Esnobismo

(snobisme) – Ser esnobe é tomar como modelo uma elite, ou uma suposta elite, na impossibilidade de poder pertencer a ela. O esnobe arremeda uma distinção que não tem, que não pode ter. Quer menos se tornar o que imita (já não seria esnobismo, e sim emulação) do que assumir sua aparência. Sua arte é toda de ingenuidade e de artifícios: é um simulador sincero, como bom histérico que às vezes é, e crédulo, como bom supersticioso que muitas vezes é: um idólatra da forma, um adorador dos signos. Muito próximo aqui do dândi, com o humor a menos e o ridículo a mais. É um dândi que se crê, quando o dândi seria, ao contrário, um esnobe que se sabe.

Uma etimologia duvidosa, mas sugestiva, pretende que a palavra esnobe, de origem inglesa é claro (snob), vem do latin sine nobilitate. O esnobe não tem nobreza e tenta mascarar esse fato; ele gostaria de passar pelo nobre que não é, ostentando modos que imagina ser os da aristocracia. É a síndrome de Monsieur Jourdain: um burguês que quer passar por fidalgo. É apenas um esnobismo entre tantos outros, hoje porém um tanto anacrônico. Nossos esnobes têm outros modelos. Mas são esnobes, hoje como no tempo de Molière, pela incapacidade em adotar outra coisa que não as aparências. Seja, por exemplo, a cultura: ostetar a que se tem é ser pretensioso ou pedante; simular a que não se tem é ser esnobe. A riqueza? Exibir a sua é ser vaidoso, volgar, exibido; querer passar por rico é ser esnobe. As relações, as conquistas? Ostentar verdadeiras é ser mundano ou grosseiro. Exagerá-las ou inventar falsas é ser esnobe.

É aqui que o esnobismo coincide com a má-fé: ser esnobe é querer passar pelo que não se é, imitando aqueles que admira, que inveja ou com quem gostaria de se parecer. O esnobe se distingue, assim, do hipócrita, que imita tão-só por interesse, não por inveja, que não quer parecer mas enganar, que não admira mas utiliza. O esnobe geralmente é o primeiro – e às vezes o único – a se deixar enganar por seu personagem. É o que o torna mais simpático, mais ridículo e menos raro. Para um tartufo, quantos burgueses fidalgos e preciosas ridículas? A hipocrisia é a exceção: o esnobismno, a regra. Quem pode estar certo de sempre lhe escapar? Alguém escreveria, se não quisesse passar por escritor? Alguém leria, se não quisesse que ficassem sabendo de suas leituras? Todos começam por simular, por imitar o que lhes falta, e se assim não fosse não haveria cultura. O esnobismo é apenas um primeiro passo, que gostaria de dar a ilusão do percurso inteiro. O erro não é imitar, mas simular, e é isso o próprio esnobismo: contentar-se com um jogo de aparências, em vez de se impor um trabalho efetivo, a única coisa que possibilita avançar verdadeiramente. Se Monsieur Jourdain toma aulas de música ou de filosofia, não sou eu que vou criticá-lo por isso. Mas ninguém pode fingir que pensa, nem que canta. O esnobe é um mau aluno; ele banca o professor, em vez de fazer o dever de casa.

(fonte: André Comte-Sponville. Dicionário Filosófico. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 202)

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One Response to Esnobismo

  1. Cristi says:

    Adorei. Abriu meus olhos.

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