Inferno

É o título do livro que acabo de ler, mais um “thriller” da série de livros de Dan Brown cujo protagonista é o professor Robert Langdon.

Claro, é um livro comercial e nele se encontrarão todos os defeitos que os críticos de livros comerciais gostam de apontar. Eu geralmente me inclino a saltar por cima desses defeitos, quando se trata, como é o caso, de uma história de suspense muito bem elaborada, que prende realmente a atenção.

Foi, devo admitir, um pouco difícil de relevar aquele que deve saltar aos olhos de quem, como eu, já leu os outros livros dessa mesma série, que é haver um sensível padrão de semelhança, em todos eles, em relação aos papéis dos personagens e às etapas do enredo. Como se, de alguma maneira, cada livro revisitasse sempre a mesma linha narrativa, embora com alteração nas cidades, nos monumentos e nos nomes dois demais personagens que circundam o professor Langdon.

Mas esse é um problema que não afetará os leitores que tiverem  esse, ou qualquer outro dos livros da série, como sua primeira leitura desse autor. A sensação de “déjà vu” começa a vir depois do segundo ou terceiro livro.

Agora, não sei se isso é realmente um defeito, em se tratando de um livro que é parte de uma série de ficção, já que o pressuposto das séries ficcionais, sejam elas de TV, de cinema ou de literatura, é que encontraremos personagens com os quais já estamos familiarizados, diante de situações cujo enfrentamento se dá de uma maneira característica que é justamente o que atrai os apreciadores de cada uma dessas séries. Os fãs de MacGyver talvez se decepcionassem com o personagem se ele abrisse mão da gambiarra com arame e SilverTape® como método de resolver todos os problemas mundiais.

Mas divago. O livro é interessante porque nos defronta com um problema ecológico mundial relevantíssimo, talvez “o problema ecológico mundial” por definição, o qual vislumbramos debilmente ao nos olhar no espelho pela manhã, mas intensamente ao nos metermos num congestionamento automotivo, num ônibus lotado ou numa feira de comércio popular, aqui ou em qualquer outro lugar do mundo. Somos muitos… Somos tantos, que talvez sejamos demais. E, enquanto a história se desata ao longo das páginas, podemos experimentar nossas próprias impressões e reações diante dessa humanidade, que ora nos aparece como um monstro asfixiante de infinitas cabeças, braços e pés, pronto para nos pisotear, e ora nos aparece como uma teia de relações tênues e delicadas entre histórias de vida e de sentimentos individuais, ainda que multiplicadas à casa dos milhões.

“Que é o homem… para que vos ocupeis dele” (Salmos, 143:3)? “O homem é uma corda, atada entre o animal e o Além-do-homem – uma corda sobre um abismo. Perigosa travessia, perigoso a caminho, perigoso olhar para trás, perigoso arrepiar-se e parar.” (NIETZSCHE, Friedrich. “Assim Falou Zaratustra”). E, ainda assim, que é essa multiplicidade de seres surgidos nesta Terra, que não são nem bem animais, nem bem algo além destes? Que sentimentos nos suscita essa humanidade que nos inclui e nos estranha, às vezes ao mesmo tempo? Ora repulsa, como diante do germe patogênico que infesta o globo e adoenta o mundo natural, ora maravilhamento, como diante da Teia de Indra.

O mérito deste livro, então, está na perspicácia de seu autor em entretecer, no que poderia não passar de uma trama convencional de ficção e suspense policiais e científicos, pequenos estímulos, pequenas “iscas” de pensamento que, aceitas, nos conduzem a uma profunda reflexão acerca do que sabemos e sentimos sobre a experiência de se ser humano, enquanto indivíduo único e ao mesmo tempo apenas um dentre bilhões de exemplares de uma mesma espécie, e por ambas as perspectivas inteiramente sujeito aos ímpetos das vicissitudes da Natureza, ao mesmo tempo em que a influencia sem compreender nem controlar sua influência.

É evidente que a leitura fica recomendada, a quem tenha se sentido instigado por estas singelas considerações.

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2 Responses to Inferno

  1. tania says:

    Tão logo seja po$$ivel vou ler. Gostei de sua resenha e há tempos aprendi a confiar em sua opinião

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