Sufocantes discursos mudos

Frequento livrarias. Próximas a lugares a que vou por obrigação, faço delas área de descanso e espera (ai de mim, compulsivo por horários, acabo sempre chegando bem antes do que devia).
Porém já nem tanto repouso nessas lojas de livros. Depósitos de livros. Armazéns-gerais, entrepostos atulhados da prolixidade humana.
Sufoca-me a sensação de que sobre todas as coisas tudo já foi escrito; sobre, contra, a favor, e muito pelo contrário.
Talvez eu ande neurastênico, pode ser. Mas deveria haver uma regra, pelo menos moral, que permitisse escrever apenas sobre o que se sente, sobre o que se vive com intensidade, sobre o que se sabe e se conhece com paixão. Que proibisse o papagaio tipográfico, que repete conhecimento, que repete até as palavras, nos casos mais despudorados. Que produz palavras, mas não produz conteúdo, apenas o multiplica (e às vezes o deforma).
N’O Nome da Rosa de Umberto Eco, a biblioteca é um labirinto. Nos meus pesadelos desperto nessas livrarias, o labirinto é de espelhos de parque. Mas não vejo minha própria imagem, nem deformada.
Vejo apenas livros que refletem livros que refletem livros, irrefletidamente.
E depois disso, sufocado, vou a casa respirar relendo livros que já li, mais de vez. Onde terei perdido a capacidade de esperar o novo, de procurar por ele?

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