Ainda tento

Periodicamente, ainda tento escrever algo, mas não acho fácil. A mente tem muitas palavras que surgem, passam fugazmente pela consciência e desaparecem sabe-se lá onde. Nessa passagem repentina, quais escolher. O que dizer?

Olho para o mundo, para as pessoas, para suas criações e destruições, e vejo tantas coisas que despertam meus impulsos de crítica, que o cansaço toma conta de mim antes mesmo de eu começar.

Olho para dentro de mim, e vejo sempre mais descrenças do que crenças, sempre mais dúvidas do que certezas, de modo que me é difícil articular sobre isso.

Mas algo me ocorre agora, talvez seja válido exprimi-lo. Até por ser algo positivo. Que esse cenário interno a que me referi – “sempre mais descrenças do que crenças, sempre mais dúvidas do que certezas” – não me aflige como poderia parecer. Por clichê que se tenha tornado o socrático “só sei que nada sei”, existe um caminho de paz por meio dele… Acho que o encontro sempre quando o amontoado de dúvidas e possibilidades pesa tanto sobre si mesmo que forma uma superfície sólida o suficiente para nela caminhar quando preciso, e repousar quando possível.

É possível ficar em paz com o sentimento de que sabemos muitas coisas, e ignoramos muitas mais, quando realmente, no fundo da alma, e não apenas enunciando um juízo racional, dispensamo-nos do vir-a-saber tudo o que ignoramos. Deixamos de lutar contra nossa própria ignorância e simplesmente paramos e abrimos as janelas da alma, para que entre a luz que cada dia queira nos oferecer. E nós a teremos, observando essas janelas abertas: dura, crispada e calcinante nos dias de céu limpo, ou diáfana e difusa, nos dias nublados. Mas não a teremos nunca, como poderíamos sonhar, iluminando ali onde nossas próprias paredes se fecham sobre si mesmas, criando recintos de eterna penumbra, onde a pouca luz que chegar virá exausta, um resto de si mesma, depois de esbater-se refletida em tantas superfícies casualmente dispostas.

O que não enxergamos fora de nós está entre nossos olhos e nossos obstáculos. O que não enxergamos dentro de nós está entre nossos obstáculos e a luz. Remover as anteparas que toldam, que obscurecem, é, sim, a tarefa do dia, quando esse não ver, não saber, estiver a por-nos em perigo ou aflição.

Mas às vezes, pode ser também, que valha mais aceitar a incompletude do horizonte, e a existência de espaços escuros entre nós. Para que possamos nos abrigar sob o teto de nós mesmos, para que possamos nos aconchegar entre nossas próprias paredes, e contemplar as paisagens das janelas que escolhemos abrir.

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2 Responses to Ainda tento

  1. Dalva says:

    muito bom, também sinto isso.

  2. Pingback: Anticonhecimento e desaprendizado | O Impressionista

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