Ainda

Depois de ameaçar e não cumprir, finalmente tornei definitiva minha decisão de abandonar algumas das mais famosas redes sociais em que andei metido nos últimos anos. Não precisei buscar motivações, as próprias empresas mas ofereceram (estes pronomes oblíquos condensados, me+as=mas, são tão práticos, não sei porque caíram em desuso). E este abandono fez maravilhas por minha saúde mental. Meu humor não é mais pautado por algoritmos.

Ainda mantenho este blog, e vou tentar postar algo novo de vez em quando. Ainda não sei com que periodicidade conseguirei fazê-lo. Ainda que ninguém mais leia blogs, que ninguém mais queira escrever neles, eu os considero úteis ao menos pelo seguinte: são uma arquivo, que pode talvez vir a ser uma fonte razoável para a arqueologia dos pensamentos que um dia tivemos.

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Perspectiva de Deus

Feliz 2018. Que tal começar com novas perspectivas?

Mães, sejam essa mãe.

Está correndo pela internet, e logo vai sumir na multidão. Como me emocionei muito, vou colar aqui nisso que tende a se tornar um álbum de recordações virtual… Algum dia, eu não sei quando, os jovens talvez não tenham que passar por isso. Nem pedir desculpas por isso. Nem ficar com medo de não ter esse acolhimento, nem ficar arrasados quando ele não acontecer. Porque, sabe, nem sempre acontece. E só quem torceu para que fosse assim, e não foi, sabe como é o desastre interno, a vontade de fugir, sumir, morrer… Alguns morrem mesmo, há até um belo filme baseado em fatos reais sobre isso. Alguns não morrem por um triz e ninguém nunca fica sabendo o quanto quase custou tanto orgulho. Mães (e pais, claro), sejam essa mãe. Não ser só causa dor.

Paradoxo de Epicuro

Também conhecido como “problema do mal”, esse raciocínio simplesmente elimina a possibilidade de sustentar certas crenças. Gente até bem-intencionada já produziu muito papo furado ao longo de séculos, tentando refutar este raciocínio, mas de Guernica a Auschwitz, de Ruanda ao Haiti, da Síria ao Afeganistão, o interminável suplício de inocentes estabelece dolorosamente: nao tem ninguém lá. Ou tem alguém que não está nem aí, o que eu acho até pior. Ou alguém que acha tudo isso o máximo (pior ainda). Prefiro conviver com o vazio e com a realidade de que estamos por conta própria. E se você é dos que acham que Ele atende sua oração pra trocar de carro ou sarar da gastrite mas não atende a das crianças que morreram de inanição durante o cerco de Alepo, poupe seus dedos. Você não vai conseguir me convencer de coisa tão abominável. 

De volta outra vez

Por vezes deixo este blog abandonado por bastante tempo… Gostaria, se possível fosse, de escrever com mais frequencia. Mas não é, por vários motivos, de modo que não devo cobrar demais de mim mesmo. Até porque, se tem algo que estes textos não são, é indispensáveis, neste mundo de produção insana de “conteúdo”, seja lá o que isto possa ser.

O fato é que tem havido tantos motivos para desanimar-se de tentar construir qualquer coisa de feita de pensamento, dadas as enxurradas de ignorância brutal  (ou seria de brutalidade ignorante?) que parecem tornar inútil todo o nosso esforço. 

O que me parece importante é que parece haver muitas pessoas que estão inclinadas a opor-se à ignorância,  à brutalidade e à barbárie, porém não se dispõem a realmente agir nessa direção porque não sabem como fazer qualquer coisa de efetiva. Algumas se manifestam bastante,  mas muitas vezes a sensação é a de que discursam em meio à tormenta: acrescem ruído ao ruído, já de início ensurdecedor, sem que seja possível distinguir coisa alguma. Outras se mantém fieis aos pequenos e localizados gestos, porém com a impressão de que estes são insuficientes. 

O que seria praticável para unir os seres humanos de boa vontade? Alguém faz ideia?

Bem desse jeito…

Algo para manter em mente nos próximos dois anos. Caso as legendas não apareçam automaticamente, use os controles no canto inferior direito do video para exibi-los.

… para não esparramar raivas.

Do que de uma feita, por me valer, eu entendi o casco de uma coisa. Que, quando eu estava assim, cada de-manhã, com raiva de uma pessoa, bastava eu mudar querendo pensar em outra, para passar a ter raiva dessa outra, também, igualzinho, soflagrante. E todas as pessoas, seguidas, que meu pensamento ia pegando, eu ia sentindo ódio delas, uma por uma, do mesmo jeito, ainda que fossem muito mais minhas amigas e eu em outras horas delas nunca tivesse tido quizília nem queixa. Mas o sarro do pensamento alterava as lembranças, e eu ficava achando que, o que um dia tivessem falado, seria por me ofender, e punha significado de culpa em todas as conversas e ações. O senhor me crê? E foi então que eu acertei com a verdade fiel: que aquela raiva estava em mim, produzida, era minha sem outro dono, como coisa solta e cega. As pessoas não tinham culpa de naquela hora eu estar passeando pensar nelas. Hoje, que enfim eu medito mais nessa agenciação encoberta da vida, fico me indagando: será que é a mesma coisa com a bebedice de amor? Toleima. O senhor ainda me releve. Mas, na ocasião, me lembrei dum conselho que Zé Bebelo, na Nhanva, um dia me tinha dado. Que era: que a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve de tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a ideia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato é. Zé Bebelo falava sempre com a máquina de acerto ― inteligência só. Entendi. Cumpri. Digo: reniti, fazendo finca-pé, em força para não esparramar raivas.

(Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas)