“A liberdade está em perigo. Defenda-a com toda sua força.”

Muitos já devem ter visto, nos últimos tempos, todo tipo de material de papelaria contendo os dizeres em inglês “KEEP CALM AND CARRY ON” (“mantenha a calma e siga em frente”, em tradução livre), acompanhados ou não de símbolos alusivos ao Reino Unido.

A razão é que esta frase constava originalmente de um cartaz de 1939, início da Segunda Guerra Mundial, produzido pelo governo britânico com o propósito de levantar o moral do público em caso de invasão. Tendo tido, à época, apenas uma distribuição limitada, permaneceu pouco conhecido do público até o ano de 2000, quando foi redescoberto e re-emitido por um número de empresas privadas, e usado como tema de decoração para uma gama de produtos. (fonte: Wikipedia).

Manter a calma e seguir em diante é um bom conselho, em circunstâncias como as quotidianas, que conduzem facilmente uma pessoa à exasperação. Tão bom, que fiquei curioso a respeito da origem dessa frase, tendo descoberto a informação acima, que aqui compartilho.

Mas descobri também que a frase desse fazia parte de um grupo maior de slogans criados concomitantemente, com idênticos propósitos de exortação e engajamento. E, entre estes, chamou-me a atenção de modo mais pungente o seguinte:

“FREEDOM IS IN PERIL. DEFEND IT WITH ALL YOUR MIGHT” (“A Liberdade está em perigo. Defenda-a com toda a sua força”, em tradução livre) é algo que, no contexto atual, é mais que um conselho. É um chamado urgente de ajuda a um valor ameaçado por toda sorte de manifestações do ser humano quando se esmera naquilo que tem de pior.

É impossível assistir a dez minutos de telejornal, ou ler dez manchetes de jornal ou noticiário eletrônico sem perceber que, de todas as direções possíveis, surgem corpos maciços de ignorância e autoritarismo que se deslocam em direção a esmagar as melhores possibilidades e fatos humanos, de uma variedade tão grande, mas unidos por um valor que lhes dá sentido e esteio: a liberdade.

E o que me assusta é que, diversamente do que se cria em outras épocas, começa a ficar claro que o valor da liberdade não é uma noção intrinseca para todas as pessoas – ou pelo menos para a grande maioria delas – como um otimista tenderia a esperar, em tempos de grande avanço científico e facilidade a mais absoluta de acesso ao conhecimento, inclusive histórico, do mal que decorre das restrições às liberdades humanas.

Tomemos, por exemplo, o contexto histórico em que esse cartaz surgiu. Em 1939, a Europa, e de certa forma o mundo todo, estava às voltas com uma muito plausível prevalência dos regimes autoritários de inspiração fascista (que haviam se tornado hegemônicos em menos de uma década em países como Portugal, Espanha, Itália, Hungria, Japão e, claro, Alemanha, caso este agravado pela enorme capacidade industrial desse país, que produziu e pôs em uso uma máquina de guerra que aterrorizou o mundo).

Hoje está à disposição de qualquer um o conhecimento da desgraça de se viver em tais circunstâncias restritivas, e não falo nem do caso óbvio – e gravíssimo – daqueles que foram existencial e mortalmente perseguidos por tais regimes, nem dos sofrimentos da população desses países, quando derrotados na guerra que travaram por sua própria iniciativa.

Falo de que, mesmo enquanto tais regimes totalitários estavam em seu auge e pareciam destinados a perdurar, também aqueles que por eles não eram ostensivamente perseguidos pagaram um preço considerável – claro que de outra natureza. Um custo (ou um risco) a cada opinião ou crença que era necessário reprimir, a cada arbitrariedade que era necessário suportar. Um sofrimento muitissimo bem documentado, do qual muitos testemunhos foram dados por fontes as mais diversas e confiáveis.

Uma situação, afinal, também bem conhecida em outras épocas, mais atuais – como a truculência das ditaduras instaladas em série nos países latino-americanos no curso da segunda metade do século XX – ou mais remotas – como a das perseguições religiosas levadas a cabo de forma implacável pela Inquisição católica e por alguns potentados protestantes no final da Idade Média e começo da era moderna.

Falo, enfim, da concretização de uma pretensão, que interessa, é claro, primeiro àqueles no poder, mas cuja força decorre de seu respaldo por um número muito grande de pessoas: a pretensão de que os indivíduos sejam governados não apenas em um número restrito de situações, mas em tantas quantas possível, e não somente no que diz respeito ao que fazem ou deixam de fazer, mas também quanto ao que dizem, pensam, e até mesmo são.

E o que me deixa atônito não é que os poderosos tenham essa pretensão, e desejem pô-la em prática tanto quanto possível. Isto é banal, tudo menos surpreendente. Pessoas que almejam o poder, e o alcançam, desejam mantê-lo e ampliá-lo, e submeter aos demais é o meio para isso e também o próprio fim em vista. É assim, tristemente, e por isso o exercício do poder deveria ser controlado, vigiado, restrito.

Mas gela-me a espinha e trava-me o fôlego a percepção de um tão grande número de pessoas ordinárias (uso a palavra aqui em todos os sentidos possíveis) que parecem não apenas dispostas, mas entusiasticamente de acordo, em fornecer o respaldo e as condições necessárias para que o contrário ocorra, isto é, para que se torne possível àqueles que querem submeter aos demais fazê-lo, na máxima extensão de seu desejo e interesse.

Verdade que é tão simples fazê-lo (e justamente por isso deveríamos todos estar alertas, em firme prontidão, para nos impedirmos de ceder à tentação de fraquejar em algo tão singelo). Pois basta, para facilitar o trabalho a todos os autocratas e tiranetes em potencial, sacrificar, ou, mais exata e simplesmente, não protestar diante do sacrifício da liberdade d’O Outro.

Por “O Outro”, aqui, pensemos em alguém… Que costuma ser alguém estranho, diferente de nós, então como entendê-lo? Cujas atitudes não temos vontade de imitar, então que diferença faz se forem proibidas? Que diz coisas que nos causam desconforto, então não é uma satisfação se for silenciado? Que pretende que as coisas sejam diferentes das que sempre vimos e com que acabamos por nos acostumar-nos, por que não faz o mesmo?

Fui criança no século XX, cresci vendo muros serem derrubados por pessoas que, ao fazê-lo, pareciam estar reconquistando uma felicidade há muito perdida. Vi uma nova constituição ser escrita para eliminar, por aqui, a sombra de obstáculos semelhantes. Vi, num plano mais pessoal, as pessoas aprendendo a ousar fazer com seus corpos e suas emoções segundo sua própria vontade, mais do que convenções. Vi o conhecimento científico crescer e se disseminar em invenções e recursos. Achei tudo isto bom e supunha, já então, que num novo século e num novo milênio os obscurantismos, as crendices e a irracionalidade humana seriam decisivamente desconstruídos e então, só então, poderíamos lidar com os verdadeiros difíceis problemas que afligem nossa espécie, a pobreza e a desigualdade, que eu então imaginava serem os últimos obstáculos entre cada pessoa deste mundo e a sua possível realização plena como ser humano.

Tolo, não? Quando olho em volta e vejo um tiranete sanguinário a massacrar seu próprio povo diante da impotência e indolência das nações mais poderosas e desenvolvidas, uma das quais ela própria uma ditadura gananciosa e atroz… quando percebo que o delírio religioso contamina mais e mais o discurso político e jurídico, como se não fôssemos mais cidadãos perante um Estado, mas apóstatas impenitentes diante de um consistório empedernido e detestável… quando sinto que as pessoas preferem se apegar mais e mais a discursos vazios de conveniência, em vez de enxergar o drama do semelhante se desenrolando vivo e gritante diante de si… quando a maior parte da juventude se cala em silêncio onanista, ou se baba em tagarelice digital sem sentido, e os poucos que ousam gritar verdades são trancafiados sob os aplausos da massa… quando as leis fundamentais que ainda nos regem como sociedade e nos entitulam como cidadãos livres vão se esgarçando e perdendo significado simplesmente porque ninguém mais lhes dá importância ou esforço de compreendê-las e aplicá-las… e, finalmente, quando percebo que ninguém parece se importar muito com nada disso… Ah, que desesperança.

Eu gostaria de continuar esse texto, pois ainda sinto que há tantas coisas a dizer. Mas justamente porque são tantas, gostaria de ter mais tempo para articulá-las melhor e mais sucintamente. Mas acho que até aqui já dei uma idéia sobre de que problemas falo. Ao ponto de me perguntar se haverá muitos outros com as mesmas dúvidas, ou se serei solitário em meu intenso temor pelo futuro de nossa liberdade…

(a ser, talvez, continuado)

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8 Responses to “A liberdade está em perigo. Defenda-a com toda sua força.”

  1. Sra Urtigão says:

    Não sei se “muitos outros”, mas alguns, com certeza. Eu não sabia de nenhum até que encontrei um que sabe escrever o que penso. E a desesperança quando colheu-me, ceifou-me junto a vontade. A ação já o havia sido há tempos…
    Se haverá futuro para a Liberdade ? Passei recentemente por uma cidadezinha com esse nome, na Serra da Mantiqueira. Triste figura entre as cidadezinhas da região, das vilas que conheço e isso levou-me a kilometros e kilometros de reflexões ao volante. Houve passado para a Liberdade ? Apenas lampejos, um pequeno quadro em uma enorme paisagem. Eu nunca fui livre segundo minhas aspirações. Mas fui, segundo critérios aceitos socialmente e juridicamente. Estamos cerceados por tantos poderes, simbólicos e culturais, ou criados por interesses quais e introduzidos por seus instrumentos, seduzidos pelo que seduz… Mas tudo isso é o que vocÊ disse. Soluções metafísicas ? Eu posso ser livre se aceitar tal ou qual caminhos, mas qual liberdade eu quero ? Não vou falar de Sartre, não, nem das amarras das escolhas Nunca contei que embatuquei numa monografia de conclusão de curso – que não conclu i- porque não consegui entender, e nem meu orientador orientar, do que seria o fundamento de ÉTICA.( numa abordagem multicultural). O que direi , de LIBERDADE…

    • Bem-vinda de volta, saudades de seus comentários…
      Conheço a experiência de não concluir um curso por não ser capaz de redigir o trabalho de conclusão, e de não poder fazê-lo por não se ter nenhuma fé no que se está escrevendo.
      É fácil dizer que a ética e não fazer aos outros aquilo que não se deseja que façam a si próprio.
      Sim, com certeza, e daí? Como resolvemos com isso os problemas de um mundo onde apenas uma fração das pessoas está disposta a ao menos tentar seguir essa máxima, e dentro desta cada um não deseja para si mesmo tantas coisa diferentes, por ser tão vário o ser humano? Multicultural, sim, e multi-uma porção de outras coisas…
      Como chegar numa definição aceitável de liberdade se somos os primeiros a tolhê-la de nós mesmos, ainda quando em volta as outras pessoas estão pouco se importando conosco?
      De fato, às vezes negamos tantas coisas a nós mesmos por iniciativa própria que fica até estranho reclamarmos de falta de liberdade. Daí o tempo passa e fica apenas aquilo que o Renato Russo chamou, com uma sabedoria imensa, de “saudades de tudo que eu ainda não vi”. Mas a saudade também serve bem para nos dizer onde estamos, onde fomos parar, e quando pensamos bem, foi quase sempre o melhor caminho que pudemos escolher com o pouco que sabíamos.
      Bem, enfim… Devagarzinho estou aprendendo a exercer as pequenas liberdades que tenho, e, quanto ao mais, a contentar-me com a contemplação do exercício mais amplo da liberdade alheia, e isso me enriquece como se fosse a minha própria. Eu não entrei numa igreja para protestar mascarado, como as meninas do Pussy Riot, e acho que nunca o faria… Mas me entristece viver num mundo onde essas moças são reprimidas como se tivessem quebrado coisas, quando a única coisa que arranharam foi o cinismo dos acomodados…

      • Sra Urtigão says:

        ” o melhor caminho… com o pouco que sabíamos”. Assim também me parece, se formam os conceitos que definem nossas escolhas e nossa liberdade. Sou cada vez mais livre por compreender melhor certas restrições. Será fato isso ou má fé ? ( Não consigo pensar em Liberdade sem pensar nele…) Quando o ser humano foi pleno em liberdade ? ( Assim, com minuscula, mesmo ) Individual e coletivamente ?Posso perguntar isso ? Tem aí que considerar as minorias e se as houver(!!!), classificáveis, já torna implícito um desnivelamento em direitos e …liberdade. Por bem menos aqui já foi bem assim. Há bem pouco tempo. Agora as amarras e mordaças são outras, completa submissão ao mercado.E a liberdade é um bem ” hierarquizável”

