Perder-se é um achar-se perigoso

Topei com esta frase de Clarice Lispector (A paixão segundo G.H.), que me pôs a pensar. Pensar no presente momento da vida. Ou das vidas, tantas quantas caminhem sob o alcance de minha atenção. Não são tantas assim, mas por sua importância, transcendem todo o resto.

É que tenho feito de minha vida um caminho que se demarca na média dos caminhos das pessoas que vivem à minha volta. Sim, sou um seguidor, mais que um desbravador de caminhos. Falta-me algo para abri-los, talvez saber aonde desejo ir, talvez confiar nas rotas prontas que vivem descritas por aí, e que de resto foram feitas por quem ignora a existência de pessoas como eu.

Bem, o fato é que chegou finalmente o momento em que o curso das muitas vidas que, mais ou menos, eu acompanhava, divergiu e separou-se em direções distintas. E meus planos de fazer a média de todos os caminhos para definir o meu foram-se por água abaixo.

Pois o ponto médio de linhas que seguem em direções opostas não caminha, fica parado no mesmo lugar. Ou perde-se num curso sinuoso, espiralado, eternamente giratório em torno de seu próprio eixo. Soube o que é isto, senti-me perdido, foi grande minha aflição.

E demorou, não muito pouco, mas finalmente a solução me ocorreu: escolher alguns destes caminhos para continuar seguindo (pois sou um seguidor, mais que um desbravador de caminhos) e abandonar os demais à própria sorte, romper os laços que arrastavam consigo minha vida. O critério que usei para separar as vidas com as quais me manterei das que inevitavelmente me afastarei, a esta altura, já era óbvio: o Amor.

Já não me contentarei mais com que gostem de minha companhia, com que apreciem minhas palavras, com que gostem de contar com minha ajuda e presença. Faço doravante questão que me amem as pessoas cujos passos pretendo seguir. Que me amem, isto é, importem-se verdadeiramente comigo e, mais do que serem capazes de ver o mundo pelos meus olhos, senti-lo pela minha pele (o que já não é pouco), verdadeiramente gostem de fazê-lo e ajam levando em consideração, sempre que possível, meus sentimentos.

Aplicado tal critério, poucas vidas passam; mas, apesar de tão diferentes nas origens, na história, nos pensamentos superficiais, elas caminham tão semelhantes em seus propósitos e valores, que novamente eu, seguidor que sou, sinto-me à vontade em retomar o meu curso no meio da mancha deixada por suas pegadas. De todos vocês, que eu amo demais!

Anúncios

One Response to Perder-se é um achar-se perigoso

  1. Elienai Araújo says:

    Excelente blog. Parabéns!
    Eu o achei ao acaso, no sistema aleatório acima.
    Vou, sempre que puder, dar uma passada aqui. Seus textos primam pela sensibilidade, bom gosto e apreço ao idioma.
    Um abraço!

Há espaço para comentários, que só são publicados após dupla moderação, automática e manual. Mensagens ofensivas ou sectárias serão eliminadas automaticamente pelo software, e provavelmente ninguém jamais as lerá, por isso o tempo de escrevê-las é perdido desde o início.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: