O Inferno, eu e os outros

Aquele filósofo para quem “o inferno são os outros” decerto nunca experimentou olhar para si mesmo da perspectiva do outro e, mais do que meramente perceber, elaborar sua filosofia sobre o fato de que todos carregamos o inferno a tira-colo.

(Talvez por isso fosse tão indulgente com Stálin e tão duro com o amigo escritor (daí por diante ex-amigo) que ousou criticar o feroz ditador bigodudo.)

É fácil esconjurar o inferno alheio. Difícil é reconhecer e domar cada um dos próprios demônios.

Anúncios

4 Responses to O Inferno, eu e os outros

  1. Ei, amigo (se me permite):
    Eu jamais defenderia sartre, mas tambem discordo de camus por sua tristeza existencial, niilista (e abomino stalin). Eu procuro uma outra condição, alegria responsável. Mas parece-me que quando falava da condição de que o inferno são os outros tratava, a partir de uma abordagem fenomenológica, da intersubjetividade, da condição da percepção de si pela existencia do outro (seu existencialismo foi desenvolvido apos estudar Heidegger e Husserl). Então, acho (conheço muito pouco para afirmar) que ao abordar a questão do sofrimento, aborda o quanto projetamos o outro em nós ou talvez, como a sombra de que falava Jung. De qualquer forma, eu penso que trabalhar integrado aos nossos demônios é a tarefa da vida. Domá-los? Ou aceitá-los ? Esconjurar ou entendê-los? Serão mesmo demônios? Só enquanto nos dividem, só enquanto os percebemos como tal. Podem se tornar aliados. Note bem, não estou defendendo nenhuma forma de satanismo ou coisa que o valha. Só que talvez demônios sejam criações de homens manipuladores de outros homens, para nos afastar da conciliação entre as diversas partes do que somos, pois divididos nos tornamos fracos e mai facilmente manipuláveis.

    Resposta d’O Impressionista: Tudo é permitido… Não sou um conhecedor a fundo nem de Sartre, nem de Camus. Conheço um pouco sobre a controvérsia entre ambos, quanto à obra “O homem revoltado”, do último. E o episódio me evocou memórias (nada boas) de vezes em que desprezamos as palavras verdadeiras de alguém que nos quer bem (“amigo”, como Camus foi de Sartre, cabe nessa definição) porque não são o que desejamos ouvir, e especialmente porque denunciam as inconveniências, as complicações decorrentes de nossa adesão a um discurso, a uma ideologia, a uma estruturação de idéias quaisquer. Mesmo ao preço de um tom niilista, triste (é sempre triste ao compassivo cada flagrante da imperfeição humana). E, quanto à titularidade do inferno, talvez eu tenha me exprimido de forma ranzinza, sim. Mas ninguém constrói uma frase impunemente. Ao se dizer que “são os outros”, assim, com o verbo ontológico, a idéia é projetar o foco para fora de si, para cima dos outros. A linguagem – mesmo a filosófica – não é flexível a ponto de uma frase poder dizer o contrário de sua literalidade. E nesse ponto minha crítica é mais uma fieira de dúvidas, que podem ser enunciadas assim: são os outros que me infernizam, ou sou eu quem se deixa infernizar? Se sim, deixo-me inclusive por mim mesmo? Especialmente por mim mesmo? Se sim, posso infernizar não apenas a mim mesmo, mas aos outros, também? Se sim, não é melhor, mais ético, cuidar de não fazê-lo em prejuízo de mim e dos outros, antes de acusar outros que o fazem em meu prejuízo? É basicamente isto.

  2. Com certeza a partir dessas suas reflexões, vou ter que estudar um montão e sou lenta na compreensão, mas quanto a condição da frase, ela não pode tambem ser lida fora da contextualidade, ou seja esta, como qualquer frase deve ser entendida dentro de toda a obra do autor, não é isso ? E isso é o que vai diminuir a flexibilidade de qualquer frase ou conceito. Portanto, vou passar uma temporada lendo Sartre – aceito o desafio, o que vai demorar muuuuito, pois não vou, por isso abdicar de todas as outras coisas, principalmente as que gosto, pois nunca gostei muito dele, o que pode ser por desconhecimento, até. Preconceito.
    Quanto ao inferno… se parte de nós ou qualquer outra hipótese, aposto na simultaneidade das opções, mesmo que aparentemente contraditórias. Afinal a física quantica não aponta no sentido do fim do principio da não contradição ? Quanto ao que possa ser mais ético… entendo que ética não pode ter gradações, pois é fundamento. O que pode acatar variações são padrões morais. E estes são culturais, absorvidos por tipos de doutrinação. Então, ética é apenas a condição de suporte do ser, o cuidado se si. Acusar outros ? Se pode até ser possivel que outro não exista, filosòficamente e no mundo da fisica. Ser tudo uno. Então voltando-nos contra outro, estamos na verdade contra nós mesmos. Voce pensava que estava em angustia? tem gente pior… eu! Viva Lao tse e a não ação ( entendida ao meu grosseiro modo ). As vezes penso que uma forma de compreender sòmente pelos aspectos praticos ( não a pratica kantiana, a do senso comum) torna o viver mais leve. Pão, pão, queijo… ( e quem sabe vinho hshshs)
    abraço!

    Resposta d’O Impressionista: Por favor, não gaste tempo lendo Sartre sem prazer. Eu não o fiz, e não o faria. Não me leve tão a sério, também. Porque no fundo é apenas isso: estava arrumando meus livros, e encontrei um de Camus (A Queda). A história de ele ter criticado o regime de Stalin e Sartre ter brigado com ele por preferir relevar (digamos, “aliviar” com Stalin em prol de sua idéia positiva da URSS) me trouxe algumas lembranças ruins de episódios paralelos acontecidos comigo (eu demorei a abrir mão de uma posição ruim e preferia negar a razão de quem a criticava; precisei aprender do jeito mais duro). Daí lembrei da frase “o inferno são os outros” por pura livre associação. E escrevi o que escrevi por rabujice (estava no dia dela). São meras impressões minhas sobre pensamentos soltos. Então, não leve tão a sério… Não vale a pena.

  3. Só para constar: qualquer questão se torna um desafio pois como ter opinião sem fundamenta-la? Tudo bem que ao fundamentar deixa de ser opinião, mas não é divertido isso, expandir as possibilidades de raciocínio ? Por isso que gosto de suas palavras. Instigantes. Sua inteligencia e cultura, de certa forma, força meu continuo aprendizado. Agradecida.
    Quanto a ler besteiras, li até muitos “best sellers” hihihi!

  4. OLÁÁ! Estou sentindo sua falta !
    Abraço!

Há espaço para comentários, que só são publicados após dupla moderação, automática e manual. Mensagens ofensivas ou sectárias serão eliminadas automaticamente pelo software, e provavelmente ninguém jamais as lerá, por isso o tempo de escrevê-las é perdido desde o início.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: