Prometi a Srª Dª Urtigão uma melhor explicação de minha discordância em considerar heróicos os feitos dos atletas olímpicos, se as conseguisse esclarecer para mim mesmo. Porque esse ponto é independente da minha oposição aos jogos recém encerrados em Pequim, e ao regime que a patrocinou, de resto expressa em minha adesão incondicionada ao texto de Marcelo Coelho publicado na Folha de S. Paulo de 06.08.2008.

Por ter por base sentimentos e opiniões muito pessoais a respeito do assunto, queria deixar claro que não tenho a menor intenção de polemizar o assunto, ou melhor, de contestar como erradas as opiniões diferentes da minha.

Acho “herói” uma daquelas palavra que não deveriam ter seu conceito gasto pelo uso irrefletido. Quanto ao conceito, fico com o de Joseph Campbell, tão versado no assunto, e ser humano muito de minha admiração: “Uma das muitas distinções entre a celebridade e o herói é que um vive apenas para si, enquanto o outro age para redimir a sociedade. O objetivo último da busca não será nem evasão nem êxtase, para si mesmo, mas a conquista da sabedoria e do poder para servir aos outros.” (fonte: Wikiquote)

Talvez pela raridade dessa motivação entre os seres humanos ordinários, são muito poucos os verdadeiros heróis, por essa definição, que não sejam míticos. Pressionando a memória por exemplos de heróis reais e contemporâneos, vêm-me nomes como Gandhi e Martin Luther King.

Assim, o talento excepcional de um indivíduo, e seus feitos ao exercitá-lo, não constituem necessariamente atos de heroísmo, se não têm a intenção – e o resultado ao menos potencial – de conquista a transcender o indivíduo, se o indivíduo não exercita seu talento generosamente, como instrumento para o serviço a outrem. Algo, aí, a ver com minhas impressões sobre ética e renúncia.

Tenho reservas ao apelo – propagandístico e publicitário, sobretudo – ao orgulho de todo um povo pelos feitos e talentos excepcionais de alguns de seus integrantes, porque vejo nisso muito claramente uma forma de falsear a semântica desses atos. Como se – vamos ao exemplo – a indiscutível habilidade automobilística de um Ayrton Senna (em tempo, nada tenho contra ele!), associada ao traço comum de sermos ambos brasileiros, beneficiasse a mim – e aos demais brasileiros.

A mistificação do atleta raciocina como se, ao aplicar sua força, sua habilidade e seu equilíbrio para vencer provas e disputas, então, o esportista estivesse engrandecendo todo o povo de que é oriundo. Por esse gesto generoso e despreendido, então, caber-lhe-ia o título de herói. Mas eu discordo.

Não que me seja estranho o sentimento de ser brasileiro. Mas esse sentimento, para mim, deve parar no mero afeto (um pouco menos, até: simples conforto, familiaridade) naturalmente dedicado ao espaço e à cultura que me acompanham desde o nascimento. Não autoriza considerá-los superiores aos de outrem. Não autoriza sequer a comparação com os de outrem.

Tenho consciência de que não faço coro com a multidão ao pensar assim. E de que muitos me consideram um chato de galocha. Nem acho que possa sentir-me superior a quem quer que seja por conta disso. Mas é uma forma de raciocínio pessoalmente importante, que ordena a minha consciência e o meu relacionamento com o mundo à minha volta.

Não sou incapaz de torcer por um(a) atleta numa competição, nem de admirar as habilidades e talentos que demonstra. Mas causa-me uma espécie de alergia moral o endeusamento dos mesmos pelos meios de comunicação, a imposição de sua imagem, a reiteração de seus momentos, como se ali estivesse acontecendo algum exemplo de momento histórico crucial para toda uma nação. Não está. E a prova de que não está é que todos já os esqueceram, e só não esqueceram onde fica Pequim porque agora lá estão acontecendo as paraolimpíadas.

E, a propósito, depois delas, independente de quantas medalhas os para-atletas (nem sei se existe a palavra, mas vocês entenderam…) brasileiros ganhem, as cidades brasileiras continuarão sem semáforos sonoros e sem rampas nas guias das calçadas. Ou seja, , não vai mudar em absolutamente nada a vida dos “para-não-atletas”, que estão para os para-atletas assim como eu, ser sedentário e descuidado, estou para qualquer um dos jogadores da seleção brasileira de vôlei.

E já que estamos falando de forma física, ou, ao menos no meu caso, da falta dela, será que só eu fiquei perplexo com as formas inumanas e monstruosas adquiridas pelos corpos de vários(as) atletas, em virtude do exercício intenso (e sabe-se lá mais do quê)? Será mesmo que esse pináculo, essa realização plena da existência humana, exige adquirir a silhueta de um vilão de video-game?

Não, acho que a projeção do esporte e dos esportistas pelos meios de comunicação (não só aqui como em tantos outros países) é um abuso do efeito magnético que seus feitos têm sobre as pessoas, destinado exclusivamente a ganhar o muito dinheiro que pode ser ganho com isso.

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Um comentário sobre “Implicâncias

  1. Em primeiro lugar, peço desculpas pela demora em vir até aqui, mas passei dias em estradas, indo e vindo, para atender necessidades de filhos (e minhas carências). E, afinal, gosto do meu “bólidozinho” solto pelas ilusòriamente intermináveis estradas e gosto muito das paisagens, portanto o esforço nem é heróico, apenas prazeiroso. Como é sempre um prazer ler suas análises claras e brilhantes. E, posso até ter dado uma impressão errada, mas concordo com elas. Como discordo da condição de se afastar o humano de si pela produção constante do espetáculo, mesmo quando à custa da ética ou da integridade. Pois afinal, como seriamos consumidores se nos fosse permitido refletir?
    Um abraço e cada vez mais, admiração.

    Resposta d’O Impressionista:
    Antes de outra coisa, não precisa pedir desculpas: primeiro porque o tempo do blog é o tempo das garrafas com mensagens, atiradas ao mar (é o tempo do mar carregá-las até onde bem entenda); segundo, suas idas e vindas e as necessidades que as motivam são a vida propriamente; isto aqui, na internet, é outra coisa, bem legal porém acessória em relação ao que é realmente importante. Sei como se sente pois também gosto de dirigir, apenas tenho um pouco de medo dos outros, muitos dos quais são muito imprudentes, e até mesmo de mim, que me contenho e busco ficar atento, mas não sou perfeito.
    Enfim, não supus que você discordasse ou concordasse. Li a mensagem que você me indicou e, me sentindo em discordância com aquele texto, procurei me entender para entender a razão. Achei as razões – talvez apenas “implicâncias”, como as chamei – que achei justo compartilhar, mas são apenas as razões de como me sinto em relação a essas coisas, e não de como são (ou não são mas deveriam ser). Deus me livre de querer impor meu sentimento, apelidando-o de “verdade”, a quem quer que seja. Um grande abraço, e muita gratidão por sua atenção às minhas palavras. Sinto-me honrado.

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