HIC SVNT LEONES

Hic sunt leones, “aqui há Leões”.

Cartógrafos medievais escreviam frases como esta – variava o animal, podiam ser também Tigres ou Dragões – nas partes de seus mapas correspondentes a regiões ignotas, aonde ninguém fora, ou poucos de lá voltaram contando de coisas estranhas e inacreditáveis. Também era comum desenhar serpentes marinhas e outras criaturas mitológicas em áreas em branco do mapa.

Minha mente acabou vindo parar nessa incomum lembrança, depois de longas divagações sobre sentimentos freqüentes e recorrentes de Ansiedade, assim, com “a” maiúsculo e catalogada sob as rubricas F40 e F41 do CID-10.

Divagações de cansaço, de enjôo, de tédio imenso por verem repetir-se acessos de nervosismo que vêm não se sabe de onde, sem aviso prévio, para inundar-nos por sentimentos ao mesmo tempo intensos e inúteis, ampla gama de besteiras da qual são alguns exemplos:

– pressa aflitiva de fazer não se sabe o quê, desde que diferente do que fazemos no momento;

– revolta contra o que não se pode mudar, porque diverso de como sonhamos que deveria ser o mundo;

– raiva e vontade de punir de quem não se conhece, e não se verá nunca mais de novo, porque fizeram algo que nos desagrada ou que não nos autorizamos a fazer;

– melindres de brio superzeloso, que nos enchem de ódio mudo e impotente contra qualquer um que diga ou faça coisas com que não concordamos, que não endossamos, que não ratificamos;

– et coetera (sim, estou latinista hoje… perdão).

Agora imaginem o quão surpreso fiquei… ao começar a dar-me conta de que essa ventania que tanto nos sacode surge sempre daqueles rincões de nossa alma que não visitamos, nem em sonho, para onde fugiram todos os pensamentos e sentimentos que não se enquadram nas leis severas que algum dia, por alguma razão, escolhermos seguir, mesmo sem que outros nos obriguem. Leis que nossa razão, embora não as tenha criado, diverte-se em expandir, sofisticar, entretecer e organizar num discurso mental que nos convence, todo dia, de que nossos pensamentos fazem sentido, que não poderiam fazer mais sentido. Mesmo quando é evidente, até para aqueles à nossa volta, que sofremos muito, e inutilmente, com essas emoções nômades.

O que há nessas plagas de nossa psique que nunca visitamos, das quais tememos apenas nos aproximar? Quais feras ali habitam, por nós enxotadas e esquecidas para sempre? Que temores e terrores nos assombram desde lá, a ponto de mobilizar repetidas torrentes de adrenalina e cortisol, que passam pelas nossas veias nos escangalhando todos, como uma horda de vândalos?

Não será que os Leões, Tigres, Dragões de nossa alma são justamente as memórias desvanecidas de violências, privações e traumas remotos? Não serão seus rugidos, que tanto nos aterrorizam, os clamores irracionais de outrora, de dor, de cobiça, de desejo de vingança? Muito provável. Agora… o quanto estas coisas têm de real? Ou melhor, sendo pensamentos, são imateriais… Então, o quanto eles têm de correspondente com a realidade em que vivemos?

Passamos, Crianças e Jovens que fomos, por momentos em que fomos fisicamente fracos, psicologicamente imaturos, pouco providos de conhecimento e experiência. Em tais circunstâncias, o quão terríveis não ficaram impressos em nós fatos que, hoje, adultos e experientes, não consideraríamos meras contrariedades ou até mesmo parte do espetáculo? Quanto nos abatemos por críticas e ceticismo vindos de quem detinha, ao menos de nossa perspectiva enviesada, o poder de tecer Juízos Definitivos? Quão desesperador era receber admoestações ou punições vindas do que era, então, a fonte universal e absoluta de Amor e Valor? Muito, muito.

Por outro lado, quanto sabemos sobre as questões e intenções reais que motivaram os fatos acontecidos. Quanto reconhecemos, à parte o que se tem de perdoar por nossa imaturidade de então, de realmente legítimo e justo no que desejávamos e no que fizemos para acabarmos admoestados e punidos? Quanto nos dispomos a entender o que passava pela cabeça das pessoas – somente humanos como nós, nem mais nem menos – que tomaram tais atitudes? Em suma, quanto nos dedicamos a reavaliar nossas perspectivas moldadas nessas circunstâncias peculiares? Pouco, bem menos?

O fato é que usamos erroneamente nossa razão, esse nosso poder de conhecer e descrever coisas, analisá-las, saber de que partes são feitas, como começam, como evoluem, como terminam. Se abusamos de nossa capacidade de racionalizar, quando se trata de justificar as rotinas que nos angustiam, por outro lado a negligenciamos quando se trata de questionar se há motivos para agirmos assim.

Passamos a vida sem nos conhecer por inteiro, sem nos analisar por inteiro, saber de que somos feitos, de que partes se compõe nossa memória, nossa idéia do mundo e de nós mesmos. Não nos damos ao trabalho de atentar para como principiam cada uma de nossas idéias e sentimentos, o que acontece com elas quando se inflam em nossa mente, e como fenecem e somem no caos dos pensamentos.

Convivemos com um mundo interno inexplorado, preferimos ser Cartógrafos a Exploradores. Escrevemos sobre as partes temidas e desconhecidas de nossa mente: “aqui há Leões, Tigres, Dragões e toda espécie de feras selvagens”. “E como os há”, pensamos com um sobressalto, “de lá podem vir nos devorar, por quê não?”. Daí passamos a vida em suores e desforços para construir e reforçar, em torno de nossa Cidadela – esse lugar restrito mas confortável onde nossa razão vige, nossas leis funcionam e as coisas parecer se dar como queremos – fossos para conter os Leões, e catapultas para afugentar os Dragões. Sem nos dar ao trabalho de investigar, e explorar, e descobrir que Dragões não existem, e que Leões do passado não voltam.

E que, por mais que o tempo não volte atrás, e não possamos nos mudar de volta para as terras distantes do nosso passado, esse passado continua sendo, por assim dizer, “nosso”; nosso para ser conhecido, entendido e visitado, quantas vezes necessário for, para nos sentirmos, sem medo, donos e senhores de tudo isso que são nossos pensamentos, e que constitui nossa pessoa.

Escrito assim, parece fácil. Não é. Mas é obrigatório, se quisermos alcançar uma situação de vida sem esses assombros inúteis e prejudiciais que nos faz a Angústia, com “a” maiúsculo.

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One Response to HIC SVNT LEONES

  1. Dalva says:

    que clareza em expressar os sentimentos ante lembranças e temores, e os sentimentos que nos invade por vezes!

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