Jogos sinistros

Sinto quase obrigação de transcrever – por concordar com ele tão inteiramente – o texto abaixo, publicado na Folha de S. Paulo de 06.08.2008:

MARCELO COELHO

Olimpíada sinistra


A realidade é escondida à força, cria-se um mundo de fantasia cheio de slogans e sorrisos


BOICOTAR OS Jogos Olímpicos de Pequim era, sem dúvida, uma alternativa irrealista para qualquer governo deste planeta.
Tudo bem, nenhum país boicotou.
Boicoto eu, então, e motivos não me faltam.
Não me estendo sobre os mais imediatos, como os repetidos casos de perseguição a oponentes políticos e os atentados à liberdade de informação.
De resto, o que se escreve sobre esse tipo de coisa tende a submergir no oba-oba esportivo. Mesmo entre os que são simpáticos ao problema dos direitos humanos no mundo, a força da TV e da propaganda faz surgir um raciocínio perverso: “Até sei do que acontece na China, mas no momento não quero saber e vou fazer de conta que não sei”.
Melhor, talvez, começar não com o que as autoridades chinesas querem censurar, e sim com o que mostram de positivo. Antes de mais nada, achei detestável a arquitetura que o evento produziu. Aquele tal ninho mumificado que criaram para servir de estádio me parece um acinte ao próprio ideal clássico de equilíbrio que, em teoria, tinha de inspirar uma Olimpíada.
Criou-se uma bagunça de bandagens metálicas, com 36 km de talas de aço, misto de camisa-de-força e macarrão de pacotinho, como a figurar um monte de amarras impostas sobre alguma força interna que poderia se expandir se deixassem. O escritório suíço autor do projeto, Herzog e De Meuron, fora responsável por aquele ridículo pneu branco gigante que responde pelo nome de Allianz Arena de Munique.
Agora, parece lançar sobre Pequim o resultado dos lazeres de uma enfermeira ou de um ortopedista aposentado, que se deu mal na tentativa de reproduzir o tal pneu perfeito com os restos do esparadrapo e gesso de sua última operação.
O famoso “Cubo de Água”, que nem é cubo, talvez impressione ao vivo; nas fotos, tem forte semelhança com aqueles shoppings de artigos contrabandeados que abrem e fecham todo o tempo aqui em SP.
Por falar em água, nada me trouxe tanto mal-estar quanto a foto, amplamente reproduzida, de um verdadeiro batalhão de policiais chineses, impecavelmente uniformizados, catando as algas que infestavam o lugar onde se realizarão as provas de iatismo.
O empenho dos guardas em tirar de vista qualquer vestígio de poluição ambiental não poderia simbolizar melhor o delírio dos governantes chineses. Quem são estes, aliás? No anonimato de seus ternos pretos, formam a Burocracia mais impenetrável do mundo.
Repete-se o delírio na hora de reduzir a poluição do ar. Baixam-se proibições de emergência -carros têm de respeitar um rodízio radical, indústrias são fechadas, há faixas especiais de circulação para os que visitarem Pequim nesses dias de jogos, e em tudo isso ficam transparentes algumas características típicas de todo regime totalitário.
Não que eu seja contra rodízios de carros. O problema, no caso, é que tudo é feito para as Olimpíadas, e não para melhorar a vida dos próprios habitantes. Com toda a benevolência da direita (que celebra a lucratividade do evento e a “modernidade” que chega finalmente à China), ocorre um processo bem stalinista.
A realidade é escondida à força, cria-se um mundo de fantasia cheio de slogans e sorrisos, e o regime tenta fazer com que um céu poluído fique azul a todo custo.
Até as favelas, ou seja lá que nome tradicional tenham em Pequim, foram arrasadas para a construção dos novos palácios da “modernidade”.
Os moradores que tentaram resistir à remoção foram silenciados. Veja-se, sobre isso, o relatório da organização internacional Human Rights Watch na internet.
Ni Yulan, uma advogada de 47 anos que resolveu defender os removidos, foi atacada por uma dúzia de homens, espancada até perder a consciência, e está presa por resistir a determinações oficiais.
Isso, para glória da modernidade arquitetônica e da “perfeita organização” dos Jogos de Pequim. Sempre é perfeita, aliás, em eventos desse tipo. Foi perfeita até nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro.
Traficantes deixaram de queimar pessoas vivas, milícias deixaram de torturar suspeitos.
Depois, claro, tudo volta ao normal. Interessa passar uma “boa imagem” para o mundo. E que interessa o destino de Ni Yulan? Precisamos saber se determinado atleta búlgaro do salto com vara vai superar em 0,01 milímetro o recorde de quatro anos atrás.

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3 Responses to Jogos sinistros

  1. Achei interessante a interpretação que li em http://www.saindodamatrix.com.br Heróis olimpicos
    é uma outra forma de compreensão da mesma questão.E tão válida quanto.

    Resposta d’O Impressionista:
    Primeiro, desculpas pela demora em responder. Não é sempre que tenho como lidar com o blog.
    Bem, li o texto. Talvez por azar meu, não consigo ver a coisa daquela maneira. Tenho meus motivos, mas não certeza absoluta de que os compreendo inteiramente, se achar que posso chegar perto disso escreverei um outro post. Abraço!

  2. D. Urtigão sugeriu ler teu post. VALEU! Concordo em gênero, número de “degrau” com seu texto. O meu problema é vencer essa incrível sensação de impotência para fazer algo contra este estado de coisas (ou coisas do estado). E a gente vai vivendo…

    Resposta D’O Impressionista:
    Agradecido pela leitura. Acho que por menos que possamos fazer contra esse estado de coisas, já é muito o que façamos contra nossa própria “anestesia” causada pela banalização que hoje ocorre com tudo o que é ruim e desumano… Contra a indiferença que essa insensibilidade acarreta. Nosso sofrimento até aumenta com isso, mas nossa humanidade também, muito mais.

  3. Pingback: Implicâncias « O Impressionista

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