Senso e experiência

Recentemente fui ao teatro – um pequeno teatro do circuito alternativo – para ver um espetáculo de uma artista que foi famosa sobretudo nos anos 80 mas que continuo admirando e respeitando. O que escrevo não tem nada a ver com ela, contudo, mas sim com o que notei na platéia durante todo o show.

Notei que um número relativamente grande de pessoas (não havia mais do que cinqüenta ao todo, creio) passou todo o show tirando fotos com suas câmeras e celulares. Poderia falar sobre o quanto isso poderia ter me irritado (afinal, as telas desses aparelhos brilham no escuro do teatro e atrapalham a visão das pessoas que estão em fileiras atrás). Mas naquele dia eu estava de humor especialmente bom, e decidi que não deixaria aquilo me afetar (nem sempre sou capaz disso).

Nem por isso deixei de refletir sobre o acontecido. Sobre o que poderia motivar tais pessoas a atrapalharem não apenas aos demais, mas a si mesmos, e seu próprio aproveitamento do espetáculo, na preocupação de colher inúmeras fotos do que estava se passando no palco. Não consigo entender bem.

As pessoas podem desejar tirar fotografias com o propósito de reter para a posteridade uma imagem única, ou de significação pessoal única. Esse é um motivo justo. Mas isso não poderia ser ali, já que a artista é conhecida e suas imagem é bem conhecida e repetida à exaustão pelos meios de comunicação e internet afora.

Outro motivo pelo qual as pessoas tiram fotografias é para poderem gabar-se, com base material, de vivenciarem situações que pensam conferir-lhes “status”, orgulhar-se delas perante outras pessoas, serem invejadas por elas. Esse é um motivo menos justo. Mas freqüente: quem já não teve impingido a si por conhecidos ou colegas aquele(s) espesso(s) álbum(ns) das fotos daquelas últimas férias na praia paradisíaca, na disney, na europa ou no raio-que-o-parta (que é para onde acabo sempre desejando que tivessem ido e nunca retornado, depois da centésima foto de uma passagem irrelevante de pessoas desconhecidas fazendo algo desinteressante). Mas isso também não poderia ser ali. O teatro, assim como o espetáculo, eram de extrema simplicidade (embora eu tenha gostado muito), baixo custo e de forma alguma serviriam para incrementar a projeção social de qualquer espectador.

Então, cheguei à conclusão de que a única explicação para a coleta compulsiva de fotografias é que chegamos a tal ponto de convivência estreita com (e por meio de) bugigangas tecnológicas que necessitamos delas para validar nossa própria experiência. Uma experiência só terá valido (quase, talvez, só terá acontecido) se retivermos o registro eletrônico dela. Só podemos ter certeza de ter sentido o que sentimos se pudermos revisitar o sentimento contemplando esse registro. Só podemos comunicar nossas experiências a outras pessoas compartilhando com elas os arquivos eletrônicos onde as registramos.

Resta saber, então, o que podemos entender, daqui pra frente, por senso e sensibilidade numa realidade em que nossos sentidos só “funcionam” quando devidamente apetrechados pelo aparato tecnológico. E o que podemos compreender como sendo experiência, aprendizado e comunicação, quando tais coisas somente ocorrem mediante essa mesma instrumentação.

E, finalmente, resta saber aonde vai (ou foi) parar nossa humanidade no meio disso tudo, entendida como a forma especial de relacionamento entre a consciência que habita nossos corpos humanos e o mundo real, material, físico, bruto (o deserto do real) em que esses corpos ganham existência, naturalmente desapetrechados das bugigangas técnicas, eletrônicas. Cuja aquisição deixa de ser uma questão econômica, patrimonial, para tornar-se existencial em relação ao senso e à experiência de cada um.

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3 Responses to Senso e experiência

  1. De entes de consciência parece que nos transformamos em objeto. De seres de relação, estamos à mercê do poder do ter – somos “tidos”, possuídos pela tecnologia. Sábios os profetas Orwell, Huxley…

    Resposta d’O Impressionista:
    Sim! E, triste, transformamo-nos voluntariamente – quase com ânsia. Apenas acrescentaria, entre os profetas, William Gibson e Philip K. Dick.

  2. Por experiência própria digo que é muito fácil cair nessa tentação de sair fotografando tudo e a todos. Tenho me controlado quanto a isso. Até por-do-sol, que eu amo tanto, já perdi de ver ao vivo porque fiquei observando pela tela da máquina, e fotografando, fotografando…
    Obrigado pelas tuas palavras lá no meu blog. Muito sábias!!!

    Resposta d’O Impressionista:
    É fácil, sim… E somos incentivados a isso também. Eu que agradeço por sua visita a este blog. Abraço!

  3. Karla says:

    Outro dia estive aqui, vinda do blog da Dona Sra Urtigão, li e não tive muito tempo para refletir e compreender o “Senso e experiência”. Mas tem coisas que nos “cutucam” com o seu dedo grande. Que bom!
    Fiz a releitura e tenho uma questão/convicção: essa necessidade em capturarmos o que experimentamos não seria uma maneira de preencher o vazio em vivemos atualmente?!
    Abraços e peço permissão para “linkar” (Odeio estas palavras! Nunca sei conjugá-las, flexioná-las e engoli-las)

    Resposta d’O Impressionista:
    Tenho uma resposta que não chega a ser uma convicção: é, sim, mas o vazio que buscamos preencher nós mesmos o criamos. Como? Não sei direito. Talvez porque, vivendo num mundo que nos estimula a querer ser tanto, ter tanto, a inflarmos tanto, quando inflamos nos tornamos menos densos e bolhas de vazio surgem dentro de nós…
    Agradecido pela visita, permissão para linkar concedida, ou melhor, dispensada. Abraço!

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