Paradoxo de Epicuro

Também conhecido como “problema do mal”, esse raciocínio simplesmente elimina a possibilidade de sustentar certas crenças. Gente até bem-intencionada já produziu muito papo furado ao longo de séculos, tentando refutar este raciocínio, mas de Guernica a Auschwitz, de Ruanda ao Haiti, da Síria ao Afeganistão, o interminável suplício de inocentes estabelece dolorosamente: nao tem ninguém lá. Ou tem alguém que não está nem aí, o que eu acho até pior. Ou alguém que acha tudo isso o máximo (pior ainda). Prefiro conviver com o vazio e com a realidade de que estamos por conta própria. E se você é dos que acham que Ele atende sua oração pra trocar de carro ou sarar da gastrite mas não atende a das crianças que morreram de inanição durante o cerco de Alepo, poupe seus dedos. Você não vai conseguir me convencer de coisa tão abominável. 

Saiba

O açúcar

O branco açúcar que adoçará meu café
nesta manhã de Ipanema
não foi produzido por mim
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.

Vejo-o puro
e afável ao paladar
como beijo de moça, água
na pele, flor
que se dissolve na boca. Mas este açúcar
não foi feito por mim.

Este açúcar veio
da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira, dono da mercearia.
Este açúcar veio
de uma usina de açúcar em Pernambuco
ou no Estado do Rio
e tampouco o fez o dono da usina.

Este açúcar era cana
e veio dos canaviais extensos
que não nascem por acaso
no regaço do vale.

Em lugares distantes, onde não há hospital
nem escola,
homens que não sabem ler e morrem de fome
aos 27 anos
plantaram e colheram a cana
que viraria açúcar.

Em usinas escuras,
homens de vida amarga
e dura
produziram este açúcar
branco e puro
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.

(Ferreira Gullar, “Toda Poesia”. 11ª edição, Rio de Janeiro: José Olympio, 2001, p. 165-166)

Saiba de onde as coisas vêm. Não tenha nada, não use nada, não queira nada, sem saber de onde aquilo vem. Não rejeite nada, não condene nada, não abomine nada, sem saber quantas coisas das que você preza existem somente por causa daquilo, porque dependeram daquilo para existir.

De que infernal manufatura num distante arrabalde da China veio o colorido brinquedo com que presenteia seus filhos, você sabe? De que maltrapilha roda de degredados e malquistos boêmios veio a poesia, a música, a arte que o encantam, você sabe? De seu mundo que se crê ordenado e delimitado, quanto há que teve de ser pilhado e arrancado àqueles que nele não têm lugar (e para os quais você não daria nele lugar), você sabe?

Você quer saber?

Como pode, tão seguro de si, ó quem tão pouco sabe, quem tanto insiste em ignorar? Está tudo bem para você, talvez, porque nunca vivemos tempos tão justos, tempos tão certos, tempos tão dignos de serem conservados, ó senhor conservador?

Mas não ! Só uma estreita e reluzente casta goza na Cidade os gozos especiais que ela cria. O resto, a escura, imensa plebe, só nela sofre, e com sofrimentos especiais que só nela existem! Deste terraço, junto a esta rica Basílica consagrada ao Coração que amou o Pobre e pôr ele sangrou, bem avistamos nós o lôbrego casario onde a plebe se curva sob esse antigo opróbrio de que nem Religiões, nem Filosofias, nem Morais, nem a sua própria força brutal a poderão jamais libertar! Aí jaz, espalhada pela Cidade, como esterco vil que fecunda a cidade. Os séculos rolam; e sempre imutáveis farrapos lhe cobrem o corpo, e sempre debaixo deles, através do longo dia, os homens labutarão e as mulheres chorarão. E com este labor e este pranto dos pobres, meu Príncipe, se edifica a abundância da Cidade! Ei-la agora coberta de moradas em que eles se não abrigam; armazenada de estofos, com que eles se não agasalham; abarrotada de alimentos, com que eles se não saciam! Para eles só a neve, quando a neve cai, e entorpece e sepulta as criancinhas aninhadas pelos bancos das praças ou sob os arcos das pontes de Paris… A neve cai, muda e branca na treva; as criancinhas gelam nos seus trapos; e a polícia, em torno, ronda atenta para que não seja perturbado o tépido sono daqueles que amam a neve, para patinar nos lagos do Bosque de Bolonha com peliças de três mil francos. Mas quê, meu Jacinto! a tua Civilização reclama insaciavelmente regalos e pompas, que só obterá, nesta amarga desarmonia social, se o Capital der Trabalho, pôr cada arquejante esforço, uma migalha ratinhada. Irremediável, é, pois, que incessantemente a plebe sirva, a plebe pene! A sua esfalfada miséria é a condição do esplendor sereno da Cidade. Se nas suas tigelas fumegasse a justa ração de caldo – não poderia aparecer nas baixelas de prata a luxuosa porção de foie-gras e túbaras que são o orgulho da Civilização. Há andrajos em trapeiras – para que as belas Madamas de Oriol, resplandecentes de sedas e rendas, subam em doce ondulação, a escadaria da Ópera. Há mãos regeladas que se estendem e beiços sumidos que agradecem o dom magnânimo dum sou – para que os Efrains tenham dez milhões no Banco de França, se aqueçam à chama rica da lenha aromática, e surtam de colares de safiras as suas concubinas, netas dos duques de Atenas. E um povo chora de fome, e da fome dos seus pequeninos – para que os Jacintos, em Janeiro, debiquem, bocejando, sobre pratos de Saxe, morangos gelados em Champanhe e avivados dum fio de éter!

– E eu comi dos teus morangos, Jacinto! Miseráveis, tu e eu!

(Eça de Queirós. A cidade e as serras. São Paulo : Ática.)

Grande Sertão: Veredas

Com que, então, finalmente li o grande livro de Guimarães Rosa. Grande, grandioso, em todos os sentidos e direções. Como é que cheguei a esta altura da vida sem nunca tê-lo lido é que me escapa. Mas não me queixo: quase certo de que não teria antes maturidade para entendê-lo, apreciá-lo e senti-lo. Caso não o tenha lido e deseje fazê-lo sem saber mais de sua história, não prossiga na leitura. Como dizem os jovens: spoiler alert! E não se demore, vá buscá-lo e lê-lo, é fácil de encontrar, inclusive na internet.

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Beleza

Às vezes, num mundo tão duro e tão cheio de tristezas, somos realmente obrigados, por nossa mente cansada, a encontrar um ponto de apoio, um farol, algo que, ainda que não justifique por si próprio a existência, nos forneça um sentido capaz de nos prender um pouco mais firmemente a esse caminho tão estranho, que percorremos sem o ver e sem saber aonde nos leva.

A Beleza, para mim, pode às vezes cumprir esse papel, por isso a estimo profundamente sempre que a encontro. Ela pode vir dos mais diversos lugares e das mais diversas formas, surpreendendo-nos na luz estranha que a uma certa hora, por alguns instantes, atravessa frestas fortuitas entre edifícios e empresta certa graça a uma cidade feia; ou na silhueta graciosa de alguém com quem cruzamos rapidamente numa esquina e contemplamos apenas tempo suficiente para, sem saber quem é, de onde vem ou para onde vai, apenas pressentir que, ali e naquela hora, é feliz; ou no olhar de surpresa seguido pelo calmo cair em silêncio de quem subitamente descobriu que de nada vale discutir, objetar, contra o curso da história ou contra a estupidez universal; ou no semblante da pessoa amada que, em meio a um sono agitado, subitamente se acalma e repousa. São muitas possibilidades incomuns, é preciso estar-se atento.

E, claro, ela frequenta, embora não sempre tão assídua, as manifestações da Arte. Das artes, tantas quantas possam existir. Compartilho uma delas, que me enlevou pelos minutos todos que a execução leva: a interpretação, transcendente, de Hélène Grimaud (1969-), da transcrição para piano de Ferrucio Busoni (1866-1924) da Chaconne da Partita para Violino nº 2, em Ré menor, índice BWV 1004, de Johann Sebastian Bach (1685-1750).

