convivência com ela, ao menos em nossos pensamentos.

Sinto acontecer exatamente isso diante de um espanto que não é meramente o de viver, mas o de estar vivo e, não obstante, apático no movimento da vida; inerte. Deixando-se levar de entremeio a uma corrente cujo fluxo não questionamos, esquecendo-nos de vê-lo, de senti-lo. E à já bastante desagradável consciência disso somo a auto-censura de ter dependido da provocação de quem se importa comigo o suficiente para dar-se ao trabalho de dar ao problema de minha vida mais atenção e valor do que eu próprio o tenho feito.

Porém, sem dúvida, essa é uma grande prova de amor. Cabe a mim corresponder a ele e continuar a fazer na minha vida as transformações de que ela precisa para fazer jus ao nome, e ser, mais do que um intervalo cheio de circunstâncias entre o nascimento e a morte, uma experiência de estar vivo.

Sou grato à vida pelo Espanto, e a quem mo causa deliberadamente, para dar-me a vida que eu tirei tantas vezes de mim mesmo, perdendo-me ao perseguir tantas coisas que nada têm que ver com ela.

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