60 anos sem Gandhi

Neste dia, 30 de janeiro, faz 60 anos do assassinato de Mahatma Gandhi. A Associação Palas Athena rende tributo à sua memória através das reflexões de dois pensadores comprometidos com a não-violência ativa, propositiva e edificante – Prof. Jean-Marie Muller, do Movimento para uma Alternativa Não-violenta (Paris) e Profa. Lia Diskin, co-fundadora da Associação Palas Athena.

Gandhi pertence ao nosso futuro
Jean Marie Muller*

30 de janeiro de 1948, por volta das dezessete horas, no jardim da residência em Nova Delhi, Gandhi se dirige ao local de preces, um homem se inclina diante dele em sinal de respeito e dispara três balas de revolver. Gandhi se abaixa e morre em seguida. Passados sessenta anos de sua morte, que imagem ainda permanece para os ocidentais daquele homem que conduziu seu povo à independência? Que idéia fazem da não-violência pela qual ele viveu e morreu? Certamente o nome e o rosto de Gandhi tornaram-se familiares aos ocidentais; no entanto, seu pensamento e ação continuam amplamente desconhecidos. Geralmente, nutrem por ele uma admiração longínqua, como uma daquelas personagens que a lenda revestiu com uma aura de sabedoria. Gandhi continua, portanto, completamente desconhecido, apesar da celebridade. O prisma deformante da ideologia da violência necessária, legítima e honrosa, dominante em nossa cultura, nos faz perceber a não-violência como um idealismo não calcado na realidade. Generoso, talvez, mas irresponsável.

Gandhi ressaltava que a não-violência era tão velha quanto as montanhas. De fato, ele não “inventou” a não-violência. Essa se radica nas mais antigas tradições religiosas, espirituais, filosóficas e sapienciais que constituem o patrimônio universal da humanidade. Gandhi reivindicou explicitamente a herança dos grandes sábios que o precederam na busca da verdade. No entanto, seu aporte é essencial na compreensão da não-violência. Existe um antes e um pós-Gandhi na reflexão filosófica do princípio da não-violência que fundamenta a humanidade do homem, e na experimentação política dos métodos de ação não-violenta que permitem a resolução pacífica dos conflitos.

Em 1920, Gandhi traduz para o inglês o vocábulo sânscrito ahimsa por “não-violência”, empregado nos textos da literatura hinduísta, jainista e budista. Formado pelo prefixo negativo “a” e pelo substantivo “himsa” que significa o desejo de causar dano, de causar violência a um ser vivo. O ahimsa é portanto o reconhecimento, o refrear, o domínio e a renúncia ao desejo de violência que há no homem e que o conduz a querer afastar, excluir, eliminar, matar o outro homem. Quando tenta definir a não-violência, Gandhi enuncia primeiramente a proposição inteiramente negativa: “A não-violência perfeita é a abstenção completa da intenção de causar mal a qualquer ser vivo”. Somente em seguida ele afirma: “Em sua forma ativa, a não-violência é a tolerância para com qualquer ser vivo”.

Para Gandhi, a não-violência não é apenas nem em primeira instância um método de ação, é uma atitude, isto é, um olhar, um olhar de bondade para com o outro homem, sobretudo em relação ao homem diferente, o desconhecido, o estrangeiro, o intruso, o inoportuno, o inimigo, um olhar também de compaixão para com o homem oprimido, aquele que sofre a injustiça, a humilhação, o ultraje. A não-violência é, segundo Gandhi, o próprio princípio da busca pela verdade. A história está aí para comprovar, hoje como ontem, que a verdade se torna um vetor de violência quando não ancorada na exigência de não-violência. Se a verdade não afirma a absoluta desumanidade da violência, então sempre haverá um momento em que a violência surgirá naturalmente como um meio legítimo para defender a verdade. Somente o reconhecimento da exigência de não-violência permite recusar de uma vez por todas a ilusão, veiculada por todas as ideologias, de recorrer à violência na defesa da verdade.

A busca da verdade pelo trilhar da não-violência exige mobilizar meios de ação coerentes com o fim almejado. Nos conflitos sociais e políticos, a verdade deve ser traduzida na ação. A força da verdade passa a ser, portanto, a força da ação verdadeira, isto é, da ação justa. O aporte decisivo de Gandhi é o de nos livrar da opção bipolar, imposta pela ideologia dominante, em que teríamos como opção apenas a covardia e a violência. Esta ideologia exerce uma real chantagem em nossas consciências: se não aceitamos a violência é por sermos covardes. Conseqüentemente, escolheremos a violência para não parecermos covardes. Gandhi nos abre uma terceira possibilidade ao nos propor optar entre a violência, a covardia e a não-violência. Não devemos nos deixar equivocar acerca de sua proposição. Ele não aconselha escolher a violência para não ser covarde. Ele nos aconselha a escolher a não-violência para não sermos violentos nem covardes.

A humanidade certamente não chegará a responder aos desafios com os quais se vê confrontada hoje se não for ao encontro das intuições essenciais de Gandhi, visto que ele nos convida a revisitar as heranças de nossas tradições históricas – tanto filosóficas, religiosas quanto políticas – e a tomar consciência de todas as cumplicidades com o império da violência mantidas por nossa cultura. Podemos então mensurar a urgência em desenvolver uma cultura da não-violência. O que ameaça a paz no mundo e em cada uma de nossas sociedades são as ideologias fundadas na discriminação e na exclusão – quer se trate de nacionalismo, racismo, xenofobia, integrismo religioso ou toda e qualquer doutrina econômica fundamentada apenas na procura pelo lucro – todas comprometidas com a ideologia da violência. O que ameaça a paz, definitivamente, não são os conflitos, mas a ideologia que faz os homens acreditarem que a violência é o único meio de resolver tais conflitos. Essa ideologia ensina o menosprezo ao outro, o ódio ao inimigo; arma os sentimentos, os desejos, as inteligências e os braços. Ela instrumentaliza o homem fazendo dele um homicida com a consciência tranqüila. Portanto, é ela que deve ser combatida em primeiro lugar.