Escapando da rede

Vivi a maior parte de minha vida entre computadores, o meu primeiro tendo sido um PC-XT com unidade de disco rígido de 30 MB, unidade de disco flexível de 5¼″ (cinco polegadas e um quarto), processador Intel de 4,77 MHz de velocidade, ou “clock”, como se dizia na época. Como hoje a velocidade dos processadores é medida no próximo patamar de grandeza, convertamos para constatar que isso equivale a 0,0047 MHz. Sim, há cerca de 25 anos os computadores tinha processadores mil vezes mais lentos que os atuais.

Mas funcionavam. E de uma forma que, de certo modo, deixa saudades. Quando você o ligava, depois de cerca de um minuto de exibição de mensagens herméticas do sistema operacional, tudo que você recebia era uma hermética tela preta, e num canto da tela o seguinte:

 

C:>_

Só havia o teclado, e nele você precisava digitar o nome dos programas que queria executar. Era necessário conhecê-los pelo nome próprio, mas isso era fácil, porque eles nunca tinham mais que 8 caracteres que, ou eram letras de A a Z, ou números de 1 a 9. E nada mais. WS, CARTA, 123, DBASE… Saudades de vocês, passamos juntos tempos bons…

E só se podia executar um programa de cada vez: abria-se um programa, fazia-se seu trabalho com ele, gravavam-se seus arquivos, fechava-se o programa, voltava-se para o “C:>” e chamava-se o próximo.

E, finalmente, você estava a sós com a máquina, e com os duendes de software que moravam dentro dela. Se quisesse que outra pessoa visse o que você fez, tinha-se que imprimir em papel (em geral em ruidosas máquinas matriciais que usavam formulário contínuo de bordas perfuradas) ou gravar nos discos flexíveis, envelopes de plástico preto contendo uma mídia magnética da espessura de um filme fotográfico, com capacidade de 360 KB. Melindrosos, perdia-se o que continham expondo-os ao calor (sendo pretos, bastava esquecê-los no sol por alguns minutos), ou aos perigosíssimos ímãs escondidos por trás de todo alto-falante.

Houve computadores ainda mais antigos, sem disco rígido e dependentes de gravadores de fitas cassette (francês para “caixinha”, e que nós falantes de português apelidamos de K7) , mas este foi o primeiro que desembarcou no meu quarto, tendo custado o preço de um carro usado, e que de minha casa só eu, aos 12 anos, tinha, alguma ideia de como dirigir.

Todas essas reminiscências me vieram à mente depois de decidir que já não me sinto mais tão à vontade com esses entes de corpo de cobre e silício e alma de eletricidade…

Não por culpa deles, coitados. Continuam sendo engenhos excelentes, e por baixo de todas as cores, sons e o que mais houver, ainda são feitos das mesmas pulsações de “ligado” e “desligado”, que, pulsando em grupos de oito (os famosos bytes), representam os números 0 a 255 e estes, por sua vez, tudo que existe.

Tudo que existe. Conte de 0 a 127 e caberão todos os caracteres necessários para escrever em inglês. Use as outras 128 posições e poderá utilizar acentos e alfabetos alternativos. Mande a economia às favas, e use dois ou três bytes de cada vez: 256 vezes 256 resulta em 65.536 possibilidades, vezes 256 e temos 16.777.216, bastantes para quase todos os caracteres fonéticos e ideográficos que há ou houve no mundo.

Os mesmos mais de 16 milhões são o número de cores que podem ser representadas em qualquer tela ordinária de nossos dias: nada mais que 256 níveis de vermelho vezes 256 níveis de verde vezes 256 níveis de azul. Vezes 1.920 pontos de largura, vezes 1.080 pontos de altura, e temos uma fantástica imagem capaz de encher a tela de um televisor Full HD. Vezes 24 quadros, e temos um segundo de video. Vezes 86.400 segundos, e temos um dia de programação de TV digital. Sem contar o audio, que tem seus próprios números vezes números vezes números para nos tocar, em estéreo, a trilha de nossa vida eletrônica.

E agora perdi-me nas imensidões dos números que essas máquinas, hoje reduzirdas ao tamanho de maços de cigarro, podem manusear com precisão e pouco esforço em uma fração do tempo que eu gasto para me lembrar qual é o meu primeiro nome…

Dizia que não me sinto mais à vontade na companhia dessas máquinas, mas a culpa, como eu disse, não é delas. Não me sinto (muito) assombrado por seu poder de processamento e por sua engenhosidade. Sinto-me, contudo, acabrunhado pelo pouco que fomos capazes de fazer com tanto poder e tantos recursos.

É que transformamos essas máquinas maravilhosas em bestas de carga de toda nossa mediocridade. Invertemos os papéis, e em vez de procurar respostas para nossos problemas globais, fizemos com que as máquinas nos fizessem perguntas, e nunca nos preocupamos em como fornecer respostas decentes. Quando o Facebook me indaga “o que você está pensando?” ou o navegador Edge me inquire “para onde vamos agora?”, sinto-me aflito. Por mim, pelas minhas respostas, e pelas dos outros, já que também fizemos com que as máquinas se ligassem umas às outras, criando uma imensa matriz global de milhões de milhões de milhões bits correndo o mundo na velocidade da luz, por fios de cobre e ondas de rádio, saltando até as órbitas baixas dos satélites de telecomunicação, e mergulhando até o leito dos oceanos pelos cabos intercontinentais.

E nem estou falando das fotos e dos filmes de cães e gatos, das piadas fracas, do entretenimento barato e superficial. Falo do que dizemos de nós mesmos como espécie, quando as notícias de factóides protagonizados por subcelebridades circulam lado a lado com notícias que expõem tamanha barbárie, tamanha desumanidade, sem que a maior parte das pessoas se mostre afetada mais por esta do que por aquelas. E nesse instante caio de joelhos, vencido.

De modo que a rede social me venceu, não pelo cansaço, mas pelo desespero. Não estou farto, mas exausto. Tenho endossado petições digitais às pencas, e procurado aprender tudo que não sei, até onde sou capaz, e o limite está do meu lado, porque todo o conhecimento universal está disponível pela rede mundial de computadores. Tenho procurado repercutir a informação que acho mais relevante e necessária. Tenho resistido à tentação de trocar a compreensão e o diálogo pela troca de ofensas. Mas cheguei ao meu limite.

Estou me impondo, doravante, uma tentativa de abstinência. A rede social já não me parece mais um tecido que nos suporta, nos conecta e nos apresenta em padrões e estampas intrigantes e belas. Parece mais com uma tarrafa sinistra, com uma rede de pesca que nos arranca de nosso flutuar natural e nos aperta uns contra os outros, acotovelados, empilhados, enfardados. Assim justapostos e sobrepostos, não temos mais o mínimo espaço necessário para olhar para o outro e vê-lo inteiro em nosso olhar. Não vemos mais ao outro, aos outros, a nada. Só vemos do outro a pupila escura a refletir o vermelho das veias inchadas de nossos olhos. Não admira que não façamos outra coisa que entrarmos em conflito, em manifestar sarcasmo, angústia, aflição… Incomunicabilidade, enfim, sem perceber que ao mesmo tempo estamos a ser pescados, a sermos a presa de um sistema que se coloca numa posição distante e obscura, de onde nos faz sentirmo-nos impotentes sequer para compreendê-lo, quanto mais para mudar seu curso.

Percebo que é muito o mal que a conexão constante à rede social me tem feito, e que é insuficiente para compensá-lo o irrisório bem que, quando otimista, penso conseguir fazer pelo intermédio dela.

Tenho, como todos, um trabalho para fazer e uma vida para percorrer. E quero realizar a ambas as coisas sem perder de vista os outros seres humanos, meus companheiros de esforço e jornada. E para isso quero vê-los, e para vê-los preciso me afastar um ou dois passos, a distância necessária para tê-los em perspectiva suficiente, para ouvir a sua voz, e para compreender o que seu rosto e seus olhos dizem. Quero voltar a me sentir o dia todo um ser humano, vivo e pulsante, sem esses momentos de bizarra conexão a um mundo invertido, em que as máquinas fazem perguntas e as pessoas não conseguem respondem senão com a frieza de máquinas.

Máquinas são ótimas, são bons brinquedos, e excelentes ferramentas. Mas não podemos nos deixar aprisionar por elas. E eu? Achei um buraco na rede, vou esgueirar-me por ele e escapar. Com licença.

Chove na Madrugada

Gosto quando, insone, ouço irromper a chuvarada no meio da madrugada. Sinto como que um véu de conforto cair por entre os edifícios altos, como se estes, puxando uma cortina, pudessem finalmente repousar do estorvo de se contemplarem uns aos outros contra a vontade, como pessoas num elevador lotado.
Gosto também da impressão de que as águas hão de carregar para longe tudo o que suja as ruas, e é com prazer que no dia seguinte, a caminho do trabalho, deixo de sentir o odor da putrefação de detritos vários, acelerada pelo asfalto aquecido pelo sol, que maldigo injustamente, esquecido de que a pobre estrela não tem culpa pelo hábito de um povo que se apraz em emporcalhar as próprias ruas.
Gosto, finalmente, dos clarões repentinos das descargas elétricas. Mas destes por nenhuma função que deles espere ou que fantasiosamente lhes atribua. É apenas porque a cada lume e estrondo me recordo que já me fizeram sentir medo um dia, e agora não mais os temo. Ah que coisa gloriosa não ter mais medo, que prazer revivido a cada constatação de que diante de coisas inofensivas não mais nos retraímos, que ao som de palavras vazias não mais trememos. Que hipóteses inverossímeis não mais nos assombram.
Cai, chuva, como um dossel que envolva em sono a torre em que habito, e a mim com ela. Lavai, águas, do chão as porcarias que se lhe atiraram. Cai, ó raio, sobre uma das muitas lanças que chucham as nuvens, e sê prontamente conduzido ao chão que te espera para arrefecer-te o ímpeto. Opera, natureza, os teus milagres naturais, que não são castigo nem recompensa, nem bem, nem mal.
Que é na paz desse universo cheio de existência e vazio de fantasmas que eu espero e desejo adormecer…

O teste do texto

Há tempos não escrevo nada aqui, o que faz com que o blog pareça abandonado. De fato, já não tenho o impulso de escrever coisas que tinha antes, frase esta que traduz uma linha que vem regularmente descendente desde aquele lugar no tempo e na memória que se costuma chamar de adolescência, quando escrevia furiosamente à caneta num bloco pautado de folhas amarelas, que depois se tornaram vários blocos pautados de folhas amarelas, que eu não tenho certeza de por onde andam nem se ainda existem…
Acho que isto acontece porque à medida que envelhecemos, fazemos mais e mais a pergunta “de quê isto serve?”. Ou não, talvez a pergunta sempre a façamos, a resposta é que passamos a dar de uma perspectiva menos otimista, mais cética e até mais cínica, às vezes.
Mas estou percebendo que é necessário fazê-lo de quando em quando, ao menos para que não perca a prática de expressar-me usando o vernáculo, que tanto custou para ser aprendido. Mentira, que isso não custou nada. Quando jovens aprendemos sem esforço, a mente como que à espera de ser preenchida com noções. Gostaria de ter sabido isso antes, pois tentaria aprender outras coisas, e deixaria de gastar espaço com coisas que hoje me são inúteis – quando não pequenos tormentos, tais quais bugigangas que caem dos armários sobre a nossa cabeça quando os abrimos, assustando-nos, e no entanto não nos pertencem, ao menos não a ponto de podermos jogá-las fora.
Mas tenho entre os rascunhos não publicados deste blog vários escritos que não passaram no teste do texto, um crivo de critérios obscuros cuja medida, eu suponho, é uma função do quanto eu imagino que haverá de interesse alheio naquelas ideias, e do quanto eu imagino que possa me arrepender de tê-lo publicado. Isto principalmente porque cada vez mais me sinto capaz de mudar de opinião – o que em si mesmo é bom – mas consequentemente menos certeza tenho de, ao passar do tempo, continuar pensando tudo que pensava da mesma maneira – e escrever o que se pensa cristaliza em palavras uma determinada maneira.
Em resumo, eu devo continuar publicando algo, de quando em quando. Mas não tenho como assegurar nem regularidade nem relevância. Asseguro apenas que continuarão sendo minhas impressões, as que valerem no momento em que tornadas texto.

Engano e autoengano

Sou, confesso, um grande leitor de orelha. Ainda que compre parte dos livros cujas orelhas limito-me a ler. Alguns deles, há tempos esquecidos na prateleira, voltam à minha lista de pretensas leituras futuras, quando a vida me faz tropeçar – de novo – em seus assuntos. Este é um deles:

Este é um livro sobre as mentiras que contamos a nós mesmos. Mentimos para nós o tempo todo: adiantamos o despertador para não perder a hora, acreditamos nas juras da pessoa amada, só levamos realmente a sério os argumentos que sustentam nossas crenças. Além disso, temos a nosso próprio respeito uma opinião que quase nunca coincide com a extensão de nossos defeitos e qualidades. Sem o auto-engano, a vida seria excessivamente dolorosa e desprovida de encanto. Abandonados a ele, entretanto, perdemos a dimensão que nos reúne às outras pessoas e possibilita a convivência social. O problema é que as mentiras que nos contamos não trazem seu nome verdadeiro estampado na fronte. É preciso, por isso, analisar os caminhos que nos levam até elas: encontraremos aí a origem de grandes conquistas e alegrias, mas também dos sofrimentos que muitas vezes causamos a nós mesmos e às pessoas que nos cercam.

Sei que o tenho, de um tempo em que estava preocupado em estar fazendo isto comigo mesmo. O que obviamente era verdade. Embora uma passada de olhos na estante não me tenha favorecido nesse instante, sei que o encontrarei. Agora, antes mesmo de ler esse livro, tenho minhas próprias impressões sobre o assunto, claro.

Delas faz parte crer que as pessoas não enganam a si mesmas apenas pela vontade própria de alienarem-se de uma dada realidade, ou de se darem uma dimensão mais segura e palatável de si mesmas.

Vejo que muitas pessoas almejam primordialmente enganar os outros. Contam mentiras e omitem verdades para viabilizar uma situação, em face das expectativas alheias, que acreditam insustentável no caso de se transmitir amplo conhecimento de um certo número de fatos. Presumem – com ou sem razão – tais expectativas dos outros, e alijam a verdade dos fatos para caber nelas. Até aí, nada de novo; o ser humano é tediosamente repetitivo nessa pretensão. Suas possíveis motivações, nesse caso, são legião, algumas até convincentes, pela nobreza do propósito ou pela inexigibilidade de outro agir, ou ainda perdoáveis, pela banalidade do gesto ou da situação.

O que talvez não passe por tão evidente é que aquele que pretende enganar a outrem, antes e quase sempre, engana a si mesmo.

Talvez seja uma limitação das capacidades semióticas de cada um… Se falo a verdade, sei do fato (referente), falo do fato (significo-o) e espero do outro o alcance do significado que tenho em mente, do modo mais próximo possível. Singnificar e ressignificar são trabalhos mentais, eu faço o meu, a pessoa com quem falo faz o dela, minhas habilidades comunicativas e as habilidades compreensivas do outro vão dizer o quão próximas nossas idéias serão. A unir tais idéias, e a nós, está apenas o fato nu, aquilo que aconteceu.

Se minto, omito o fato (que aconteceu) e significo o não-fato (coisa diversa do que aconteceu). Para significar e expressar o não fato, preciso tratá-lo como fato. Preciso imaginar o que não aconteceu como se acontecido fosse, para enxergar as características que teria, e que direi a outrem que efetivamente tem. Obviamente que engendrar uma situação ficcional, com todas as características significativas que possam ser exigidas por quem pretendo convencer que tal ficção é real, é peça complexa de literatura e arte, que consumirá, provavelmente, muito mais esforço e energia do mentiroso do que simplesmente descrever o objeto verdadeiro que tem diante de si, e lidar com suas consequências.

O primeiro autoengano a que se submete quem pretende enganar os outros é subestimar o custo desse esforço. O esforço de imaginar, do modo mais realista possível, como seria aquilo que se pretende comunicar, se de fato tivesse acontecido. O esforço adicional de dissimular todos os indícios do que de fato aconteceu. O esforço de manter em mente uma lista de coincidências e divergências entre fato e não-fato, à qual precisa referir-se durante todo o tempo em que precisar manter a comunicação do nã0-fato. Só não digo ser desumano tal esforço, dada a frequência com que os humanos o empreendem.

O segundo autoengano vem de manter a ilusão do controle sobre a realidade. Vem de supor que aqueles a quem se pretende enganar ficarão restritos àquela camada da realidade cuidadosamente editada pelo enganador. Ou seja, que jamais serão apresentados ao fato omitido, seja pela ação intencional de outrem, seja pelo acaso de tropeçarem nele. O enganador, aqui, tem a pretensão de tornar-se carcereiro do outro, que, antes do engano, era livre para circular por todo o real sensível do universo, e agora – pela intenção do enganador – precisa ser mantido dentro de um território artificial e delimitado. A triste ilusão do enganador é a de que tem poder para fazer isso, para segmentar o universo, para deter a todos os demais. Embora até possa, em certos casos, sustentar essa prestidigitação por algum tempo, cedo ou tarde as insistentes ondas da vida submergirão essas muralhas de castelo de areia.

E como se não bastassem essas duas coisas, em terceiro lugar engana-se aquele que, chegando a pensar sobre as duas coisas anteriores, e vindo a meditar sobre o custo e sobre a finitude de sua farsa, chegue a supor que sua motivação inicial, aquela que o levou a cometer o embuste, será levada em consideração pelas pessoas quando se virem ultrajadas pelo engano. Mas não, não haverá contingência, nem nobreza de intenção, nem banal trivialidade que cheguem para pesar em sua desculpa. Porque ao enganado enfurece justamente, e a par de todas as consequências óbvias do engano, essa privação que experimentou na liberdade de agir conforme o que lhe pareceria adequado, consequência de outra privação, a de apreender o mundo sem filtros e na totalidade, de manter contato livre com a totalidade do universo.

Se o enganador estiver ao alcance do enganado quando do desbaratamento de sua farsa, não poderá esperar ser poupado da mágoa que surgir. Nessas situações, quando entre indivíduos, às vezes impera, porém, a grandeza do perdão, dentre outros mecanismos psicológicos de pacificação. Quando o engano é coletivo, contudo, diversamente reagem as massas, e o que vemos são as furiosas liberações de energia cega que a história nos descreve em cada evento de queda violenta de um regime ou de uma crença.

De qualquer forma, o enganador, que lançou mão de um poder a que não faz jus, tem sempre pendente sobre si a espada de Dâmocles. Ao tolher a liberdade alheia, renuncia igualmente à sua própria. Ao restringir o mundo do outro, cerca o seu próprio caminho de armadilhas.

Há na bíblia por volta de meia dúzia de passagens que me encantam, no meio de tudo aquilo e ao largo da fé que não tenho. Do sermão do lago (Lc 6), ao “no princípio era o verbo” (Jo 1), até esta magnífica conclusão de uma frase que merece ser tirada de seu contexto, e, pela qual, por tudo que foi dito acima, vale a pena pautar a vida: “e a verdade vos fará livres” (Jo 8:36).

Ainda tento

Periodicamente, ainda tento escrever algo, mas não acho fácil. A mente tem muitas palavras que surgem, passam fugazmente pela consciência e desaparecem sabe-se lá onde. Nessa passagem repentina, quais escolher. O que dizer?

Olho para o mundo, para as pessoas, para suas criações e destruições, e vejo tantas coisas que despertam meus impulsos de crítica, que o cansaço toma conta de mim antes mesmo de eu começar.

Olho para dentro de mim, e vejo sempre mais descrenças do que crenças, sempre mais dúvidas do que certezas, de modo que me é difícil articular sobre isso.

Mas algo me ocorre agora, talvez seja válido exprimi-lo. Até por ser algo positivo. Que esse cenário interno a que me referi – “sempre mais descrenças do que crenças, sempre mais dúvidas do que certezas” – não me aflige como poderia parecer. Por clichê que se tenha tornado o socrático “só sei que nada sei”, existe um caminho de paz por meio dele… Acho que o encontro sempre quando o amontoado de dúvidas e possibilidades pesa tanto sobre si mesmo que forma uma superfície sólida o suficiente para nela caminhar quando preciso, e repousar quando possível.

É possível ficar em paz com o sentimento de que sabemos muitas coisas, e ignoramos muitas mais, quando realmente, no fundo da alma, e não apenas enunciando um juízo racional, dispensamo-nos do vir-a-saber tudo o que ignoramos. Deixamos de lutar contra nossa própria ignorância e simplesmente paramos e abrimos as janelas da alma, para que entre a luz que cada dia queira nos oferecer. E nós a teremos, observando essas janelas abertas: dura, crispada e calcinante nos dias de céu limpo, ou diáfana e difusa, nos dias nublados. Mas não a teremos nunca, como poderíamos sonhar, iluminando ali onde nossas próprias paredes se fecham sobre si mesmas, criando recintos de eterna penumbra, onde a pouca luz que chegar virá exausta, um resto de si mesma, depois de esbater-se refletida em tantas superfícies casualmente dispostas.

O que não enxergamos fora de nós está entre nossos olhos e nossos obstáculos. O que não enxergamos dentro de nós está entre nossos obstáculos e a luz. Remover as anteparas que toldam, que obscurecem, é, sim, a tarefa do dia, quando esse não ver, não saber, estiver a por-nos em perigo ou aflição.

Mas às vezes, pode ser também, que valha mais aceitar a incompletude do horizonte, e a existência de espaços escuros entre nós. Para que possamos nos abrigar sob o teto de nós mesmos, para que possamos nos aconchegar entre nossas próprias paredes, e contemplar as paisagens das janelas que escolhemos abrir.

… e nada me faltará…

Exceto, claro, a vida. O bater do coração, o pulsar da mente, o (nem sempre) silencioso labor de todos os órgãos e tecidos, fazendo e desfazendo, a cada segundo.

Tudo isto falta-nos ao morrermos, e mais. Estamos findos, história contada e encerrada. Sujeita a revisitas e revisões, claro, mas contada. Sem páginas em branco ainda por preencher, sem a surpresa de próximos capítulos.

Finda a parceria de todos os elementos que se reuniram fortuitamente para constituir-nos, estão todos livres, quantidades de matéria e de energia, para irem compor outros agregados, fazer outras histórias, cristalizar em outras joias, ou fluir em outras torrentes, ou desvanecer-se em outros vapores.

Restarão, sim, as consequências, sobre o que ficou, daquilo que foi feito por aqueles que éramos nós, as decorrências, as marcas, as lembranças de outros, até que estes se desagreguem também. Até que tudo reste indistinguível, no meio dos novos seres.

Por que, já não fomos, também nós, novos seres? E, ainda assim, feitos de pedaços de coisas muito antigas, fomos, desde o início, consequências de consequências de consequências de que jamais teremos ciência ou notícia.

Imortal é aquilo de que somos feitos. Imortal é o palco em que encenamos nossas histórias. Imortal é a trama do tempo que nos enreda, que se desenrola à nossa volta, que nos atira longe, qual pedra pela funda que gira. Imortal é a tessitura do universo em que existimos, que é feita de nós e de tudo o mais que existe, e ao mesmo tempo segue indiferente a cada uma dessas coisas, que surgem e se desfazem continuamente.

Não existe, para mim, fórmula a ser recitada, alma a ser encomendada a divindades que precisem ser apaziguadas ou aliciadas por um bom repouso eterno, por um bom retorno à existência, ou o que quer que seja.

Existe, sim, claro, o sofrimento de quem fica e se ressente da falta, porque vive, e ama a vida, e ama-a na vida do outro, e sabe que aquele que era – por mais histórias diversas que se possa contar a si mesmo e aos outros – não é mais. Porque o que é real em cada um sabe sempre da realidade de todo o resto, com um saber profundo e silencioso, que não cabe em palavras.

Esse sofrimento é real, existe, e deve ser honrado, acolhido, respeitado.

O pranto da vida, diante da morte, é a chama da vida em tudo o que vive, e pulsa, e deseja, e procede no sentido de que haja vida. Onde nunca houve vida. Onde já houve vida, mas já não há. Onde ainda há, mesmo muita, que se pode transformar.

A vida não pode vencer a morte. Não pode se apegar a si mesma. Não adianta. Mas a morte não pode vencer a vida, não pode suprimir isso que pulsa, em cada fibra e em cada horizonte do universo, que anela por existir e acender sua chama.

Que todo aquele que vive respeite e aceite a morte, mas honre antes de tudo a vida, pelo que pode escolher naquilo que constitui seu agir e não agir, naquilo tudo que sua vida faz pulsar, mudar, existir e cessar no mundo. Que essa seja sua oração, sua fé, seu rito.

E nada lhe faltará.

Ausente

Ausente deste blog, não sem sentimento de culpa, estou por aí. Muito trabalho toma-me o tempo, muito calor toma-me a disposição. Em meu entorno, o mundo gira (“e a Lusitana roda”) e coisas seguem acontecendo, boas e ruins, certamente, meu olhar distímico enfatizando as ruins, para meu próprio desespero. Impressões sobre elas? Tenho-as, claro, mas nada que por tão extraordinário valha a pena compartilhar. E tento praticar o filtro contra impressões de que a negatividade seja o traço dominante.

Sobre rolezinhos: shopping-centers são espaços públicos encerrados em prédios, com um limite prático de lotação além do qual torna-se impossível proteger as pessoas que nele circulam e os bens que nele se vendem das ações ilegais e danosas de um grupo de, digamos, dez malfeitores, ainda que as outras duas mil pessoas sejam perfeitamente bem-intencionadas. Isto dito, o bom senso ordenaria que os proprietários dos shoppings e as pessoas que desejam frequentá-los negociassem em torno de uma limitação para a dimensão dos encontros coletivos, em prol da segurança e do bem-estar de todos. Só isso. Todo o resto é fascismo, preconceito racial e social, histeria coletiva e pretexto para comunicadores sem-noção ficarem propagando bobagens.

Sobre o beijo (recuso-me a rotulá-lo): foi bonito, apesar de mais comedido que a média dos beijos novelísticos. Na minha rua houve gritaria comemorativa como se um time popular houvesse marcado um gol. Achei bonito, achei necessário, fiquei feliz.

Hmm, que mais? Descobri uma peça bonita que não conhecia, o Concerto para Harpa em Lá maior, de Karl Ditters von Dittersdorf:

Enfim, por enquanto é isso.

Nome

Desde criança, sempre tive pavor de ser chamado por apelidos. As pessoas da família, com sua seriedade habitual, usavam meu nome. Fora de lá, sempre intuí – não era preciso muita sensibilidade, aliás – a derrisão inerente ao uso de apelidos pelas outras crianças, entre si tanto quanto em relação a mim.
Depois, em tempos de veleidades esquerdistas juvenis, cheguei a achar bonito o tratar-se por “companheiro” ou “camarada” que fazia parte da caracterização dos partidários dessa ideologia. Isso antes de perceber que, como caracterização, tratava-se no mais das vezes de um trejeito, de um disfarce, de uma afetação superficial fria, muito mais que uma alusão ao cordial significado subjacente a essas palavras.
Mais adiante, percebi ainda que o trejeito convinha bem a uma visão totalitária que recusa à pessoa o estatuto de indivíduo, em troca do de peça – repetida, facilmente substituível e insignificante em si mesma – componente da maquinaria acachapante de um Todo, e que nesse horizonte os extremos ideológicos se tocam e flertam, todos, com o desrespeito e com a violência autoritária.
Também foi preciso amadurecer para perceber a tolice do envaidecimento decorrente do uso de títulos – acadêmicos, profissionais, honoríficos – já que as pessoas, ao empregá-los, o fazem nunca por deferência em relação ao titulado, mas por conveniência igual à do jogador, seja de baralho, que chama a carta de carta, seja de damas, que chama a pedra de pedra, seja de xadrez, que chama a peça de rei, torre ou bispo apenas em reconhecimento do que a peça pode fazer no jogo. Pantomima, enfim; fardo que se aceita apenas, e finalmente, com um quê de derrota, em função da inutilidade do esforço de evitá-lo, percebida depois de umas tantas tentativas frustradas.
Não, depois de todos esses anos sigo, no fundo, alérgico a apelidos, títulos, epítetos, alcunhas, pronomes de tratamento e quejandos. Gosto de chamar as pessoas pelo nome, homenageando o fato de que ali há um indivíduo, com uma história de vida que começou antes do encontro e continuará depois dele.
E se não posso impor que me tratem assim – quem pode de fato impor algo a outrem e, se pudesse, de que valeria o imposto? – não deixo de envaidecer-me pelo uso puro e simples de meu nome, que tem para mim a profundeza mítica de um namastê, e diz, parafraseando a saudação indiana, “o indivíduo em mim saúda o indivíduo em você”.

Pacificação

Há palavras que trazem contradição dentro de si, ou parecem trazê-la conforme a perspectiva. Como não gosto tanto assim de contradições, nunca gostei muito da palavra “pacificar”…
Não sei muito de latim, mas sei que os sufixos “-fício”, “-ficar”, etc., correspondem a “fazer”, por isso benéfico é o que faz o bem, e panificador é quem faz pão, retificar é tornar reto, e assim por diante. Alguém faz algo. Algo é feito por alguém.
Daí que não consigo entender como se “faz” a paz… Talvez porque entenda paz como algo que surge do não fazer, do deixar estar, quieto e livre para encontrar o ponto de repouso, ou pelo menos o caminho do fluxo com a menor resistência possível. Paz viva.
Assim, pode-se, se é que não se deva, cultivar as condições tranquilas nas quais a paz gradualmente se estabeleça… Agora “fazer” paz me parece, às vezes, estranho, quando começo a pensar numa ação forçosa para obtê-la, e penso em processos esterilizadores, exterminadores do indesejável que se move. Penso em dedetizadoras e desratizações. Vá lá que se consiga alguma paz deste modo, mas a conotação é-me toda negativa, de calma feita à força, imposta de fora, por um processo muitas vezes tudo menos plácido. Paz morta.
Não me agrada. Mas talvez sejam caraminholas minhas, inquietudes de uma mente que não posso – nem quero – “pacificar”…

E se nada mais tenho dito, é porque o que tenho tido a dizer não passa nos crivos autoimpostos neste blog, desde seu início. Não é que tenha me tornado mais um arenque pescado pela rede social. Não é que tenha desistido, coisa que, de resto, não faria sentido, já que nunca insisti nem consisti nem assisti nem resisti nem persisti, para começar. Vejo-me mais como barco que vai aonde o vento leva, e minhas palavras como conteúdo de uma garrafa que irá ter à praia que as ondas escolherem. Daí que há trechos de calmarias onde nada parece haver de novo no horizonte, entre o céu e o fundo do mar. E daí que há mensagens que não vale a pena atirar às águas. Encontradas e lidas, mais confundiriam do que explicariam. E, bem, quando temos grande dúvida de que nossas palavras possam ser melhores que o silêncio, melhor preferir este e renunciar àquelas. Se não existe liberdade que não pressuponha escolha, tampouco parece haver escolha que não implique renúncia. Assim que renunciar a dizer algo pode ser, enfim, uma afirmação tácita de liberdade.

Inferno

É o título do livro que acabo de ler, mais um “thriller” da série de livros de Dan Brown cujo protagonista é o professor Robert Langdon.

Claro, é um livro comercial e nele se encontrarão todos os defeitos que os críticos de livros comerciais gostam de apontar. Eu geralmente me inclino a saltar por cima desses defeitos, quando se trata, como é o caso, de uma história de suspense muito bem elaborada, que prende realmente a atenção.

