Ética e Renúncia

Desde um pouco depois de ter reproduzido o texto Dá para viver mais devagar?, tenho vontade de escrever sobre um aspecto especial dele: a espécie de ética que se destaca nas atitudes do povo sueco de que fala o autor.

Desisti de falar filosoficamente sobre o assunto “ética”, não só porque tenho pouco conhecimento a respeito, mas porque ia ficar maçante e o foco não é esse. Eu apenas queria ir além da reação óbvia de um brasileiro àquelas histórias, que é ficar embasbacado. Porque isso não leva a lugar nenhum. Então, queria tentar entender o que há por trás disso, sem complicar demais.

O mais importante é perceber que as atitudes elogiadas têm um ponto em comum: o respeito pelo próximo. Mais: a valorização do próximo, de suas opiniões e críticas (quando se diz que mesmo as idéias mais obviamente certas não são aplicadas antes de serem discutidas por todos) e de suas necessidades (quando se narra o episódio de que os adiantados estacionam mais longe do prédio para deixar as vagas próximas para os atrasados).

Na verdade, então, a coisa vai mais longe. O que essas pessoas praticam, ao menos quando agem da forma narrada no texto, é uma filosofia de renúncia em favor do outro. Isso tem nomes, até, que são altruísmo e solidariedade, mas como estas coisas normalmente são confundidas com caridade, e esta, por sua vez, com doações filantrópicas, o raciocínio não acrescenta muito, também.

Não, o importante é perceber que por trás de tudo há uma Ética da Renúncia, uma predisposição a dar às opiniões e necessidades dos outros pelo menos a mesma importância, e de preferência mais, do que às nossas próprias. O que exige, para começar, uma dose bem grande de humildade.

E foi pensando nisso que eu me dei conta que a maior parte das discussões filosóficas acadêmicas sobre Ética – com as quais, aliás, eu não tive contato suficiente que me autorize a falar sobre elas – giram em torno de aspectos formais sobre os conceitos de bem e de vontade, e esquecem isso, que é o principal, que é o foco no outro em toda relação entre duas ou mais pessoas, do qual o cultivo da humildade é pressuposto.

Os resultados bons do agir humilde e focado no outro decorrem do fato de que quando todos planejam e agem em prol de outras pessoas, além (ou em vez) de si próprios, são criados benefícios de verdade, que revertem em favor das pessoas, seja de algumas em especial, ou de toda a coletividade. Enfim, quando cada um joga para os demais, em geral todos ganham.

Porém, quando se planeja e age pensando só em si, e desejando represar para si todas as vantagens da ação, normalmente não se criam tantos benefícios, porque tendemos a refrear nossas atitudes sempre que chegarmos à conclusão de que não podemos tirar dela todas as vantagens possíveis. O resultado é que as pessoas se mergulham numa angústia paralisante e estéril. Quer dizer, quando cada um joga apenas para si, todos perdem.

Alguém pode objetar que quando se é generoso e altruísta numa sociedade em que todos os demais são ávidos e egoístas, é-se prejudicado na medida em que se possa ser explorado por essas outras pessoas. Discordo, porque, como disse acima, a paralisia decorrente do medo de não perder nada para os outros é mais prejudicial à pessoa do que a própria concretização de uma perda dessas.

Agindo para o bem alheio, pelo menos, a pessoa terá realizado algo, terá dado vazão ao impulso criador, terá vivido sua vida ativa que caracteriza e canaliza, da forma normal, sua condição humana. E o fato de os benefícios serem colhidos por outras pessoas será um apenas um acidente, menos prejudicial – repito – do que o nada fazer. Por isso, não se deve tentar evitar essa perda. Deve-se, aliás, contar com ela. Torná-la, na medida do possível, e verdadeiramente, uma doação.

Esse, parece-me, é um dos sentidos da sabedoria da passagem atribuída a Jesus Cristo, que diz: “Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra; e ao que te houver tirado a capa, nem a túnica recuses. E dá a qualquer que te pedir; e ao que tomar o que é teu, não lho tornes a pedir.”

Mas, é claro, não encontraremos essa Ética de Renúncia entre os “hábitos das pessoas altamente eficazes”, nem entre os “conselhos do pai rico”, nem entre os passos para a liderança, nem entre as não sei quantas leis do poder, nem entre as passagens da Arte da Guerra de Sun Tzu, dentre outras das muitas idéias que compõem o ethos do homem-em-sociedade contemporâneo. Idéias por cuja prática eu não hesitaria em culpar as próprias pessoas pela angústia e pela miséria que têm causado a si mesmas e aos demais, cada vez mais, nestes tempos em que vivemos.

Enfim, chego a uma conclusão. Não existe, não pode existir, um “bem” individual, próprio, um “bem” que cada um possa chamar de seu. Só o que fazemos por todos quantos precisem de nossas ações é que fazemos para o bem, nosso e de todos ao mesmo tempo.

O que fazemos para nós mesmos de modo egoísta, sem resultar em nenhum bem comum, não é bem nem mesmo para nós, a não ser no universo pequeno e torto e nossas cabeças idiotas de individualistas pós-modernos.

Anúncios

3 Responses to Ética e Renúncia

  1. Angel says:

    Caro Impressionista
    Posso falar sobre altruísmo, quanto ao campo da ética reconheço que o viés que escolheu é autêntico e concordo com todos os “istas” (egoístas, individualistas, etc)
    O altruísmo tem sido a única “arma” hoje no campo bioético para salvaguardar a venda de tráfico de órgãos humanos para transplantes. Neste sentido tenho visto pessoas motivadas pelo legítimo ato de doar parte de si para ajudar na manutenção da vida de outra pessoa. Quando isso acontece em vida, o que chamamos de doador vivo , e a doação é autêntica, e passa a ser uma experiência bonita de se ver e que hoje busco entender. Sou transplantada e graças ao altruísmo de 3 pessoas (já fiz 3 transplantes) posso estar aqui hoje postando neste blog.
    Penso estar tudo interligado, sujeitos éticos prezam por um modo de valorizar a vida e o altruísmo não combina com o egoísmo.
    Precisamos de mais poesia e isto o Impressionista tem de sobra!
    Angel

  2. Angelo Campos says:

    Para complementar seu argumento, procure a ética de Schopenhauer. Ao contrário do que se propala a seu respeito, este filósofo foi o mais genuíno quanto à ética da renúncia.

  3. Dalva says:

    Estou em 2016 ao fazer este comentário e vejo que nunca esteve tão atual!

Há espaço para comentários, que só são publicados após dupla moderação, automática e manual. Mensagens ofensivas ou sectárias serão eliminadas automaticamente pelo software, e provavelmente ninguém jamais as lerá, por isso o tempo de escrevê-las é perdido desde o início.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: