Quem me dera

Acredito que muitas pessoas já desejaram ter a oportunidade de reviver seus dias de juventude para agir de modo diverso daquele que, acabaram por concluir, não foi o mais adequado. Não há, claro, tal possibilidade, e não só pela inexistência de viagens no tempo e pílulas da juventude. Sempre pensei que o maior problema com este tipo de pensamento é isto: como a conclusão e o julgamento sobre o agir passado somente são possíveis graças à vivência de suas conseqüências, e do eventual arrependimento que daí surge, mudar os atos originais eliminaria suas conseqüências diretas e indiretas, entre elas o próprio desejo de que as coisas tivessem sido diferentes.

Em tempos em que eu era mais impaciente, esse paradoxo sempre me fez rejeitar essas reflexões como uma perda de tempo decorrente de um raciocínio espúrio. Pois bem, um de meus arrependimentos nesta vida é não ter percebido mais cedo que espúrio, mesmo, é rejeitar várias de nossas reflexões invocando, para isso, regras supostamente ditadas pela razão.

Não sei porque damos ao restrito círculo de idéias que se enquadram nos cânones lógico-racionais tamanho poder sobre o restante de nossos pensamentos. Creio que o fazemos sobretudo pelo medo que temos de nós mesmos, daquela parte de nós que às vezes irrompe pelas fissuras dessa máscara de razão, com que pretendemos impingir aos outros a falsa idéia de nossa própria sanidade e equilíbrio intelectuais; máscara de que nos tornamos dependentes, no hábito de usá-la, que vício se torna.

Porque não há, na verdade, a razão. Ao menos não como é doce imaginar que ela seja: uma espécie de “selo de garantia” que torna críveis certas impressões, conclusões e convicções, como se fossem resultado de uma equação equilibrada de termos indiscutíveis. Mas não; fora da aritmética, não há razão além da mera sensação de certeza que ampara certos pensamentos. Mas essa sensação se forma de forma bem distinta; apóia-se, na verdade, num senso comum acerca dos fatos, que não precisa nem pode ser unânime, bastando que seja médio – e medíocre, não raro.

Tanto que rejeitamos com facilidade as “razões” solitárias dos loucos, mas hesitamos e tememos questionar a “razão” coletiva. Quando deveríamos questioná-la sempre e sobretudo, já que sua enorme inércia lhe confere multiplicado poder de destruição; já que o endosso público permite que insensatezes várias se propaguem e se perpetuem apenas por reverberação de ruído, desprovidas de qualquer mensagem real, e por mais monstruosas que sejam.

Pois bem…

Quem me dera, então, poder reviver os dias em que interessei-me (e tive, até, admiração) pelos feitos de grandes e famosos nomes, por conta de suas conquistas e lideranças; poderia fazê-los cessar antes, para dar lugar a mais do tempo em que, como agora, consigo admirar bem mais minha vizinha claudicante, pelo desvelado e genuíno amor com que cuida de um indefeso cãozinho e de uma samambaia despenteada, do que os feitos perpetrados (ao custo, não raro, de montanhas de cadáveres ensangüentados) por césares e napoleões, legisladores e libertadores, que à força de espadas e projetis de chumbo, mudaram à força e reiteradamente o mundo – assegurando apenas que continue exatamente como está.

Quem me dera ter podido calar antes a boca própria que papagaiava loas a coisas como as aberrações de concreto de um Oscar Niemeyer, dando-me conta mais cedo de que qualquer alpendre com vasos e trepadeira abriga mais o corpo e serve mais a alma do que as praças descampadas e estéreis, ofuscantes do sol que calcina suas superfícies crivadas de formas estruturais e silenciosas, qual lápides de mortos condenados a não gozar do repouso eterno.

Que bom seria ter sabido antes que um belo poema de cor vale mil bibliotecas, e que o trinado de um sabiá vivo vale cem gravações de sinfonias. Que uma oração nos dá a sensação de compreender o universo muito melhor do que um milhão de teoremas. Que respirar é um presente de Deus, e uma arte a ser aprendida. Que sorrir é o único remédio que é também o próprio sinal de cura. Que é muito mais fácil dizer “eu te amo” do que transmitir em silêncio a mesma mensagem – e só assim ser acreditado.

Que a vida de todo ser é muito frágil, tanto assim a nossa própria, e que a morte espreita a cada batida do relógio.

Que a morte não é o fim de nada.

Que coisa nenhuma é fim, a não ser para seu próprio começo.

E que escrever estas coisas não deve envolver nenhuma pretensão, nenhuma vontade, a não ser a de dar uma tentativa de forma, no mundo das coisas, àquilo que já era absolutamente no reino das idéias, o qual fica muito, muito distante, além da selva de cabelos e das muralhas do crânio. Idéias.

(E lembrar que alguém chamado Platão já disse algo assim, acho que com palavras melhores, e parece que no meio de um banquete, não sei ao certo; sei que morreu, já faz um tempão…)

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One Response to Quem me dera

  1. maura says:

    lindo esse ensaio para vc com carinho

    Resposta d’O Impressionista:

    Agradecido pelo seu carinho.

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