Foi, devo admitir, um pouco difícil de relevar aquele que deve saltar aos olhos de quem, como eu, já leu os outros livros dessa mesma série, que é haver um sensível padrão de semelhança, em todos eles, em relação aos papéis dos personagens e às etapas do enredo. Como se, de alguma maneira, cada livro revisitasse sempre a mesma linha narrativa, embora com alteração nas cidades, nos monumentos e nos nomes dois demais personagens que circundam o professor Langdon.

Mas esse é um problema que não afetará os leitores que tiverem  esse, ou qualquer outro dos livros da série, como sua primeira leitura desse autor. A sensação de “déjà vu” começa a vir depois do segundo ou terceiro livro.

Agora, não sei se isso é realmente um defeito, em se tratando de um livro que é parte de uma série de ficção, já que o pressuposto das séries ficcionais, sejam elas de TV, de cinema ou de literatura, é que encontraremos personagens com os quais já estamos familiarizados, diante de situações cujo enfrentamento se dá de uma maneira característica que é justamente o que atrai os apreciadores de cada uma dessas séries. Os fãs de MacGyver talvez se decepcionassem com o personagem se ele abrisse mão da gambiarra com arame e SilverTape® como método de resolver todos os problemas mundiais.

Mas divago. O livro é interessante porque nos defronta com um problema ecológico mundial relevantíssimo, talvez “o problema ecológico mundial” por definição, o qual vislumbramos debilmente ao nos olhar no espelho pela manhã, mas intensamente ao nos metermos num congestionamento automotivo, num ônibus lotado ou numa feira de comércio popular, aqui ou em qualquer outro lugar do mundo. Somos muitos… Somos tantos, que talvez sejamos demais. E, enquanto a história se desata ao longo das páginas, podemos experimentar nossas próprias impressões e reações diante dessa humanidade, que ora nos aparece como um monstro asfixiante de infinitas cabeças, braços e pés, pronto para nos pisotear, e ora nos aparece como uma teia de relações tênues e delicadas entre histórias de vida e de sentimentos individuais, ainda que multiplicadas à casa dos milhões.

“Que é o homem… para que vos ocupeis dele” (Salmos, 143:3)? “O homem é uma corda, atada entre o animal e o Além-do-homem – uma corda sobre um abismo. Perigosa travessia, perigoso a caminho, perigoso olhar para trás, perigoso arrepiar-se e parar.” (NIETZSCHE, Friedrich. “Assim Falou Zaratustra”). E, ainda assim, que é essa multiplicidade de seres surgidos nesta Terra, que não são nem bem animais, nem bem algo além destes? Que sentimentos nos suscita essa humanidade que nos inclui e nos estranha, às vezes ao mesmo tempo? Ora repulsa, como diante do germe patogênico que infesta o globo e adoenta o mundo natural, ora maravilhamento, como diante da Teia de Indra.

O mérito deste livro, então, está na perspicácia de seu autor em entretecer, no que poderia não passar de uma trama convencional de ficção e suspense policiais e científicos, pequenos estímulos, pequenas “iscas” de pensamento que, aceitas, nos conduzem a uma profunda reflexão acerca do que sabemos e sentimos sobre a experiência de se ser humano, enquanto indivíduo único e ao mesmo tempo apenas um dentre bilhões de exemplares de uma mesma espécie, e por ambas as perspectivas inteiramente sujeito aos ímpetos das vicissitudes da Natureza, ao mesmo tempo em que a influencia sem compreender nem controlar sua influência.

É evidente que a leitura fica recomendada, a quem tenha se sentido instigado por estas singelas considerações.

“Ergue os olhos”

Eu não sou exatamente um ingênuo. Bom, talvez um pouco, às vezes. Não faz mal: ganhei mais do que perdi, no fim das contas, em manter acesa uma chama de crença e idealismo, ou talvez mais humildemente, de esperança. Como a chama-piloto de um aquecedor a gás, ainda que pequena e tímida, ela precisa ser mantida acesa, quando precisarmos do fogo total de nossos corações em algum momento crucial de nossas vidas.

Sobre o texto que estou prestes a citar, e que data de 1940: eu sei que nada aconteceu assim, nem poderia, e que mais cinco anos de barbárie reduziram a cinzas a Europa, partes da Rússia, o Japão, partes da China, partes do Sudeste Asiático, e tantos outros recantos do mundo aonde as hostilidades reverberaram, e puseram o mundo de joelhos entre dois extremos ruins. Sei que um deles, o do lado dos EUA, não foi grato a Chaplin, doravante e sempre mais perseguido por suas idéias libertárias, até não ser mais capaz permanecer na América, a qual deixou em 1952.

Porém, em tempos como os atuais, em que estupores e boçais ameaçam sequestrar, mais uma vez, o debate da cidadania com discursos cheios de ódio e irracionalidade, em nome das crenças pequenas que tentam insuflar em sua busca insaciável por poder, textos como o que se segue são ar que ventila e ajuda a manter acesa essa chama de esperança, crença e gratidão. Gratidão porque o exemplo histórico ainda ressoa, e esses tiranetes da alma são – ainda e, queira o Destino, sempre – não mais insetos perto daqueles monstros cujo exemplo imitam, portanto incapazes de fazer tanto mal. Crença em que os seres humanos são capazes de mais e melhores coisas do que as que nos têm apresentado esses espécimes infelizes. Esperança de que, de algum lugar onde se encontram ocultos, alguns deles retornarão a tempo de provar isso, de uma vez por toda, em nome da liberdade e da dignidade de todos, sem preconceitos, sem discriminação, sem ódio…

Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, gentios… negros… brancos.

Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens… levantou no mundo as muralhas do ódio… e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem… um apelo à fraternidade universal… à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora… milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas… vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia… da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.

Soldados! Não vos entregueis a esses brutais… que vos desprezam… que vos escravizam… que arregimentam as vossas vidas… que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar… os que não se fazem amar e os inumanos!

Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, ms dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela… de faze-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo… um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!

Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!

Silêncio

A ausência de palavras novas neste espaço não reflete a falta delas em minha mente. Sugere, porém, estarem elas em tamanha desordem, que não as tenha podido filtrar e convocar segundo a justa forma, que é a que permite supor que qualquer coisa que eu venha a escrever tenha uma chance de ser compreendida por aqueles que a lerem.

Por sua vez, a confusão e a desordem têm lugar entre as coisas, freqüentemente, por se não juntarem coisas iguais e, sobretudo, não se separarem coisas diferentes. Diferentes como são, idéias e emoções têm se misturado dentro de minha cabeça para produzir uma avalanche de pensamentos cuja verbalização não só não tem utilidade alguma, como também carrega potenciais prejuízos.

Emoções fazem má companhia a idéias porque insistem em carimbar sobre cada uma delas seus juízos de apego ou desprezo, o que, em última análise, impede que tenhamos pensamento útil. Porque emoções não pensam, não raciocinam, não ponderam nem planejam. Por motivos de reflexo, instinto ou fúria, podem apegar-se ao que nos talvez nos conviesse cuidadosmente rejeitar, como podem desprezar o que talvez nos conviesse criteriosamente cultivar.

Emoções são fragmentos de uma tentativa inacabada, quiçá frustrada, da natureza, de forjar naquela animalidade simples e bem provada dos mamíferos, essas capacidades e aspirações – humanas? – à ideação do espaço e do tempo, à abstração e representação de conceitos… Coisas tais que somente aos deuses conviriam, talvez, porquanto em nós não funcionam bem.

Andamos pela vida cheios de impulsos e medo, não nos contentando em desejar e fruir do que nos atrai, mas buscando eternizar no futuro nossos desejos e fruições, assegurar a legitimidade e continuidade do que tomamos para nós, mesmo quando, como quase sempre, à custa, nossa mesma, ou dos demais seres. Não nos sossega conseguir fugir do que nos amedronta, não descansamos antes de encontrar brechas naquilo que tememos; ou, desiludidos dessa possibilidade, não resistimos a divinizar nossos temores, como leis universais do “não faça”, para então, não fazendo, não nos sentirmos mais fracos, e sim observantes zelosos.

Não, nossas emoções, de tudo quanto criado pela natureza, certamente não são os melhores exemplos. Talvez até sejam seus primeiros e únicos erros, aqueles que desiludiram a lavradora antes incansável de continuar com sua obra, deixando-a inacabada e entregue à deterioração, pela mão justamente dessas suas criaturas equivocadas. Por algum confim remoto do universo perambula a mãe universal, entregue a divagações, perguntando-se onde errou, conjeturando sobre a temeridade de abandonar formas comprovadas – veja o gato, composição admirável de funcionalidade e beleza – para tentar coisas estranhas e novas…

Não… Por nossas emoções, somos um mau passo da criação. Um surto de ambição desmedida. Um item que não se encaixa no todo. E que, conseqüentemente, força e distorce suas estruturas, pondo a perder o restante em sua volta. Causando sofrimento a cada passo – quando não naqueles mesmos que agem, ao menos naqueles que lhes sofrem as ações.

Amargas considerações, estas, sim, admito. Depois das quais devo dizer que não proponho aboli-las, suprimi-las ou condená-las, as emoções. E não apenas porque isto não é propriamente possível. Mas também porque não somos bons exemplos de animais sem elas, basta ver-nos o reflexo: frágeis, feios, desengonçados, disfuncionais – por que mais o tamanho e desesperado impulso em cobrir-nos de roupas? – tampouco nos haveríamos dignamente sem aquilo de que, uma vez dotados, nos diferencia do resto. Mas delas não pode ser – isso está claro – a mão no leme de nossas vidas.

O fato é que entre as cristas das ondas tempestuosas das emoções, memórias e valores que nos agitam, aparecem vales ocasionais por onde se pode enxergar o horizonte. Em meio ao movimento perpétuo do ciclone implacável de nossos impulsos, podemos às vezes perceber a existência de um centro quieto.

Pois é nesse lugar, onde as palavras calam, onde as raivas se perdem de sua motivação, onde os medos se perdem de seus fantasmas, que desejo nesse momento estar. Esquecido de mim mesmo, de minha humanidade, de minhas emoções que me fustigam. Mas a esse lugar, para quem não aprendeu os caminhos, não se chega senão por acidente. E nele não se fica, a menos que se fique muito quieto, plácido. E silencioso, pois que a avalancha espreita em seguida a qualquer vibração mais alta de nossas vozes.

Por isso, no silêncio me refugio, na esperança de que, no intervalo entre os rugidos ferozes dessa fome por tudo o que quero e não tenho, e dessa dor por tudo o que não quero e tenho, possa eu ouvir o som singelo e contínuo de todo o universo, a seguir seu curso, a girar em seu mancal, indiferente a mim, indiferente a todos, indiferente a si mesmo. E que, para ouvir e ver, eu me cale e me detenha. E que, uma a uma, todas as bocas falantes se calem, e todas as corridas desembestadas se detenham.

E, tendo todos nós nos calado, nesse silêncio possamos ouvir; e, tendo parado, no repouso possamos olhar e ver. E, tendo ouvido e visto, possamos saber o que fazer de nossas vidas afinal. E, sabendo, possamos, ainda silentes, ainda plácidos, pôr as mãos à obra e fazer – o que se espera de nós.

“…com toda…”

Dando continuidade à preocupação com a liberdade em perigo, segue coluna interessantíssima de Marcia Tiburi na edição nº 167 da Revista Cult:

Fascismo potencial

MARCIA TIBURI

Theodor Adorno publicou em 1950 um estudo psicossociológico com a intenção de abordar o que surgia naquela época como um novo tipo subjetivo. Hoje estamos acostumados com ele. A característica fundamental do que se chamou de “personalidade autoritária” era a combinação contraditória, num mesmo indivíduo, entre uma postura racional e idiossincrasias irracionais.

Na visão de Adorno, a pessoa marcada por esta personalidade seria um tipo individualista e independente enquanto teria, ao mesmo tempo, uma propensão fortíssima a se submeter à autoridade.

Naquele estudo, o objetivo era entender o que se chamou de tipo discriminatório. Queriam desvendar os motivos do avanço do ódio ao outro em escala social que teria levado ao nazismo alemão. Preocupavam-se com a mesma tendência nos EUA onde estavam exilados. O que chamaram de “fascismo potencial” seria uma característica de indivíduos que teriam se mimetizado às tendências antidemocráticas da sociedade.

Nessa formulação, o mais problemático seria entender o caráter antidemocrático comum em indivíduos cultos porque se conceberia a priori que a educação leva a uma compreensão não apenas racional, mas também “razoável” das condições sociais.

De onde viria a necessidade de submissão a um algoz, a um carrasco, a um líder paranóico, a uma tendência autoritária por parte de quem poderia entender estes mecanismos?

Essa questão, colocada durante os anos da Segunda Guerra Mundial e que explicou o contentamento de grande parte da população brasileira na época da ditadura militar, ainda é a nossa. Poderíamos explicar o ódio ao outro na forma do racismo, da homofobia, do machismo, do ódio ao “comunista”, pelo argumento da ignorância.

Mas não existe uma ligação direta entre o conhecimento como mera posse de informações eruditas e o senso ético. Vemos intelectuais fascistas agindo em diversos países mascarando pela pompa aristocrática do “conservadorismo”, o que muitas vezes não passa de ódio ao outro.

Poderíamos usar o estudo de Adorno para medir o nosso potencial fascista, ou seja, a nossa chance de submetermo-nos à força de uma tendência política ou moral preponderante apenas porque surge com mais força do que outras. Para entender por que tantos defendem aquilo que os oprime enquanto ao mesmo tempo são opressores. Para entender vítima que elogia o sistema, que odeia quem, parecendo mais vítima do que ela, denuncia a inverdade na qual ele se sustenta.

Ódio barato

Há um ódio barato vigente em nossa cultura. E ele é programado quando se dirige aos pobres, aos tachados de loucos, às prostitutas, aos travestis, aos grupos de adolescentes que se vestem de modo inusitado ou pertencem a uma tribo que não a das roupas de marcas sempre aceitas. Ódio barato porque é fácil de sentir e dirige-se a quem é marcado como descartável pelo sistema econômico.

Ele se refere à todos aqueles que não se encaixam no econômico sistema mental de explicações pré-estabelecidas ao qual o fascista serve. Daí que ele se realize com explicações econômicas e defenda-se com um lema bem barato, um primor do senso comum: as coisas são como são e não podem ser diferentes.

Por meio de um último exemplo relativo às ruas das grandes cidades, não será difícil entender como pessoas “de bem”, corretas pagadoras de impostos e obedientes às leis possam ser portadoras desse ódio barato. Ele aparece no mau-humor geral contra motociclistas que trabalham entregando documentos e pizzas nas cidades grandes. Quem critica este tipo de trabalhador em geral se serve dele.

Não é diferente o ódio crescente aos ciclistas por parte de uma população de “bons cidadãos” que olham o mundo no limite das carcaças de seus carros. Ao ocuparem a rua com outra alternativa do que a prescrita pela indústria da cultura automobilística, os motociclistas e ciclistas denunciam a burrice do sistema.

O fascista, que só conhece a si mesmo enquanto se confunde com o sistema, sente-se ferido narcisicamente pela imaginação dos outros que lhes denuncia a falsidade. Neste ponto, o fascista, descobrindo-se subjetivamente morto, avança em seu ódio e pode nos atropelar.

“A liberdade está…”

Queria dar continuidade ao meu texto anterior, mas tudo que encontrei até o momento foi o vídeo abaixo. Ele se baseia em inúmeros pontos que podem e devem ser discutidos, claro. Mas, em linhas gerais, aproxima-se do que penso.

“A liberdade está em perigo. Defenda-a com toda sua força.”

Muitos já devem ter visto, nos últimos tempos, todo tipo de material de papelaria contendo os dizeres em inglês “KEEP CALM AND CARRY ON” (“mantenha a calma e siga em frente”, em tradução livre), acompanhados ou não de símbolos alusivos ao Reino Unido.

A razão é que esta frase constava originalmente de um cartaz de 1939, início da Segunda Guerra Mundial, produzido pelo governo britânico com o propósito de levantar o moral do público em caso de invasão. Tendo tido, à época, apenas uma distribuição limitada, permaneceu pouco conhecido do público até o ano de 2000, quando foi redescoberto e re-emitido por um número de empresas privadas, e usado como tema de decoração para uma gama de produtos. (fonte: Wikipedia).

