Grande Sertão: Veredas

Com que, então, finalmente li o grande livro de Guimarães Rosa. Grande, grandioso, em todos os sentidos e direções. Como é que cheguei a esta altura da vida sem nunca tê-lo lido é que me escapa. Mas não me queixo: quase certo de que não teria antes maturidade para entendê-lo, apreciá-lo e senti-lo. Caso não o tenha lido e deseje fazê-lo sem saber mais de sua história, não prossiga na leitura. Como dizem os jovens: spoiler alert! E não se demore, vá buscá-lo e lê-lo, é fácil de encontrar, inclusive na internet.

É a história do amor de Riobaldo Tatarana e Reinaldo Diadorim, narrada pelo primeiro, em três segmentos: meio, começo e fim. Nessa ordem, mesmo, anacrônica. De como sua vida e seu amor por Diadorim o encaminharam a tomar parte nas guerras da vida: as do grande sertão, e aquela a si mesmo, àquilo que vem de dentro nos complica, nos faz cair para fora da segurança da vida “como se espera que seja”. Viver é muito perigoso!

Hoje que vivemos em tempos de melhor entendimento, é especialmente doloroso sentir com Riobaldo sua dor do amor que não se podia, seu sem-saber-que-fazer diante dele, e de como a grandeza desse sentimento, não se podendo externar, passa a dar pinotes e coices dentro da alma do pobre sertanejo. Esta passagem pesou na minha alma, dias a fio:

O nome de Diadorim, que eu tinha falado, permaneceu em mim. Me abracei com ele. Mel se sente é todo lambente ― Diadorim, meu amor… Como era que eu podia dizer aquilo? Explico ao senhor: como se drede fosse para eu não ter vergonha maior, o pensamento dele que em mim escorreu figurava diferente, um Diadorim assim meio singular, por fantasma, apartado completo do viver comum, desmisturado de todos, de todas as outras pessoas ― como quando a chuva entre-onde-os-campos. Um Diadorim só para mim. Tudo tem seus mistérios. Eu não sabia. Mas, com minha mente, eu abraçava com meu corpo aquele Diadorim ― que não era de verdade. Não era? A ver que a gente não pode explicar essas coisas. Eu devia de ter principiado a pensar nele do jeito de que decerto cobra pensa: quando mais-olha para um passarinho pegar. Mas ― de dentro de mim: uma serepente. Aquilo me transformava, me fazia crescer dum modo, que doía e prazia. Aquela hora, eu pudesse morrer, não me importava.

O que sei, tinha sido o que foi: no durar daqueles antes meses, de estropelias e guerras, no meio de tantos jagunços, e quase sem espairecimento nenhum, o sentir tinha estado sempre em mim, mas amortecido, rebuçado. Eu tinha gostado em dormência de Diadorim, sem mais perceber, no fofo dum costume. Mas, agora, manava em hora, o claro que rompia, rebentava. Era e era. Sobrestive um momento, fechados os olhos, sufruía aquilo, com outras minhas forças. Daí, levantei.

Levantei, por uma precisão de certificar, de saber se era firme exato. Só o que a gente pode pensar em pé ― isso é que vale.

Aí fui até lá, na beira dum fogo, onde Diadorim estava, com o Drumõo, o Paspe e Jesualdo. Olhei bem para ele, de carne e ósso; eu carecia de olhar, até gastar a imagem falsa do outro Diadorim, que eu tinha inventado. ― Hê, Riobaldo, eh, uê, você carece de alguma coisa? ― ele me perguntou, quem-me-vê, com o certo espanto. Eu pedi um tição, acendi um cigarro. Daí, voltei, para o rancho, devagar, passos que dava. Se é o que é ― eu pensei ― eu estou meio perdido… Acertei minha ideia: eu não podia, por lei de rei, admitir o extrato daquilo. Ia, por paz de honra e tenência, sacar esquecimento daquilo de mim. Se não, pudesse não, ah, mas então eu devia de quebrar o morro: acabar comigo! ― com uma bala no lado de minha cabeça, eu num átimo punha barra em tudo. Ou eu fugia ― virava longe no mundo, pisava nos espaços, fazia todas as estradas. Rangi nisso ― consolo que me determinou. Ah, então eu estava meio salvo! Aperrei o nagã, precisei de dar um tiro ― no mato ― um tiraço que ribombou. ― Ao que foi? ― me gritaram pergunta, sempre riam do tiro tolo dado. ― Acho que um macaquinho miúdo, que acho que errei… ― eu expendi. Tanto também, fiz de conta estivesse olhando Diadorim, encarando, para duro, calado comigo, me dizer: Nego que gosto de você, no mal. Gosto, mas só como amigo!… Assaz mesmo me disse. De por diante, acostumei a me dizer isso, sempres vezes, quando perto de Diadorim eu estava. E eu mesmo acreditei. Ah, meu senhor! ― como se o obedecer do amor não fosse sempre ao contrário… O senhor vê, nos Gerais longe: nuns lugares, encostando o ouvido no chão, se escuta barulho de fortes águas, que vão rolando debaixo da terra. O senhor dorme em sobre um rio?

Amigo Riobaldo, sei contigo dessa dor. Quantos não desviveram, acabaram consigo, ou saíram em fuga pelo mundo, acuados pela mesma aflição? Que eu sei, bem sei. Mas sei também que o amor redime e cura, e que deixarmos, ele é maior que todo o resto do mundo que o condenar. Tive essa sorte, não desvivi. Vontade, tive. Não tenho mais.

Enfim.

Pelas classificações de hoje, pelo que sabemos, pelo que podemos saber do texto, seria Riobaldo bissexual, talvez. E Reinaldo, o Diadorim, perdão, Maria Deodorina, transexual, encontrado pela primeira fez por Riobaldo, na adolescência e muito antes das guerras e necessidades de vingança, já em trajes de rapaz, para marcar para sempre a sua lembrança quando do reencontro, muitos anos depois:

Ah, mas, ah! ― enquanto que me ouviam, mais um homem, tropeiro também, vinha entrando, na soleira da porta. Aguentei aquele nos meus olhos, e recebi um estremecer, em susto desfechado. Mas era um susto de coração alto, parecia a maior alegria.

Soflagrante, conheci. O moço, tão variado e vistoso, era, pois sabe o senhor quem, mas quem, mesmo? Era o Menino! O Menino, senhor sim, aquele do porto do de-Janeiro, daquilo que lhe contei, o que atravessou o rio comigo, numa bamba canoa, toda a vida. E ele se chegou, eu do banco me levantei. Os olhos verdes, semelhantes grandes, o lembrável das compridas pestanas, a boca melhor bonita, o nariz fino, afiladinho. Arvoamento desses, a gente estatela e não entende; que dirá o senhor, eu contando só assim? Eu queria ir para ele, para abraço, mas minhas coragens não deram. Porque ele faltou com o passo, num rejeito, de acanhamento. Mas me reconheceu, visual. Os olhos nossos donos de nós dois. Sei que deve de ter sido um estabelecimento forte, porque as outras pessoas o novo notaram ― isso no estado de tudo percebi. O Menino me deu a mão! e o que mão a mão diz é o curto; às vezes pode ser o mais adivinhado e conteúdo; isto também. E ele como sorriu. Digo ao senhor! até hoje para mim está sorrindo. Digo. Ele se chamava o Reinaldo.

