Silêncio

A ausência de palavras novas neste espaço não reflete a falta delas em minha mente. Sugere, porém, estarem elas em tamanha desordem, que não as tenha podido filtrar e convocar segundo a justa forma, que é a que permite supor que qualquer coisa que eu venha a escrever tenha uma chance de ser compreendida por aqueles que a lerem.

Por sua vez, a confusão e a desordem têm lugar entre as coisas, freqüentemente, por se não juntarem coisas iguais e, sobretudo, não se separarem coisas diferentes. Diferentes como são, idéias e emoções têm se misturado dentro de minha cabeça para produzir uma avalanche de pensamentos cuja verbalização não só não tem utilidade alguma, como também carrega potenciais prejuízos.

Emoções fazem má companhia a idéias porque insistem em carimbar sobre cada uma delas seus juízos de apego ou desprezo, o que, em última análise, impede que tenhamos pensamento útil. Porque emoções não pensam, não raciocinam, não ponderam nem planejam. Por motivos de reflexo, instinto ou fúria, podem apegar-se ao que nos talvez nos conviesse cuidadosmente rejeitar, como podem desprezar o que talvez nos conviesse criteriosamente cultivar.

Emoções são fragmentos de uma tentativa inacabada, quiçá frustrada, da natureza, de forjar naquela animalidade simples e bem provada dos mamíferos, essas capacidades e aspirações – humanas? – à ideação do espaço e do tempo, à abstração e representação de conceitos… Coisas tais que somente aos deuses conviriam, talvez, porquanto em nós não funcionam bem.

Andamos pela vida cheios de impulsos e medo, não nos contentando em desejar e fruir do que nos atrai, mas buscando eternizar no futuro nossos desejos e fruições, assegurar a legitimidade e continuidade do que tomamos para nós, mesmo quando, como quase sempre, à custa, nossa mesma, ou dos demais seres. Não nos sossega conseguir fugir do que nos amedronta, não descansamos antes de encontrar brechas naquilo que tememos; ou, desiludidos dessa possibilidade, não resistimos a divinizar nossos temores, como leis universais do “não faça”, para então, não fazendo, não nos sentirmos mais fracos, e sim observantes zelosos.

Não, nossas emoções, de tudo quanto criado pela natureza, certamente não são os melhores exemplos. Talvez até sejam seus primeiros e únicos erros, aqueles que desiludiram a lavradora antes incansável de continuar com sua obra, deixando-a inacabada e entregue à deterioração, pela mão justamente dessas suas criaturas equivocadas. Por algum confim remoto do universo perambula a mãe universal, entregue a divagações, perguntando-se onde errou, conjeturando sobre a temeridade de abandonar formas comprovadas – veja o gato, composição admirável de funcionalidade e beleza – para tentar coisas estranhas e novas…

Não… Por nossas emoções, somos um mau passo da criação. Um surto de ambição desmedida. Um item que não se encaixa no todo. E que, conseqüentemente, força e distorce suas estruturas, pondo a perder o restante em sua volta. Causando sofrimento a cada passo – quando não naqueles mesmos que agem, ao menos naqueles que lhes sofrem as ações.

Amargas considerações, estas, sim, admito. Depois das quais devo dizer que não proponho aboli-las, suprimi-las ou condená-las, as emoções. E não apenas porque isto não é propriamente possível. Mas também porque não somos bons exemplos de animais sem elas, basta ver-nos o reflexo: frágeis, feios, desengonçados, disfuncionais – por que mais o tamanho e desesperado impulso em cobrir-nos de roupas? – tampouco nos haveríamos dignamente sem aquilo de que, uma vez dotados, nos diferencia do resto. Mas delas não pode ser – isso está claro – a mão no leme de nossas vidas.

O fato é que entre as cristas das ondas tempestuosas das emoções, memórias e valores que nos agitam, aparecem vales ocasionais por onde se pode enxergar o horizonte. Em meio ao movimento perpétuo do ciclone implacável de nossos impulsos, podemos às vezes perceber a existência de um centro quieto.

Pois é nesse lugar, onde as palavras calam, onde as raivas se perdem de sua motivação, onde os medos se perdem de seus fantasmas, que desejo nesse momento estar. Esquecido de mim mesmo, de minha humanidade, de minhas emoções que me fustigam. Mas a esse lugar, para quem não aprendeu os caminhos, não se chega senão por acidente. E nele não se fica, a menos que se fique muito quieto, plácido. E silencioso, pois que a avalancha espreita em seguida a qualquer vibração mais alta de nossas vozes.

Por isso, no silêncio me refugio, na esperança de que, no intervalo entre os rugidos ferozes dessa fome por tudo o que quero e não tenho, e dessa dor por tudo o que não quero e tenho, possa eu ouvir o som singelo e contínuo de todo o universo, a seguir seu curso, a girar em seu mancal, indiferente a mim, indiferente a todos, indiferente a si mesmo. E que, para ouvir e ver, eu me cale e me detenha. E que, uma a uma, todas as bocas falantes se calem, e todas as corridas desembestadas se detenham.

E, tendo todos nós nos calado, nesse silêncio possamos ouvir; e, tendo parado, no repouso possamos olhar e ver. E, tendo ouvido e visto, possamos saber o que fazer de nossas vidas afinal. E, sabendo, possamos, ainda silentes, ainda plácidos, pôr as mãos à obra e fazer – o que se espera de nós.

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2 Responses to Silêncio

  1. MichellyCampos says:

    Apesar do titulo, “Silêncio”, esse texto fala tudo aquilo que trago em minh’alma. Repentina e pretensiosamente chego a crer ate mesmo que foi escrito pra mim, mas, então compreendo a riqueza do escritor, que consegue captar e externar os dilemas e inquietudes das emoções e desejos tão próprios da humanidade. Parabéns!

    • Os elogios são bondade sua, pela qual agradeço consciente de não merecê-los por nenhum valor intrínseco meu. Mas feliz, sim, porque o que escrevi fez sentido para alguém…

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