Aonde vai parar todo aquele plástico…

19/03/2008

Viagem ao centro da “lixeira” do oceano Pacífico

Gaëlle Dupont
Enviada especial a Long Beach, Califórnia


Charles Moore conserva os seus achados mais preciosos num armário de ferro no fundo do seu jardim, perto do oceano Pacífico, em Long Beach, Califórnia. Há dez anos que, a bordo de um catamarã batizado Alguita, este homem vem caçando obstinadamente uma presa singular, o plástico encalhado no fundo do oceano. E ele encontra objetos de plástico de toda natureza, dos mais diversos tamanhos e origens. “Os meus prediletos são os ganchos de guarda-chuva”, diz ele, em tom de brincadeira.

Entre esses objetos, há também um grande pacote de escovas de dentes, canetas, vasilhas deformadas pelas mordidas dos tubarões. Uma bola em forma de coração. Capacetes de canteiros de obras. “Este aqui é russo, a inscrição é em cirílico”, observa Charles Moore. “Este outro tem cara de ser asiático”. Mas os objetos identificáveis não constituem o aspecto mais importante desta “pesca”, pois nenhum deles permanece inteiro por muito tempo, ao serem sacudidos pelas correntes. A maior parte da colheita é menos espetacular, porém mais preocupante.

São partículas menores do que um grão de areia, que resultam da deterioração dos objetos. Os granulados que servem de matéria-prima para a indústria do plástico também estão presentes em quantidades enormes. Naquele momento, Charles Moore acabara de descarregar do Alguita cerca de cinqüenta amostragens desta “sopa de plástico”, que ele havia coletado em alto-mar em fevereiro. “O oceano está ficando repleto de resíduos”, suspira, agitando um dos bocais de vidro.

O capitão tem cerca de 60 anos. Ele tem o olhar exangue e a pele morena e burilada dos marinheiros, além de uma autoridade natural na voz. Iniciado à vida e às manobras a bordo desde a infância pelo seu pai, por muito tempo ele ganhou a sua vida dirigindo uma empresa de restauração de móveis, antes de passar a se dedicar àquilo que mais o interessa no mundo, o mar. “Eu cresci com o espetáculo do oceano diante de mim, e acompanhei o seu processo de deterioração”, conta.

O seu interesse no plástico resulta de um evento casual. Em 1997, ao retornar de uma competição de veleiros que o conduziu de Los Angeles até Honolulu, o navegador tomou a decisão de passar por uma rota habitualmente evitada pelos marinheiros, pois ela atravessava uma zona de altas pressões, sem vento, onde as correntes se enroscam no sentido das agulhas de um relógio: o Giro do Pacífico Norte. “Dia após dia, eu não consegui ver nenhum golfinho, nenhuma baleia, nenhum peixe sequer; tudo o que eu via ali era plástico”, recorda-se.

Charles Moore apaixonou-se por este lugar esquecido. Ele criou uma fundação, fez com que ela fosse financiada por doadores privados e, com a ajuda de cientistas especialistas na poluição da água, desenvolveu um método de quantificação dos detritos, antes de retornar para aquela área. Os primeiros resultados das pesquisas foram divulgados pela publicação especializada “The Marine Pollution Bulletin” em 2001. A equipe recenseou 334.271 fragmentos de plástico por km2 em média (e até mesmo a quantidade máxima de 969.777 fragmentos por km2 em certos lugares), para um peso médio de 5 kg/km2. A massa de plástico é seis vezes mais elevada do que a massa de plâncton colhida no local. O Giro atua como uma armadilha para as partículas.

O lugar onde as amostragens foram colhidas, que é tão grande quanto o Texas, é batizado de Eastern Garbage Patch, a “Porção-lixo do Leste” do Pacífico. Qual é a superfície total desta vasta “lata de lixo”? “Isso, nós ainda não descobrimos”, responde Charles Moore. “A água está sempre em movimento, e, com isso, a poluição fica muito difícil de medir. Eu percorri 150 mil quilômetros a bordo do Alguita pelo Pacífico Norte, e encontrei plástico por todo lugar”.

A mais recente viagem do Alguita permitiu constatar um agravamento dos níveis de poluição. “Foi verdadeiramente chocante constatar que em cada colheita que nós trazíamos do fundo do mar para a superfície, a rede estava sistematicamente lotada de partículas e objetos de plástico”, observa Jeffery Ernst, 22 anos, que acaba de obter o seu diploma de biologia marinha e que se alistou como voluntário para integrar a tripulação do Alguita. Os fragmentos, que são colhidos por meio de um grande jereré sofisticado, deverão ser selecionados e classificados em 128 categorias diferentes, em função do seu tipo (fio, filme, espuma, fragmento, granulados), do seu tamanho e da sua cor.

O capitão Moore não é um cientista de formação, mas o seu trabalho vem sendo reconhecido pelos especialistas neste tipo de poluição. Isso porque ele percorre locais aonde ninguém nunca vai, no meio do Pacífico. “Ele demonstrou que esta poluição realmente existe; é um pioneiro neste campo”, comenta Anthony Andrady, um especialista nos polímeros que atua no centro de pesquisas Research Triangle Institute.

Segundo Andrady, o impacto desta poluição é atualmente “subestimado”. Cerca de 245 milhões de toneladas de plástico, no total, foram produzidas em todo o mundo em 2006. Uma parte desta produção, difícil de quantificar, é jogada no oceano. A matéria plástica, que é muito leve, é transportada não só pelo vento, como também e principalmente pelos rios e pelos sistemas de evacuação das águas urbanas. Isso sem esquecer dos detritos abandonados nas praias. Cerca de 80% do entulho de plástico encontrado no mar provêm da terra. Apenas 20% são despejados por navios.

O plástico possui muitas qualidades. Ele é relativamente barato, muito prático e resistente. Resistente demais, justamente, quando ele escapa dos circuitos de coleta e de destruição dos detritos. No meio da natureza, ele parece ser indestrutível. “Ninguém sabe ao certo quanto tempo ele leva para desaparecer por completo”, explica Anthony Andrady. “Ele pode fragmentar-se a ponto de se transformar em pó, mas ele permanece ali, no meio ambiente. Nenhum microorganismo é capaz de deteriorá-lo por completo. Todo e qualquer objeto de plástico que escapou para se misturar no meio ambiente, desde que esta matéria é fabricada, nele continua presente”.

É impossível limpar o oceano. “Isso equivaleria a tentar filtrar toda a areia do deserto do Saara por meio de uma peneira”, diz Charles Moore. A única solução, segundo ele, é passar a desenvolver o plástico de tipo reciclável, biodegradável, cuja produção atualmente permanece muito incipiente, e mudar os nossos hábitos. “Nós deveríamos reservar o plástico apenas para os objetos que são verdadeiramente destinados a durarem”.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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