Uma historinha

Noite, há muitos anos. Na cidade, ir a uma agência bancária, sacar algum dinheiro para pequenas despesas, não são coisas dignas de nota. Na cidade, contudo, nenhum evento corriqueiro está livre de tornar-se único. Pois está nas expectativas de qualquer um que adentrar o saguão da agência, o deparar-se com outra ou outras pessoas com igual propósito. Não, porém, o deparar-se com um cão.

Não era um cão absolutamente fora do contexto. Na verdade, o cão tinha guia e, conquanto não estivesse, no momento, seguro por ela, pela proximidade facilmente lhe deduzi o dono. Que pareceu não querer parecer o dono, talvez pelo constrangimento (que a mim não se deva: eu em nada o censuro) de trazer um cão ao banco.

Nem eu estava entretido com o ato, de resto cada vez mais embaraçoso e complexo, de convencer o terminal a nos dar um pouco de nosso próprio dinheiro. Estava apenas acompanhando um conhecido. De modo que minha atenção se desprendeu dele, e prendeu-se ao cão.

E cães, sendo animais fantásticos, não desprezam qualquer atenção que se lhes dê. Com uma rapidez que falta a muitos humanos, o cão retribuiu meu olhar; e com uma confiança que falta a quase todos, veio em minha direção.

Uma vez, e eu era apenas um guri, fui mandado para um hospital por um cão. Assim por mais que eu fosse então muito maior que aquele guri, e que o cão do banco fosse muito menor do que aquele cão da casa de minha infância, não pude reprimir um ligeiro encolhimento de medo do cão desconhecido que se aproximou inopinadamente de mim.

Depois disso e do pequeno constrangimento pela constatação desse medo avatar, senti-me grato e feliz porque, sem reservas, o cão se aproximou, abanou a cauda, e com o inconfundível olhar de amor de um cão, deixou-se por mim afagar, e subiu em minha perna para melhor curtir e retribuir o afago. Simples. Prazeroso e confiante… Incrível. E se eu fosse mau? E se eu o quisesse ferir? E se eu friamente lhe virasse as costas? Cães não consideram estas possibilidades. Fico pasmo, fico admirado. Fico grato por existirem.

Mas… E se, em vez de serem como eu disse, os cães considerarem, sim, a possível maldade de nós humanos, nossas plausíveis más intenções, nosso provável desprezo… e não se importarem? E se eles preferirem deliberadamente serem bons, apesar de não sermos dignos dessa bondade, nem de qualquer confiança que a bondade impõe? Se penso nisso, fico pasmo, fico admirado. Fico envergonhado por existir.

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