… e nada me faltará…

Exceto, claro, a vida. O bater do coração, o pulsar da mente, o (nem sempre) silencioso labor de todos os órgãos e tecidos, fazendo e desfazendo, a cada segundo.

Tudo isto falta-nos ao morrermos, e mais. Estamos findos, história contada e encerrada. Sujeita a revisitas e revisões, claro, mas contada. Sem páginas em branco ainda por preencher, sem a surpresa de próximos capítulos.

Finda a parceria de todos os elementos que se reuniram fortuitamente para constituir-nos, estão todos livres, quantidades de matéria e de energia, para irem compor outros agregados, fazer outras histórias, cristalizar em outras joias, ou fluir em outras torrentes, ou desvanecer-se em outros vapores.

Restarão, sim, as consequências, sobre o que ficou, daquilo que foi feito por aqueles que éramos nós, as decorrências, as marcas, as lembranças de outros, até que estes se desagreguem também. Até que tudo reste indistinguível, no meio dos novos seres.

Por que, já não fomos, também nós, novos seres? E, ainda assim, feitos de pedaços de coisas muito antigas, fomos, desde o início, consequências de consequências de consequências de que jamais teremos ciência ou notícia.

Imortal é aquilo de que somos feitos. Imortal é o palco em que encenamos nossas histórias. Imortal é a trama do tempo que nos enreda, que se desenrola à nossa volta, que nos atira longe, qual pedra pela funda que gira. Imortal é a tessitura do universo em que existimos, que é feita de nós e de tudo o mais que existe, e ao mesmo tempo segue indiferente a cada uma dessas coisas, que surgem e se desfazem continuamente.

Não existe, para mim, fórmula a ser recitada, alma a ser encomendada a divindades que precisem ser apaziguadas ou aliciadas por um bom repouso eterno, por um bom retorno à existência, ou o que quer que seja.

Existe, sim, claro, o sofrimento de quem fica e se ressente da falta, porque vive, e ama a vida, e ama-a na vida do outro, e sabe que aquele que era – por mais histórias diversas que se possa contar a si mesmo e aos outros – não é mais. Porque o que é real em cada um sabe sempre da realidade de todo o resto, com um saber profundo e silencioso, que não cabe em palavras.

Esse sofrimento é real, existe, e deve ser honrado, acolhido, respeitado.

O pranto da vida, diante da morte, é a chama da vida em tudo o que vive, e pulsa, e deseja, e procede no sentido de que haja vida. Onde nunca houve vida. Onde já houve vida, mas já não há. Onde ainda há, mesmo muita, que se pode transformar.

A vida não pode vencer a morte. Não pode se apegar a si mesma. Não adianta. Mas a morte não pode vencer a vida, não pode suprimir isso que pulsa, em cada fibra e em cada horizonte do universo, que anela por existir e acender sua chama.

Que todo aquele que vive respeite e aceite a morte, mas honre antes de tudo a vida, pelo que pode escolher naquilo que constitui seu agir e não agir, naquilo tudo que sua vida faz pulsar, mudar, existir e cessar no mundo. Que essa seja sua oração, sua fé, seu rito.

E nada lhe faltará.

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One Response to … e nada me faltará…

  1. Dalva Ana Foleto Jorge Patricio says:

    Muito expressivo, muito bom!

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