Escapando da rede

Vivi a maior parte de minha vida entre computadores, o meu primeiro tendo sido um PC-XT com unidade de disco rígido de 30 MB, unidade de disco flexível de 5¼″ (cinco polegadas e um quarto), processador Intel de 4,77 MHz de velocidade, ou “clock”, como se dizia na época. Como hoje a velocidade dos processadores é medida no próximo patamar de grandeza, convertamos para constatar que isso equivale a 0,0047 MHz. Sim, há cerca de 25 anos os computadores tinha processadores mil vezes mais lentos que os atuais.

Mas funcionavam. E de uma forma que, de certo modo, deixa saudades. Quando você o ligava, depois de cerca de um minuto de exibição de mensagens herméticas do sistema operacional, tudo que você recebia era uma hermética tela preta, e num canto da tela o seguinte:

 

C:>_

Só havia o teclado, e nele você precisava digitar o nome dos programas que queria executar. Era necessário conhecê-los pelo nome próprio, mas isso era fácil, porque eles nunca tinham mais que 8 caracteres que, ou eram letras de A a Z, ou números de 1 a 9. E nada mais. WS, CARTA, 123, DBASE… Saudades de vocês, passamos juntos tempos bons…

E só se podia executar um programa de cada vez: abria-se um programa, fazia-se seu trabalho com ele, gravavam-se seus arquivos, fechava-se o programa, voltava-se para o “C:>” e chamava-se o próximo.

E, finalmente, você estava a sós com a máquina, e com os duendes de software que moravam dentro dela. Se quisesse que outra pessoa visse o que você fez, tinha-se que imprimir em papel (em geral em ruidosas máquinas matriciais que usavam formulário contínuo de bordas perfuradas) ou gravar nos discos flexíveis, envelopes de plástico preto contendo uma mídia magnética da espessura de um filme fotográfico, com capacidade de 360 KB. Melindrosos, perdia-se o que continham expondo-os ao calor (sendo pretos, bastava esquecê-los no sol por alguns minutos), ou aos perigosíssimos ímãs escondidos por trás de todo alto-falante.

Houve computadores ainda mais antigos, sem disco rígido e dependentes de gravadores de fitas cassette (francês para “caixinha”, e que nós falantes de português apelidamos de K7) , mas este foi o primeiro que desembarcou no meu quarto, tendo custado o preço de um carro usado, e que de minha casa só eu, aos 12 anos, tinha, alguma ideia de como dirigir.

Todas essas reminiscências me vieram à mente depois de decidir que já não me sinto mais tão à vontade com esses entes de corpo de cobre e silício e alma de eletricidade…

Não por culpa deles, coitados. Continuam sendo engenhos excelentes, e por baixo de todas as cores, sons e o que mais houver, ainda são feitos das mesmas pulsações de “ligado” e “desligado”, que, pulsando em grupos de oito (os famosos bytes), representam os números 0 a 255 e estes, por sua vez, tudo que existe.

Tudo que existe. Conte de 0 a 127 e caberão todos os caracteres necessários para escrever em inglês. Use as outras 128 posições e poderá utilizar acentos e alfabetos alternativos. Mande a economia às favas, e use dois ou três bytes de cada vez: 256 vezes 256 resulta em 65.536 possibilidades, vezes 256 e temos 16.777.216, bastantes para quase todos os caracteres fonéticos e ideográficos que há ou houve no mundo.

Os mesmos mais de 16 milhões são o número de cores que podem ser representadas em qualquer tela ordinária de nossos dias: nada mais que 256 níveis de vermelho vezes 256 níveis de verde vezes 256 níveis de azul. Vezes 1.920 pontos de largura, vezes 1.080 pontos de altura, e temos uma fantástica imagem capaz de encher a tela de um televisor Full HD. Vezes 24 quadros, e temos um segundo de video. Vezes 86.400 segundos, e temos um dia de programação de TV digital. Sem contar o audio, que tem seus próprios números vezes números vezes números para nos tocar, em estéreo, a trilha de nossa vida eletrônica.

E agora perdi-me nas imensidões dos números que essas máquinas, hoje reduzirdas ao tamanho de maços de cigarro, podem manusear com precisão e pouco esforço em uma fração do tempo que eu gasto para me lembrar qual é o meu primeiro nome…

Dizia que não me sinto mais à vontade na companhia dessas máquinas, mas a culpa, como eu disse, não é delas. Não me sinto (muito) assombrado por seu poder de processamento e por sua engenhosidade. Sinto-me, contudo, acabrunhado pelo pouco que fomos capazes de fazer com tanto poder e tantos recursos.

