Existência Divina

(…) O Deus pessoal reflete uma importante intuição religiosa: que nenhum valor supremo pode ser menos que humano. Assim, o personalismo foi um importante e – para muitos – indispensável estágio de desenvolvimento religioso e moral. Os profetas de Israel atribuíram suas próprias emoções e paixões a Deus; budistas e hindus tiveram de incluir uma devoção pessoal a avatares da realidade suprema. O cristianismo fez de uma pessoa humana o centro da vida religiosa, de uma forma única na história da religião: levou ao extremo o personalismo inerente no judaísmo. Talvez sem um certo grau desse tipo de identificação e empatia, a religião não possa deitar raízes.

Contudo, um Deus pessoal pode tornar-se uma séria responsabilidade. Pode ser um mero ídolo esculpido à nossa imagem, uma projeção de nossas limitadas necessidades, temores e desejos. Podemos supor que ele ama o que amamos e odeia o que odiamos, endossando nossos preconceitos em vez de nos obrigar a transcendê-los. Quando ele parece não impedir uma catástrofe, ou mesmo desejar uma tragédia, pode dar a impressão de ser insensível e cruel. Uma fácil crença em que um desastre é a vontade de Deus pode nos fazer aceitar coisas fundamentalmente inaceitáveis. O próprio fato de que, como pessoa, Deus tem um gênero sexual é também limitante: significa que a sexualidade de metade da raça humana é sacralizada à custa do feminino, e pode levar a um desequilíbrio newurótico e inadequado nos costumes sexuais humanos. Um Deus pessoal pode ser perigoso, portanto. Em vez de nos puxar para além de nossas limitações, “ele” pode nos encorajar a permanecer complacentemente nelas; “ele pode nos tornar tão cruéis, insensíveis e auto-satisfeitos quanto “ele” parece ser. Em vez de inspirar a compaixão que deve caracterizar toda religião avançada, “ele” pode nos estimular a julgar, condenar e excluir. Aparentemente, portanto, a idéia de um Deus pessoal só pode ser uma etapa em nosso desenvolvimento religioso. (…) (Karen Armstrong, Uma História de Deus: quatro milênios de busca do Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. Págs. 215-6)

Que ninguém pense que transcrevo a passagem acima motivado por uma arrogante rejeição ao pensamento religioso, militando alguma espécie de auto-suficiente agnosticismo. Muito ao contrário, encontrei-na no meio da procura humilde e quotidiana de um sentido espiritual da vida: uma experiência, ainda que indescritível, de que estar vivo seja mais do que a participação transitória nos ciclos da matéria sensível. Bem por isso acho muito válidos os cuidados que inspira o texto, para que não permitamos que a experiência do divino em todas as coisas seja conspurcada por nossos baixos anseios condicionados de apego, posse, poder… Caso em que deixa de ser experiência do divino universal para recair no meramente humano, mortal, material, transitório. O que, na melhor das hipóteses, resulta em frustração e perda de tempo; na pior, em cruzadas, pogroms e atentados – massacres.

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