        • Veja… Quando vemos com que tipo de fatos e seres lidamos, não fica difícil perceber que “liberdade plena, individual e coletiva” só é possível como conceito geral, sem concretude antropológica ou sociológica de qualquer espécie. Isso não torna o conceito inútil, ele só não é operativo. Algo assim, se é que eu posso ir tão longe, quanto o divisor zero na Matemática. Assim como a divisão por zero é um tema importante na Filosofia da Matemática, mas não é possível resolver cálculos que contenham divisor zero, nosso raciocínio pode (e deve, acho) ser norteado pela idéia de liberdade plena do ser humano em todos os planos possíveis, embora saibamos que não existe concretização prática possível para essa situação.
          Creio que o que nos resta, a cada um na sua concretude de vida, e a quem se importa em tentar descrever atitudes coletivas para uma sociedade melhor, é trabalhar a proposta de “máxima liberdade possível”, que é uma idéia que admite como premissas: 1) a liberdade plena como ideal praticamente inatingível mas ainda assim norteador, e 2) o conjunto de limitações concretas à liberdade como dado da realidade e objeto de análise e crítica.
          Com isso, para toda proposta de ampliação de liberdade, o trabalho que se apresenta é o de desconstruir fenomenologicamente cada uma de suas limitações, e tanto quanto possível. O que fertiliza esse trabalho, então, é uma terceira premissa, a de que a liberdade de cada ser humano é igualmente valiosa, pois isso dá a referência do que podemos ou não eliminar. No limite, se possível, chegaríamos a um ponto onde as únicas limitações admissíveis à liberdade de cada um seriam as que visassem a preservar a liberdade d’O Outro em igualdade de condições.
          É lógico que é fácil colocar a coisa em tais termos de fórmula, mas isso não resolve todos os problemas concretos. Verdade, mas resolve alguns. Com esse raciocínio já consigo excluir a maior parte das limitações à liberdade que afligem o mundo contemporâneo, pois a maior parte delas não passa no crivo, que pode ser assim enunciado: é lícito que a liberdade de um tenha de ser limitada em um certo ponto se, e somente se, isto seja necessário para assegurar que todos os demais sejam igualmente livres até aquele mesmo ponto.
          Se conseguíssemos superar todos os problemas mais grosseiros, chegaríamos no limite desse raciocínio em situações mais sutis, como:
          – qual o máximo volume em que posso ouvir a música de que gosto sem ofender a liberdade de meu vizinho de não ouvi-la?
          – quão ardentes podem ser as manifestações de afeto de um casal em público sem que as outras pessoas se sintam constrangidas?
          – pode alguém consumir recursos naturais escassos livremente, apenas por ter dinheiro suficiente para pagar pelo elevado preço decorrente dessa mesma escassez?
          – sobre bens de relevância cultural e social evidentes (por exemplo, obras de arte) seria adequado impedir que fossem de propriedade particular, ou obrigar seus proprietários a conservá-los e expô-los ao público?
          E preciso deixar claro que de modo algum estou sacrificando a importância destas questões. Apenas digo que há muito a desbastar em crostas mais externas, antes de pretendermos minerar este filão. Do contrário, aquelas agressões mais monstruosas e gritantes à liberdade vão desabar sobre nós, enquanto estivermos tentando desembramar estas complexidades.
          Interessante a palavra “hierarquizável”. Se dizer que a liberdade é hierarquizável implica em dizer que não pode ser considerada de modo absoluto, desconectada de outros valores, até eu concordaria com isso. Mas então a liberdade seria sempre a base, ou o topo, ou princípio maior ou a finalidade última (de acordo com a preferência decorativa de quem imagina o esquema), hierarquicamente subordinada apenas a outra liberdade, até o limite em que ambas restrinjam e sejam restrigidas mutuamente em extensão similar. Atingido esse equilíbrio entre as liberdades de todos os envolvidos, então se poderão organizar os demais valores, no espaço que restar, segundo outros critérios. Parece-me assim.

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