Cinquenta anos depois, a China ainda não controla o Tibete

11/03/2009 – 03h10

Andreas Lorenz

Terça-feira (10/3) foi o 50º aniversário da revolta de 1959 no Tibete contra a China e a fuga do Dalai Lama do país. Apesar de décadas de repressão, os tibetanos que vivem sob o controle chinês ainda ousam expressar suas demandas por mais autonomia – e a volta de seu líder espiritual exilado.

Eram 6h30 da manhã e o sol ainda não tinha se levantado quando partiram com suas vestes vermelhas ao longo de trilhas estreitas entre os campos. Eles viraram à esquerda no posto de gasolina Petro China para a rua Democracia e continuaram na direção do governo local de Guinan.

Era o dia 25 de fevereiro, primeiro dia do ano novo tibetano. Os monges do monastério Lutsang tinham ouvido o conselho do Dalai Lama para seus compatriotas na China: que, neste ano, evitassem celebrações vistosas e alegres. O líder religioso havia transmitido, de seu local de exílio na Índia, a noção que era chegada a hora para reflexão diante das “imensas dificuldades e miséria” que enfrentam os tibetanos.

Foi este o chamado que levou cerca de 100 monges a acenderem velas nesta manhã em particular para apresentar suas demandas às autoridades locais: que a China compreenda as esperanças e pensamentos dos tibetanos.

Talvez nunca tenha havido um local mais solitário para um protesto. O caminho para Guinan serpenteia como uma fita pelas planícies da província de Qinghai, onde pastam manadas de iaques, cabras e carneiros, vigiados por pastores a cavalo e em lambretas. Ainda assim, a medida teve suas consequências.

Aula de patriotismo

Duas semanas depois, quatro longas fileiras de monges de Guinan estão ajoelhados diante do altar de seu mosteiro, pendurado na encosta de uma montanha. Eles murmuram versos e batem palmas. “Dez monges de nosso mosteiro ainda estão presos”, diz um deles. A polícia ordenou que os monges não voltassem à cidade.

Em uma sala modesta aquecida por um fogão a carvão, um Lama hesita por um longo tempo antes de falar, apesar de isso ser proibido pelas autoridades. No final, diz ele: “A demonstração não era sobre democracia ocidental, e sim sobre um budismo melhor. Meus irmãos têm boas razões para suas ações.” Seu mosteiro agora está sob estrita vigilância da polícia; os monges têm que fazer aula de patriotismo e se distanciarem daquele “traidor”, o Dalai Lama. “Ele ainda é nosso líder espiritual”, diz desafiadoramente o Lama.

Atos de desobediência civil, como a manifestação dos monges em Guinan, demonstram que o governo central em Pequim não tem os tibetanos sob controle total. Com uma série de importantes aniversários se aproximando, as tensões nas regiões tibetanas estão aumentando.

50 anos de desobediência civil

No dia 17 de março de 1959, o Dalai Lama, que então tinha 23 anos, fugiu para a Índia a cavalo, depois que milhares de seus fiéis se rebelaram contra os militares chineses. O exército vermelho suprimiu brutalmente o levante. Em 1989, soldados chineses atiraram contra os monges que protestavam nas ruas de Lhasa, capital da região Autônoma do Tibete. No dia 14 de março do ano passado, os tibetanos revoltaram-se novamente. De acordo com os números oficiais, 19 pessoas morreram. Entretanto, tibetanos no exílio estimam que cerca de 200 pessoas perderam suas vidas. As revoltas levaram à prisão de 2.405 “insurgentes”, dos quais 76 receberam longas sentenças de prisão.

O governo em Pequim agora está extremamente preocupado que haverá mais inquietação. Policiais armados e soldados usando capacetes de aço estão posicionados atrás de sacos de areia para monitorar as estradas que levam a Xiahe, na província de Gansu, onde fica o mosteiro Labrang. Nenhum estrangeiro tem permissão de visitar Xiahe, e chineses têm que assinar um formulário para entrarem na cidade. Em contraste marcado com as cenas de março de 2008, quando centenas de monges se congregaram na cidade, não se vê nenhum deles.

Pode-se observar o medo de Pequim em outras partes. Em Xining, capital da província vizinha de Qinghai, um canhão de água montado em um veículo da polícia se move pelas ruas, seguido por muitos caminhões militares. Equipes de televisão internacionais não têm permissão para ficar nos grandes hotéis, e residentes tibetanos não recebem visto para deixar o país.

Tentativas de moldar a perspectiva

Ao mesmo tempo, o Partido Comunista está reescrevendo a história tibetana: no dia 28 de março, aniversário da derrubada do governo em Lhasa, haverá celebrações pela “liberação da escravidão”. Essa foi a data, segundo o partido, em que as “reformas democráticas” foram iniciadas no Tibete.

Toda noite, noticiários em língua chinesa na televisão tibetana incluem programas sobre o folclore local: mulheres dançando com roupas típicas e nômades mostrando suas habilidades equestres, enquanto a polícia mede a pressão sanguínea das pessoas nas ruas de Lhasa. Uma tibetana chamada Jinzhu doa seu leite materno para os soldados, porque dizem que evita a cegueira pela neve quando esfregado nos olhos.

Exibições, artigos de jornal e programas de televisão estão transmitindo uma simples mensagem pelo país: desde que as tropas chinesas marcharam para o Tibete em 1950, os habitantes estão muito melhor do que estavam quando governados pelos monges.

