Engano e autoengano

Sou, confesso, um grande leitor de orelha. Ainda que compre parte dos livros cujas orelhas limito-me a ler. Alguns deles, há tempos esquecidos na prateleira, voltam à minha lista de pretensas leituras futuras, quando a vida me faz tropeçar – de novo – em seus assuntos. Este é um deles:

Este é um livro sobre as mentiras que contamos a nós mesmos. Mentimos para nós o tempo todo: adiantamos o despertador para não perder a hora, acreditamos nas juras da pessoa amada, só levamos realmente a sério os argumentos que sustentam nossas crenças. Além disso, temos a nosso próprio respeito uma opinião que quase nunca coincide com a extensão de nossos defeitos e qualidades. Sem o auto-engano, a vida seria excessivamente dolorosa e desprovida de encanto. Abandonados a ele, entretanto, perdemos a dimensão que nos reúne às outras pessoas e possibilita a convivência social. O problema é que as mentiras que nos contamos não trazem seu nome verdadeiro estampado na fronte. É preciso, por isso, analisar os caminhos que nos levam até elas: encontraremos aí a origem de grandes conquistas e alegrias, mas também dos sofrimentos que muitas vezes causamos a nós mesmos e às pessoas que nos cercam.

Sei que o tenho, de um tempo em que estava preocupado em estar fazendo isto comigo mesmo. O que obviamente era verdade. Embora uma passada de olhos na estante não me tenha favorecido nesse instante, sei que o encontrarei. Agora, antes mesmo de ler esse livro, tenho minhas próprias impressões sobre o assunto, claro.

Delas faz parte crer que as pessoas não enganam a si mesmas apenas pela vontade própria de alienarem-se de uma dada realidade, ou de se darem uma dimensão mais segura e palatável de si mesmas.

Vejo que muitas pessoas almejam primordialmente enganar os outros. Contam mentiras e omitem verdades para viabilizar uma situação, em face das expectativas alheias, que acreditam insustentável no caso de se transmitir amplo conhecimento de um certo número de fatos. Presumem – com ou sem razão – tais expectativas dos outros, e alijam a verdade dos fatos para caber nelas. Até aí, nada de novo; o ser humano é tediosamente repetitivo nessa pretensão. Suas possíveis motivações, nesse caso, são legião, algumas até convincentes, pela nobreza do propósito ou pela inexigibilidade de outro agir, ou ainda perdoáveis, pela banalidade do gesto ou da situação.

O que talvez não passe por tão evidente é que aquele que pretende enganar a outrem, antes e quase sempre, engana a si mesmo.

Talvez seja uma limitação das capacidades semióticas de cada um… Se falo a verdade, sei do fato (referente), falo do fato (significo-o) e espero do outro o alcance do significado que tenho em mente, do modo mais próximo possível. Singnificar e ressignificar são trabalhos mentais, eu faço o meu, a pessoa com quem falo faz o dela, minhas habilidades comunicativas e as habilidades compreensivas do outro vão dizer o quão próximas nossas idéias serão. A unir tais idéias, e a nós, está apenas o fato nu, aquilo que aconteceu.

Se minto, omito o fato (que aconteceu) e significo o não-fato (coisa diversa do que aconteceu). Para significar e expressar o não fato, preciso tratá-lo como fato. Preciso imaginar o que não aconteceu como se acontecido fosse, para enxergar as características que teria, e que direi a outrem que efetivamente tem. Obviamente que engendrar uma situação ficcional, com todas as características significativas que possam ser exigidas por quem pretendo convencer que tal ficção é real, é peça complexa de literatura e arte, que consumirá, provavelmente, muito mais esforço e energia do mentiroso do que simplesmente descrever o objeto verdadeiro que tem diante de si, e lidar com suas consequências.

O primeiro autoengano a que se submete quem pretende enganar os outros é subestimar o custo desse esforço. O esforço de imaginar, do modo mais realista possível, como seria aquilo que se pretende comunicar, se de fato tivesse acontecido. O esforço adicional de dissimular todos os indícios do que de fato aconteceu. O esforço de manter em mente uma lista de coincidências e divergências entre fato e não-fato, à qual precisa referir-se durante todo o tempo em que precisar manter a comunicação do nã0-fato. Só não digo ser desumano tal esforço, dada a frequência com que os humanos o empreendem.

O segundo autoengano vem de manter a ilusão do controle sobre a realidade. Vem de supor que aqueles a quem se pretende enganar ficarão restritos àquela camada da realidade cuidadosamente editada pelo enganador. Ou seja, que jamais serão apresentados ao fato omitido, seja pela ação intencional de outrem, seja pelo acaso de tropeçarem nele. O enganador, aqui, tem a pretensão de tornar-se carcereiro do outro, que, antes do engano, era livre para circular por todo o real sensível do universo, e agora – pela intenção do enganador – precisa ser mantido dentro de um território artificial e delimitado. A triste ilusão do enganador é a de que tem poder para fazer isso, para segmentar o universo, para deter a todos os demais. Embora até possa, em certos casos, sustentar essa prestidigitação por algum tempo, cedo ou tarde as insistentes ondas da vida submergirão essas muralhas de castelo de areia.

E como se não bastassem essas duas coisas, em terceiro lugar engana-se aquele que, chegando a pensar sobre as duas coisas anteriores, e vindo a meditar sobre o custo e sobre a finitude de sua farsa, chegue a supor que sua motivação inicial, aquela que o levou a cometer o embuste, será levada em consideração pelas pessoas quando se virem ultrajadas pelo engano. Mas não, não haverá contingência, nem nobreza de intenção, nem banal trivialidade que cheguem para pesar em sua desculpa. Porque ao enganado enfurece justamente, e a par de todas as consequências óbvias do engano, essa privação que experimentou na liberdade de agir conforme o que lhe pareceria adequado, consequência de outra privação, a de apreender o mundo sem filtros e na totalidade, de manter contato livre com a totalidade do universo.

Se o enganador estiver ao alcance do enganado quando do desbaratamento de sua farsa, não poderá esperar ser poupado da mágoa que surgir. Nessas situações, quando entre indivíduos, às vezes impera, porém, a grandeza do perdão, dentre outros mecanismos psicológicos de pacificação. Quando o engano é coletivo, contudo, diversamente reagem as massas, e o que vemos são as furiosas liberações de energia cega que a história nos descreve em cada evento de queda violenta de um regime ou de uma crença.

De qualquer forma, o enganador, que lançou mão de um poder a que não faz jus, tem sempre pendente sobre si a espada de Dâmocles. Ao tolher a liberdade alheia, renuncia igualmente à sua própria. Ao restringir o mundo do outro, cerca o seu próprio caminho de armadilhas.

Há na bíblia por volta de meia dúzia de passagens que me encantam, no meio de tudo aquilo e ao largo da fé que não tenho. Do sermão do lago (Lc 6), ao “no princípio era o verbo” (Jo 1), até esta magnífica conclusão de uma frase que merece ser tirada de seu contexto, e, pela qual, por tudo que foi dito acima, vale a pena pautar a vida: “e a verdade vos fará livres” (Jo 8:36).

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