É que transformamos essas máquinas maravilhosas em bestas de carga de toda nossa mediocridade. Invertemos os papéis, e em vez de procurar respostas para nossos problemas globais, fizemos com que as máquinas nos fizessem perguntas, e nunca nos preocupamos em como fornecer respostas decentes. Quando o Facebook me indaga “o que você está pensando?” ou o navegador Edge me inquire “para onde vamos agora?”, sinto-me aflito. Por mim, pelas minhas respostas, e pelas dos outros, já que também fizemos com que as máquinas se ligassem umas às outras, criando uma imensa matriz global de milhões de milhões de milhões bits correndo o mundo na velocidade da luz, por fios de cobre e ondas de rádio, saltando até as órbitas baixas dos satélites de telecomunicação, e mergulhando até o leito dos oceanos pelos cabos intercontinentais.

E nem estou falando das fotos e dos filmes de cães e gatos, das piadas fracas, do entretenimento barato e superficial. Falo do que dizemos de nós mesmos como espécie, quando as notícias de factóides protagonizados por subcelebridades circulam lado a lado com notícias que expõem tamanha barbárie, tamanha desumanidade, sem que a maior parte das pessoas se mostre afetada mais por esta do que por aquelas. E nesse instante caio de joelhos, vencido.

De modo que a rede social me venceu, não pelo cansaço, mas pelo desespero. Não estou farto, mas exausto. Tenho endossado petições digitais às pencas, e procurado aprender tudo que não sei, até onde sou capaz, e o limite está do meu lado, porque todo o conhecimento universal está disponível pela rede mundial de computadores. Tenho procurado repercutir a informação que acho mais relevante e necessária. Tenho resistido à tentação de trocar a compreensão e o diálogo pela troca de ofensas. Mas cheguei ao meu limite.

Estou me impondo, doravante, uma tentativa de abstinência. A rede social já não me parece mais um tecido que nos suporta, nos conecta e nos apresenta em padrões e estampas intrigantes e belas. Parece mais com uma tarrafa sinistra, com uma rede de pesca que nos arranca de nosso flutuar natural e nos aperta uns contra os outros, acotovelados, empilhados, enfardados. Assim justapostos e sobrepostos, não temos mais o mínimo espaço necessário para olhar para o outro e vê-lo inteiro em nosso olhar. Não vemos mais ao outro, aos outros, a nada. Só vemos do outro a pupila escura a refletir o vermelho das veias inchadas de nossos olhos. Não admira que não façamos outra coisa que entrarmos em conflito, em manifestar sarcasmo, angústia, aflição… Incomunicabilidade, enfim, sem perceber que ao mesmo tempo estamos a ser pescados, a sermos a presa de um sistema que se coloca numa posição distante e obscura, de onde nos faz sentirmo-nos impotentes sequer para compreendê-lo, quanto mais para mudar seu curso.

Percebo que é muito o mal que a conexão constante à rede social me tem feito, e que é insuficiente para compensá-lo o irrisório bem que, quando otimista, penso conseguir fazer pelo intermédio dela.

Tenho, como todos, um trabalho para fazer e uma vida para percorrer. E quero realizar a ambas as coisas sem perder de vista os outros seres humanos, meus companheiros de esforço e jornada. E para isso quero vê-los, e para vê-los preciso me afastar um ou dois passos, a distância necessária para tê-los em perspectiva suficiente, para ouvir a sua voz, e para compreender o que seu rosto e seus olhos dizem. Quero voltar a me sentir o dia todo um ser humano, vivo e pulsante, sem esses momentos de bizarra conexão a um mundo invertido, em que as máquinas fazem perguntas e as pessoas não conseguem respondem senão com a frieza de máquinas.

Máquinas são ótimas, são bons brinquedos, e excelentes ferramentas. Mas não podemos nos deixar aprisionar por elas. E eu? Achei um buraco na rede, vou esgueirar-me por ele e escapar. Com licença.

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2 Responses to Escapando da rede

  1. Dalva says:

    Gostei muito deste texto. E tem razão, quando vemos que pessoas esquecem das pessoas físicas, do mundo, para apenas viver no computador.

  2. Dalva says:

    Acrescentando, sinto saudades e lembro de sua alegria quando recebeu seu primeiro computador.

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