Crise Econômica Global – Citações

Enquanto não afino minhas próprias impressões de leigo sobre o assunto, gostaria de compartilhar dois textos de que gostei, de pessoas que parecem saber do que estão falando:

1. Sérgio D’Ávila, na Revista da Folha de 21.09.2008:

Os mestres de um universo cada vez menor

por Sérgio Dávila, de Washington

Cada crise econômica tem o Sherman McCoy que merece.

O fictício corretor de ações de Wall Street, criação inesquecível de Tom Wolfe no romance “A Fogueira das Vaidades”, de 1987, foi o primeiro “mestre do universo”, como o autor se refere à elite financeira e econômica mundial. Como ele, há todo um time de “mestres do universo” de que o público só toma conhecimento nas crises. São os figurões que enchem os bolsos enquanto suas empresas fazem água.

A crise da “contabilidade criativa” da virada do milênio, por exemplo, que eu vivi in loco em Nova York, trouxe à luz nomes como o de Kenneth Lay, o “Kenny Boy”, como o chamava o amigo George W. Bush, que um dia foi considerado para o cargo de secretário do Tesouro, Jeffrey Skilling, com seu sobrenome em gerúndio com o verbo “skill”, habilidade, destreza, e Andrew Fastow, o quase-Fausto.

Eram todos os mandantes da Enron, a gigante de energia que faliu e deixou milhares na miséria. Kenny Boy saiu com um pacote de US$ 42,4 milhões. Era o Sherman McCoy da vez.

Menos de dez anos depois, a quebradeira dos bancos e instituições que já custou 10% do PIB aos cofres norte-americanos começa a elencar seus Shermans. O meu preferido, por enquanto, é o CEO do Lehman Brothers.

Funcionário desde 1969 do que era o quarto maior banco de investimentos dos EUA, o agressivo e calvo Richard Fuld era conhecido por seus subordinados como “The Gorilla”.

Quando a fragilidade de sua instituição veio a público, Fuld, de 62 anos, disse que “quebraria as pernas” do executivo que ele flagrasse jogando com as ações do banco na Bolsa. Não falou que antes disso tinha comprado uma ilha no exclusivo litoral de Palm Beach, reduto dos endinheirados norte-americanos na Flórida. Chama-se Jupiter Island e custou US$ 14 milhões.

Nos 14 anos em que ocupou a posição principal da instituição, embolsou US$ 500 milhões, segundo a “Forbes”. Mora na luxuosa Greenwich, em Connecticut, Estado vizinho de NovaYork, e tem um apartamento funcional na Park Avenue de Manhattan, coisa de quatro quartos, quatro banheiros e US$ 21 milhões. Mesmo com a concordata de seu banco, deve sair com US$ 65 milhões.

Quem mais?

Stan O’Neal, do Merrill Lynch, levou US$ 160 milhões -o banco de investimentos, o terceiro maior dos EUA, foi vendido antes que quebrasse. Jimmy Cayne, que comandou o Bear Stearns por 15 anos, levou US$ 61,3 milhões em venda de ações.

Quando o Fed americano começava a coordenar a operação de compra de seu banco pelo JP Morgan por US$ 30 billhões, em março, Cayne jogava golfe em Detroit.

Além do pacote, ganhou um “plano-aposentadoria” de US$ 30 milhões. Ele e sua mulher compraram dois apartamentos grudados no Plaza, o luxuoso hotel de Nova York que transformou parte de seu prédio em condomínio de ricaços. Os imóveis valem US$ 28,2 milhões. Cayne tem ainda um palacete na mesma Greenwich de Richard “The Gorilla” Fuld.

Depois de darem seus testemunhos ao Congresso, o que deve acontecer nos próximos dias e como fizeram antes deles Kenny Boy, Fastow e Skilling, imagino os dois sentados lado a lado em uma de suas casas, observando crescer o gramado impecavelmente verde e impecavelmente aparado, um dizendo para o outro: “Vida dura essa nossa…”

2. Fernando Canzian, na Folha Online de 08.10.2008:

O mundo de joelhos

WASHINGTON – Como sempre acontece, o mercado finalmente colocou os governos de joelhos.