Descontentamento

Como a economia foi modernizada, Pequim provavelmente tem razão. O partido, contudo – não é capaz ou não quer- compreender as causas mais profundas do descontentamento que levou os tibetanos a matarem alguns imigrantes chineses no ano passado.

Os habitantes de outras regiões tibetanas também estão protestando, apesar de enfrentarem punições, inclusive tortura e muitos anos na prisão. Em Aba, uma cidade na província de Sichuan, vizinha do Tibete, um monge do monastério Kirt ateou fogo em si mesmo. Testemunhas dizem que a polícia atirou nele enquanto queimava. No dia 1º de março, cerca de 200 monges tibetanos do mosteiro Sey marcharam pela cidade. Em Litang, um monge chamado Lobsang Lhundup gritou na praça: “Longa vida ao Dalai Lama” e “independência para Tibet”. Ele foi preso.

Líder ausente

Na primeira semana de março, a rua principal de Tongren ficou cheia de panelas, potes, manteiga e chá tibetanos. Havia fotos do Dalai Lama penduradas em várias vitrines.

Monges de cabeça raspada e livros debaixo dos braços se apressam pelas passagens do mosteiro. Nenhum deles ousa falar sobre os eventos do ano passado. Fotos do Dalai Lama e do décimo Panchen Lama, outro crítico da dura política de Pequim no Tibete, que morreu em 1989, estão penduradas na frente da estátua de Buda. É um protesto silencioso porque é proibido mostrar retratos do Dalai Lama em público. “Quando a polícia chega, as escondemos”, disse um monge.

Depois dos confrontos no ano passado, ele disse que 200 monges de seu mosteiro foram trancafiados. A polícia agora frequentemente conduz buscas nas habitações dos monges. “Temos medo”, diz ele. “Há informantes entre nós. Por favor, não faça mais perguntas agora. Nós precisamos orar pela paz.”

O homem que eles homenageiam -e que o governo em Pequim odeia tão profundamente- nasceu há quase 74 anos a cerca de 100 quilômetros daqui, na aldeia de Taktser. Tudo é marrom aqui nesta época do ano – as montanhas, os campos, as casas. Tibetanos, chineses e muçulmanos Hui moram lado a lado neste lugar, plantando batatas, feijão e milho.

Cedo de manhã não há uma alma nos campos. A pequena fazenda onde o Dalai Lama cresceu – e onde os monges o identificaram em 1937 como reencarnação do 13º Dalai Lama – consiste de três construções de pedra modestas em torno de um quintal. Há dois rolos de “hada”, um tipo de tecido tibetano, em cima da porta marrom. Dois pratos de metal pequenos adornam a porta do quintal: “Família honorável”, diz um. “Três combinações – nascimentos, planejamento, família”, diz o outro.

Onde se rompem as regras

Gongbu Tashi, 63, mora aqui. Ele é professor aposentado e sobrinho do Dalai Lama. Ele não é dissidente; pelo contrário: Gongbu Tashi tem um assento na “conferência consultora política” da província, um corpo sem poder composto de acadêmicos, empresários e autoridades aposentadas.

Ainda assim, Tashi demonstrou muita coragem construindo um pagode em homenagem ao seu tio nos últimos dois anos. Seu telhado curvo pode ser visto do outro lado da parede. Ele recebeu US$ 117.000 (cerca de R$ 240.000) em doações para a construção. As autoridades permitem que as pessoas visitem o tempo, provavelmente para impedir inquietação entre os agricultores.

Neste princípio de março, ninguém teve permissão para entrar. Entretanto a porta abre-se subitamente – tudo deve acontecer muito rapidamente, antes que a polícia descubra. Uma passagem estreita leva ao quintal onde o Dalai Lama brincou. Dois pinheiros fazem sombra e há um pequeno trator ao lado. Pinturas de deidades de cores vibrantes adornam as paredes do templo e duas estátuas ladeiam o pequeno pagode. Peregrinos ofereceram um ovo cor-de-rosa, salsicha e doces.

“Esperamos que o Dalai Lama possa voltar aqui”, disse uma tibetana idosa com longas tranças antes de fechar o portão novamente. “Ele tem que voltar, não é?”

Tradução: Deborah Weinberg

Fonte: UOL

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4 Responses to Cinquenta anos depois, a China ainda não controla o Tibete

  1. O medo controla, mas este controle só é feito a partir de quem é controlado, dando ilusão de que existe controlador externo. Assim eu penso.
    Abraço.

  2. Olá,
    lendo o texto (comentário) publicado lá no BICHO-DA-MATA, cheguei até aqui.
    Perdoe a ousadia em comentar.
    Na verdade não tenho a propriedade desse texto falar.
    Não pretendo ser arrogante sei da inportância de tudo o que escreveu. Apenas, expressei o meu sentir, e não necessariamente meu entender.

    Fé e obediência
    Fingir pela fé
    que a força externa
    controlas
    Fingir negar em si
    a fé que eu obedeço.

    O tempo passa sendo testemunho
    de verdades possíveis.

    abraços,
    Selena

    • Selena, muito agradeço seu comentário e louvo sua ousadia,
      desnecessária nesta casa que é de quem nela quiser entrar.
      Visitei seu blog e uma vez lá não me pude senão maravilhar
      com suas palavras que são as de quem vive e respira poesia.

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