Manter a calma e seguir em diante é um bom conselho, em circunstâncias como as quotidianas, que conduzem facilmente uma pessoa à exasperação. Tão bom, que fiquei curioso a respeito da origem dessa frase, tendo descoberto a informação acima, que aqui compartilho.

Mas descobri também que a frase desse fazia parte de um grupo maior de slogans criados concomitantemente, com idênticos propósitos de exortação e engajamento. E, entre estes, chamou-me a atenção de modo mais pungente o seguinte:

“FREEDOM IS IN PERIL. DEFEND IT WITH ALL YOUR MIGHT” (“A Liberdade está em perigo. Defenda-a com toda a sua força”, em tradução livre) é algo que, no contexto atual, é mais que um conselho. É um chamado urgente de ajuda a um valor ameaçado por toda sorte de manifestações do ser humano quando se esmera naquilo que tem de pior.

É impossível assistir a dez minutos de telejornal, ou ler dez manchetes de jornal ou noticiário eletrônico sem perceber que, de todas as direções possíveis, surgem corpos maciços de ignorância e autoritarismo que se deslocam em direção a esmagar as melhores possibilidades e fatos humanos, de uma variedade tão grande, mas unidos por um valor que lhes dá sentido e esteio: a liberdade.

E o que me assusta é que, diversamente do que se cria em outras épocas, começa a ficar claro que o valor da liberdade não é uma noção intrinseca para todas as pessoas – ou pelo menos para a grande maioria delas – como um otimista tenderia a esperar, em tempos de grande avanço científico e facilidade a mais absoluta de acesso ao conhecimento, inclusive histórico, do mal que decorre das restrições às liberdades humanas.

Tomemos, por exemplo, o contexto histórico em que esse cartaz surgiu. Em 1939, a Europa, e de certa forma o mundo todo, estava às voltas com uma muito plausível prevalência dos regimes autoritários de inspiração fascista (que haviam se tornado hegemônicos em menos de uma década em países como Portugal, Espanha, Itália, Hungria, Japão e, claro, Alemanha, caso este agravado pela enorme capacidade industrial desse país, que produziu e pôs em uso uma máquina de guerra que aterrorizou o mundo).

Hoje está à disposição de qualquer um o conhecimento da desgraça de se viver em tais circunstâncias restritivas, e não falo nem do caso óbvio – e gravíssimo – daqueles que foram existencial e mortalmente perseguidos por tais regimes, nem dos sofrimentos da população desses países, quando derrotados na guerra que travaram por sua própria iniciativa.

Falo de que, mesmo enquanto tais regimes totalitários estavam em seu auge e pareciam destinados a perdurar, também aqueles que por eles não eram ostensivamente perseguidos pagaram um preço considerável – claro que de outra natureza. Um custo (ou um risco) a cada opinião ou crença que era necessário reprimir, a cada arbitrariedade que era necessário suportar. Um sofrimento muitissimo bem documentado, do qual muitos testemunhos foram dados por fontes as mais diversas e confiáveis.

Uma situação, afinal, também bem conhecida em outras épocas, mais atuais – como a truculência das ditaduras instaladas em série nos países latino-americanos no curso da segunda metade do século XX – ou mais remotas – como a das perseguições religiosas levadas a cabo de forma implacável pela Inquisição católica e por alguns potentados protestantes no final da Idade Média e começo da era moderna.

Falo, enfim, da concretização de uma pretensão, que interessa, é claro, primeiro àqueles no poder, mas cuja força decorre de seu respaldo por um número muito grande de pessoas: a pretensão de que os indivíduos sejam governados não apenas em um número restrito de situações, mas em tantas quantas possível, e não somente no que diz respeito ao que fazem ou deixam de fazer, mas também quanto ao que dizem, pensam, e até mesmo são.

E o que me deixa atônito não é que os poderosos tenham essa pretensão, e desejem pô-la em prática tanto quanto possível. Isto é banal, tudo menos surpreendente. Pessoas que almejam o poder, e o alcançam, desejam mantê-lo e ampliá-lo, e submeter aos demais é o meio para isso e também o próprio fim em vista. É assim, tristemente, e por isso o exercício do poder deveria ser controlado, vigiado, restrito.

Mas gela-me a espinha e trava-me o fôlego a percepção de um tão grande número de pessoas ordinárias (uso a palavra aqui em todos os sentidos possíveis) que parecem não apenas dispostas, mas entusiasticamente de acordo, em fornecer o respaldo e as condições necessárias para que o contrário ocorra, isto é, para que se torne possível àqueles que querem submeter aos demais fazê-lo, na máxima extensão de seu desejo e interesse.

Verdade que é tão simples fazê-lo (e justamente por isso deveríamos todos estar alertas, em firme prontidão, para nos impedirmos de ceder à tentação de fraquejar em algo tão singelo). Pois basta, para facilitar o trabalho a todos os autocratas e tiranetes em potencial, sacrificar, ou, mais exata e simplesmente, não protestar diante do sacrifício da liberdade d’O Outro.

Por “O Outro”, aqui, pensemos em alguém… Que costuma ser alguém estranho, diferente de nós, então como entendê-lo? Cujas atitudes não temos vontade de imitar, então que diferença faz se forem proibidas? Que diz coisas que nos causam desconforto, então não é uma satisfação se for silenciado? Que pretende que as coisas sejam diferentes das que sempre vimos e com que acabamos por nos acostumar-nos, por que não faz o mesmo?

Fui criança no século XX, cresci vendo muros serem derrubados por pessoas que, ao fazê-lo, pareciam estar reconquistando uma felicidade há muito perdida. Vi uma nova constituição ser escrita para eliminar, por aqui, a sombra de obstáculos semelhantes. Vi, num plano mais pessoal, as pessoas aprendendo a ousar fazer com seus corpos e suas emoções segundo sua própria vontade, mais do que convenções. Vi o conhecimento científico crescer e se disseminar em invenções e recursos. Achei tudo isto bom e supunha, já então, que num novo século e num novo milênio os obscurantismos, as crendices e a irracionalidade humana seriam decisivamente desconstruídos e então, só então, poderíamos lidar com os verdadeiros difíceis problemas que afligem nossa espécie, a pobreza e a desigualdade, que eu então imaginava serem os últimos obstáculos entre cada pessoa deste mundo e a sua possível realização plena como ser humano.

Tolo, não? Quando olho em volta e vejo um tiranete sanguinário a massacrar seu próprio povo diante da impotência e indolência das nações mais poderosas e desenvolvidas, uma das quais ela própria uma ditadura gananciosa e atroz… quando percebo que o delírio religioso contamina mais e mais o discurso político e jurídico, como se não fôssemos mais cidadãos perante um Estado, mas apóstatas impenitentes diante de um consistório empedernido e detestável… quando sinto que as pessoas preferem se apegar mais e mais a discursos vazios de conveniência, em vez de enxergar o drama do semelhante se desenrolando vivo e gritante diante de si… quando a maior parte da juventude se cala em silêncio onanista, ou se baba em tagarelice digital sem sentido, e os poucos que ousam gritar verdades são trancafiados sob os aplausos da massa… quando as leis fundamentais que ainda nos regem como sociedade e nos entitulam como cidadãos livres vão se esgarçando e perdendo significado simplesmente porque ninguém mais lhes dá importância ou esforço de compreendê-las e aplicá-las… e, finalmente, quando percebo que ninguém parece se importar muito com nada disso… Ah, que desesperança.

Eu gostaria de continuar esse texto, pois ainda sinto que há tantas coisas a dizer. Mas justamente porque são tantas, gostaria de ter mais tempo para articulá-las melhor e mais sucintamente. Mas acho que até aqui já dei uma idéia sobre de que problemas falo. Ao ponto de me perguntar se haverá muitos outros com as mesmas dúvidas, ou se serei solitário em meu intenso temor pelo futuro de nossa liberdade…

(a ser, talvez, continuado)