Para que referir tudo no narrar, por menos e menor? Aquele encontro nosso se deu sem o razoável comum, sobrefalseado, como do que só em jornal e livro é que se lê. Mesmo o que estou contando, depois é que eu pude reunir relembrado e verdadeiramente entendido ― porque, enquanto coisa assim se ata, a gente sente mais é o que o corpo a próprio é! coração bem batendo. Do que o que! o real roda e põe diante. ― Essas são as horas da gente. As outras, de todo tempo, são as horas de todos ― me explicou o compadre meu Quelemém. Que fosse como sendo o trivial do viver feito uma água, dentro dela se esteja, e que tudo ajunta e amortece ― só rara vez se consegue subir com a cabeça fora dela, feito um milagre: peixinho pediu. Por que? Diz-que-direi ao senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na ideia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois. Muito falo, sei; caceteio. Mas porém é preciso. Pois então. Então, o senhor me responda: o amor assim pode vir do demo? Poderá?! Pode vir de um-que-não-existe? Mas o senhor calado convenha. Peço não ter resposta; que, se não, minha confusão aumenta. Sabe, uma vez: no Tamanduá-tão, no barulho da guerra, eu vencendo, aí estremeci num relance claro de medo ― medo só de mim, que eu mais não me reconhecia. Eu era alto, maior do que eu mesmo; e, de mim mesmo eu rindo, gargalhadas dava. Que eu de repente me perguntei, para não me responder: ― Você é o rei-dos-homens?… Falei e ri. Rinchei, feito um cavalão bravo. Desfechei. Ventava em todas as árvores. Mas meus olhos viam só o alto tremer da poeira. E mais não digo; chus! Nem o senhor, nem eu, ninguém não sabe.

Conto. Reinaldo ― ele se chamava. Era o Menino do Porto, já expliquei. E desde que ele apareceu, moço e igual, no portal da porta, eu não podia mais, por meu próprio querer, ir me separar da companhia dele, por lei nenhuma; podia? O que entendi em mim: direito como se, no reencontrando aquela hora aquele Menino-Moço, eu tivesse acertado de encontrar, para o todo sempre, as regências de uma alguma a minha família. Se sem peso e sem paz, sei, sim. Mas, assim como sendo, o amor podia vir mandado do Dê? Desminto.

Estou – quanta pretensão! – com  Manuel Bandeira no preferir que Diadorim fosse mesmo homem, talvez que assim o amor entre os dois seria, para mim, mais fácil de entender. Mas se em nenhum outro ponto Guimarães Rosa era autor de deixar pelo simples, pelo fácil, porque seria nesse? E de qualquer forma, o quão genial não terá sido essa reviravolta como requinte a tornar palatável a trama para as cabecinhas da época? Pelo que andei lendo pela internet, muita gente ainda hoje só digere a história de amor d’O Grande Sertão se colar sobre Diadorim, o livro todo, um Post-It dizendo: “mas é mulher”. A própria escola nos priva (privou a mim, já no ensino médio) de ler o livro sem a informação estraga-prazeres, sem o spoiler, sem saber o que o autor só diz no final. Hipocrisias. Isto é amor, e ponto:

Sério, quieto, feito ele mesmo, só igual a ele mesmo nesta vida. Tinha notado minha ideia de fugir, tinha me rastreado, me encontrado. Não sorriu, não falou nada. Eu também não falei. O calor do dia abrandava. Naqueles olhos e tanto de Diadorim, o verde mudava sempre, como a água de todos os rios em seus lugares ensombrados. Aquele verde, arenoso, mas tão moço, tinha uma velhice, muita velhice, querendo me contar coisas que a ideia da gente não dá para se entender – e acho que é por isso que a gente morre. De Diadorim ter vindo, e ficar esbarrado ali, esperando meu acordar e me vendo meu dormir, era engraçado, era para se dar feliz risada. Não dei. Nem pude nem quis. Apanhei foi o silêncio dum sentimento, feito um decreto: – Que você em sua vida toda por diante, tem de ficar para mim, Riobaldo, pegado em mim, sempre!… – que era como se Diadorim estivesse dizendo. Montamos, viemos voltando. E, digo ao senhor como foi que eu gostava de Diadorim: que foi que, em hora nenhuma, vez nenhuma, eu nunca tive vontade de rir dele.

E para finalizar, queria deixar o link para uma muito bela matéria, d’O Estado de Minas, em comemoração aos 60 anos da publicação dessa obra, que entra para a lista de um dos melhores livros que já li na vida. Queria tê-lo lido antes. Mas podia? Talvez que só com esta idade e esta vida vivida, tenha tido o mínimo de maturidade, e o necessário desimpedimento da sensibilidade, para, não sei se compreender, mas acolher no coração essa grandiosa história.

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