Numa ação coordenada e liderados pelo Fed (o banco central dos EUA), vários países cortaram as taxas básicas de juro e anunciaram planos bilionários para resgatar bancos e investidores. A tentativa é de dar liquidez ao mercado.

Fernando Canzian/Folha Imagem
Jornalistas e economistas durante coletiva de imprensa na sede do FMI, em Washington
Jornalistas e economistas durante coletiva de imprensa na sede do FMI, em Washington

Nos últimos dias, apesar de todo o esforço norte-americano de cuidar de seu quintal com trilhões de dólares sendo derramados no mercado, a crise tomou proporções dantescas. Se não for contida, é natural que vaze com cada vez mais força para a economia real, produtiva, com graves conseqüências sobre empregos, salários e investimentos.

Seguindo os passos dos EUA, o Reino Unido anunciou um plano de resgate de 50 bilhões de libras. Já o Fed norte-americano começará a comprar títulos diretamente de empresas não-financeiras a fim de fornecer capital de giro para suas operações. Em 95 anos de existência, o banco central norte-americano nunca fez isso. Motivo: se a empresa quebrar, o Fed não recebe o dinheiro de volta.

Para tempos extraordinários, medidas extraordinárias. Essa parece ser a lógica, de resto imposta pelo mercado. Na Europa, a ficha demorou a cair. E a ação coordenada e profunda de hoje é um reconhecimento disso.

Em entrevista coletiva no FMI nesta manhã, o francês Olivier Blanchard, economista-chefe do Fundo, foi confrontado com a seguinte pergunta: “De 0 a 10, quais são as chances de o mundo mergulhar em uma depressão?”

Fernando Canzian/Folha Imagem
Do lado de fora, sem-teto cochila em banco em frente às sedes de FMI e Banco Mundial
Do lado de fora, sem-teto cochila em banco em frente às sedes de FMI e Banco Mundial

Blanchard: “Acredito sinceramente que se a resposta à crise for coordenada, e é isso o que estamos vendo agora, a chance é muito pequena”. Mas acrescentou: “O problema é que os países agiram com uma certa improvisação até aqui. A Europa demorou demais. O senso de urgência foi dado pelo mercado”.

Neste momento, as maiores economias do mundo lançaram as três bóias possíveis para tentar reduzir os impactos da crise sobre a economia real: forneceram liquidez ao sistema, começam a comprar os ativos “tóxicos” dos bancos e lançam planos de recapitalização dessas instituições.

Nesse mar revolto, o corte de juros eqüivale também a tentar baixar o nível da água, reduzindo o número de afogamentos entre os que não puderem ser alcançados por essas três bóias.

E o Brasil? Para o FMI, o país será afetado, mas continuará acima da linha d’água. O Fundo prevê um crescimento de 5,2% para o Brasil neste ano e de 3,5% no próximo.

Fernando Canzian/Folha Imagem
Prédio de escritórios vazio para alugar em Washington; os EUA já contam com a recessão
Prédio de escritórios vazio para alugar em Washington; os EUA já contam com a recessão

Na entrevista, perguntei os motivos e se a forte valorização do dólar não vai melar essas previsões, trazendo inflação para dentro do país via importações. E obrigando o nosso BC a ir na contramão do resto do mundo, subindo os juros.

Charles Collyns, economista do Fundo e especialista em Brasil, deu uma resposta vaga. Acha possível que o relativo desaquecimento da economia brasileira reduza a necessidade de tantas importações (que vinham crescendo a taxas muito altas), diminuindo o risco de inflação.

Mas não respondeu o essencial: por que diabos o dólar não para de subir?

O que sabemos: depois de um longo período, as contas externas do Brasil voltaram ao vermelho. Estão negativas em dólar e precisarão de financiamento, seja em dinheiro de curto prazo de investidores ou em capitais produtivos. Esse é o tipo da coisa que desapareceu do mercado, daí as intervenções de trilhões dos bancos centrais.

Embora o Brasil ainda tenha mais de US$ 200 bilhões em reservas, nós infelizmente não temos a máquina de fazer dólares do Fed.

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