Nome

Desde criança, sempre tive pavor de ser chamado por apelidos. As pessoas da família, com sua seriedade habitual, usavam meu nome. Fora de lá, sempre intuí – não era preciso muita sensibilidade, aliás – a derrisão inerente ao uso de apelidos pelas outras crianças, entre si tanto quanto em relação a mim.
Depois, em tempos de veleidades esquerdistas juvenis, cheguei a achar bonito o tratar-se por “companheiro” ou “camarada” que fazia parte da caracterização dos partidários dessa ideologia. Isso antes de perceber que, como caracterização, tratava-se no mais das vezes de um trejeito, de um disfarce, de uma afetação superficial fria, muito mais que uma alusão ao cordial significado subjacente a essas palavras.
Mais adiante, percebi ainda que o trejeito convinha bem a uma visão totalitária que recusa à pessoa o estatuto de indivíduo, em troca do de peça – repetida, facilmente substituível e insignificante em si mesma – componente da maquinaria acachapante de um Todo, e que nesse horizonte os extremos ideológicos se tocam e flertam, todos, com o desrespeito e com a violência autoritária.
Também foi preciso amadurecer para perceber a tolice do envaidecimento decorrente do uso de títulos – acadêmicos, profissionais, honoríficos – já que as pessoas, ao empregá-los, o fazem nunca por deferência em relação ao titulado, mas por conveniência igual à do jogador, seja de baralho, que chama a carta de carta, seja de damas, que chama a pedra de pedra, seja de xadrez, que chama a peça de rei, torre ou bispo apenas em reconhecimento do que a peça pode fazer no jogo. Pantomima, enfim; fardo que se aceita apenas, e finalmente, com um quê de derrota, em função da inutilidade do esforço de evitá-lo, percebida depois de umas tantas tentativas frustradas.
Não, depois de todos esses anos sigo, no fundo, alérgico a apelidos, títulos, epítetos, alcunhas, pronomes de tratamento e quejandos. Gosto de chamar as pessoas pelo nome, homenageando o fato de que ali há um indivíduo, com uma história de vida que começou antes do encontro e continuará depois dele.
E se não posso impor que me tratem assim – quem pode de fato impor algo a outrem e, se pudesse, de que valeria o imposto? – não deixo de envaidecer-me pelo uso puro e simples de meu nome, que tem para mim a profundeza mítica de um namastê, e diz, parafraseando a saudação indiana, “o indivíduo em mim saúda o indivíduo em você”.

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3 Responses to Nome

  1. Dalva Ana Foleto Jorge Patricio says:

    lindo e sensato! gostei muito!

  2. ta... says:

    Concordo com quase tudo, só que não gosto do meu nome, que era um apelido, diminutivo de um nome, então sempre me senti incompleta…Brincadeirinha essa de incompleta, mas, puxa, meu nome é um apelido !

    • Diminutivo? Nah.. Como acabo de descobrir mediante uma pesquisa internética, trata-se, em russo, de um hipocorístico ou nome familiar, Таня, e nesse sentido talvez você não devesse se senti incompleta mas talvez um pouco exposta, já que se fosse russa seria chamada assim apenas por familiares próximos, para os demais sendo reservado o trinômio Nome+Patronímico+Nome da Família. Mas, no seu caso, outras línguas detém o mesmo vocábulo com significados independentes, alguns deles remetendo às profundezas do Sânscrito. Para não dizer que essa forma familiar foi apropriada como nome independente, sendo muito comum na Alemanha e nos Estados Unidos, de onde chegou aqui. Também tem uma bela sonoridade, a das paroxítonas terminadas em ditongo, que transitam, conforme o caso, entre a pressa de duas sílabas e a escansão longa que lê o ditongo como hiato, e que lhes faz parecer terem três. É um belo nome.

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