A violência constrói muros e destrói pontes. A não-violência nos convida a derrubar muros e construir pontes. Tarefa extremamente difícil. A arquitetura dos muros não exige qualquer imaginação: basta seguir a lei da gravidade; enquanto a das pontes exige muito mais inteligência: é preciso vencer a força da gravidade. Os muros mais visíveis que separam os homens são os de cimento que martirizam a geografia e dividem a terra que necessita ser compartilhada. Mas existem também muros no coração e na mente dos homens. São os muros de ideologias, preconceitos, menosprezos, estigmatizações, rancores, ressentimentos, medos. Apenas aqueles que, seja qual for o campo em que atuam, tiverem a lucidez, a inteligência e a coragem de derrubar esses muros e construir pontes que possibilitam aos homens, às comunidades e aos povos se encontrarem, se reconhecerem, dialogarem e começarem a se compreender, somente estes são os artesões da paz que salvaguardam o futuro da humanidade.

“A violência”, afirmava Gandhi, “é um suicídio” Neste início de século XXI, não seria oportuno tomar consciência de que a violência é decididamente incapaz de trazer uma solução humana aos inevitáveis conflitos que constituem a trama de nossa existência e de nossa história, de compreender que a violência nunca é a solução, mas sempre o problema? As imagens de ferro, de fogo, de sangue e de morte que constituem a matéria-prima da atualidade nos trazem diariamente a prova de que a violência é incapaz de construir a história e consegue tão-somente destruí-la. Diante da tragédia da violência, ante sua desumanidade, frente a seu absurdo e ineficácia, não seria chegado o momento de, por realismo ou então por sabedoria, tomar consciência da evidência da não-violência?

(*) Filósofo e escritor francês, Jean-Marie Muller é porta-voz nacional do Movimento para uma Alternativa Não-violenta (MAN), França. Tradução: Inês Polegato Jan/08

 

Gandhi tornou-se inevitável
Lia Diskin*

Ainda não finalizamos a primeira década deste 3º milênio e já carregamos as marcas de duas datas que, como espadas de Demócles, ameaçam o potencial afetivo e de criatividade que caracteriza o humano. Referimo-nos ao dia 11 de setembro de 2001, quando a perplexidade tomou conta de todos nós frente ao horror de verificar que o terrorismo adquiriu uma sofisticação técnica e uma eficiência jamais imaginadas. A outra data é o dia 2 de fevereiro de 2007, quando o Painel Inter-governamental sobre Mudanças Climáticas lançou em Paris o relatório elaborado por cientistas do mundo inteiro evidenciando, de maneira incontestável, que a ação humana é a responsável pelo aquecimento global e desequilíbrio do ecossistema planetário, cujo colapso pode inviabilizar a sobrevivência não só da nossa espécie como da Vida na Terra.

Nenhuma dessas marcas é fruto de calamidades desencadeadas por forças cósmicas ou naturais. Elas são produto e efeito das nossas escolhas historicamente reproduzidas e de modalidades culturais que adjudicam a si próprias uma superioridade sobre as outras, dessa maneira naturalizando e legitimando o recurso à violência e a ganância. Não há como continuar a ignorar isto, nem há justificativas para persistir no ato de alimentar um modelo civilizatório claramente suicida. Hoje a mudança não é mais uma escolha. É uma necessidade, uma exigência ― Gandhi tornou-se inevitável.

Na longa trajetória de reformador social e político, o Mahatma testou princípios e estratégias, entre os quais encontramos um tríptico cuja arquitetura ainda aguarda para ser implementada em sua integridade sistêmica. Trata-se de satyagraha, sarvodaya e ahimsa, que nos dias de hoje podemos traduzir por transparência estrutural, economia solidária e direitos humanos.

Sobre este tripé pode erguer-se o fundamento da tão buscada sustentabilidade, que nos leva a revisitar modelos mentais, avaliar crenças e pressupostos que deram ao nosso conhecimento a prerrogativa de querer submeter a Realidade às nossas demandas.

Quando Gandhi identificava Deus com a Verdade deixava claro que há uma dimensão na Realidade que escapa à nossa compreensão ― estamos imersos em um pluriverso de Vida cujos desígnios desconhecemos. Isso, por si só, deveria tornar-nos humildes e reverentes frente a qualquer manifestação que essa Vida adquire. A interdependência como princípio de organização biológica impregna todas as dimensões do nosso ser, portanto, não vivemos, convivemos. Não existimos, coexistimos. É isto o que Gandhi assinala quando afirma: “Tudo que vive é o teu próximo”.

Neste 60º aniversário da sua morte, o melhor tributo que podemos render-lhe é debruçarmo-nos sobre sua vida e seus escritos ― milhares de páginas em livros, periódicos, documentos e panfletos ― onde há pistas visionárias com as quais desenhar programas de educação universal e de ação inovadora. A vitalidade e atualidade de suas idéias são as alavancas para uma mudança de paradigma, cuja implementação demanda a participação de todos os setores da sociedade em coordenação de redes co-responsáveis que harmonizem autonomia e interdependência, liberdade e solidariedade, necessidades sociais e materiais, identidade cultural e cidadania planetária.

A Realidade se impõe, e o convite já foi feito: “Nós devemos ser a mudança que queremos ver no mundo”.

(*) Co-fundadora da Associação Palas Athena.

 

 

 

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