Um orangotango pálido e degenerado, desprovido da elegante peliça ruiva, da graciosa habilidade de saltar entre galhos de altas copadas, e provavelmente do bom gênio daqueles simpáticos símios, é tudo quando vejo em mim, se me olho e me avalio apenas pela carcaça aparente.

Tanto em mim quanto nos demais integrantes dessa estranha espécie a que pertenço, não está no visível um valor, nem no aspecto corporal e tampouco no comportamental dos indivíduos e dos bandos – de fato, pelo comportamento, somos os mais vergonhosos e deploráveis dos mamíferos. O mundo estaria melhor – mais belo e mais em ordem – sem nós. Isto, eu serei o último a negar.

E, no entanto, há algo. Há algo de fugidio, de espectral, an ellusive butterfly, que vez por outra me faz sentir que não somos – ou poderíamos não ser – um total malogro dos acasos da natureza. Mas – e é claro que há um mas – não é fácil.

Sempre que sinto um vislumbre do que quer que seja essa coisa, esse traço, essa inclinação – chamem do que quiser – eu o relaciono com nossa razão, e mais do que isso, com nossa racionalidade simbólica abstrata. Não sei exatamente como definir isto rapidamente, mas é aquilo que nos torna capazes para as matemáticas, para a música, para o discurso e para a ética. É aquilo – para os que compreendem e aceitam o pensamento de Kant – que, dentro de nós, realiza algo admirável a ponto de comparar-se com o céu estrelado – uma ordem racional que pode orientar nossas ações para o bem.

Por isso, não me impressionam as pessoas que desprezam a razão e valorizam – sempre excessivamente, penso eu – as emoções. Emoções são importantes e não devemos dar as costas a elas. Mas não são elas que nos salvarão de nossa própria inadequação enquanto animais. Definitivamente não. Pelo contrário. Nós, humanos, sem a razão e com as emoções, somos e fazemos o pior dos mundos.

 

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