Inquietações Filosóficas

  1. Sentido e Percepção

Penso que deveria começar por refletir sobre isso porque me parece que tudo aquilo a que se pode chamar de memórias, conhecimentos e ideias, sejam lá o que forem (não penso em defini-los aqui), têm em sua origem os processos de sentidos. De fato, tudo aquilo de que me lembro, tudo aquilo que sei e todas as ideias que identifico em meu pensamento são feitas de (ou melhor, têm sua origem em) consequências do funcionamento de meus sentidos corpóreos.

De fato, tudo que penso conhecer, todas as minhas lembranças de pessoas, lugares e coisas, a própria língua que falo (inclusive durante o pensar) ingressou, se se pode usar este termo, por meio de minha visão, minha audição, meu tato, meu olfato e meu paladar – aqui listados segundo a tradição que os agrupa em cinco itens e ordenados grosseiramente por mim segundo me parece, sem maior reflexão, ser sua importância relativa para a aquisição de conhecimentos.

Mas o que representam, filosoficamente, esses sentidos? De que forma podemos suficientemente considerá-los, sem descer à minúcia científica de sua fisiologia (mas desde já tendo clara a noção de que o essencial dessa fisiologia não pode ser dispensado de consideração), para ter uma ideia suficientemente clara do papel que desempenham na própria existência da razão humana, para não falar de seu funcionamento cotidiano?

Para começar, despeçamos a contagem de Aristóteles, de “cinco sentidos”: falar de Tato implica falar da sensibilidade da pele à pressão, sim e de diversos tipos, mas também à temperatura e à distensão, e finalmente ao movimento próximo, que é perceptível pelos movimentos dos cabelos e pelos, na medida em que suas raízes são dotadas de terminações nervosas; o olfato e o paladar têm sua própria complexidade decorrente da diferenciação sensorial entre estímulos fornecidos por substâncias diversas; temos sensibilidade ao estado interno de nossa musculatura, tendões e alguns órgãos, bem como à posição espacial de nossa cabeça por meio de “sentidos” que tradicionalmente não eram enumerados como tais; a retina tem corpúsculos específicos para cores distintas e para a luminosidade geral; a audição parece ser capaz de distinguir grande variedade de estímulos.

E, de toda forma, não estou propriamente interessado em qual seja a natureza físico-química das estruturas perceptíveis em cada caso, até porque não é essa a natureza daquilo que se representa para a mente a partir dos estímulos captados por aquelas estruturas. Até se tornar inteligível para nós, o estímulo é captado pelos sentidos e preparado pelas estruturas mais profundas da mente para que se nos apresente como percebido. O que interessa, então, é o produto que se tem ao final de um processo que começa com o estímulo, passa pelo sentido que o apreende, e termina em sua percepção pela mente.

De modo que a primeira pergunta a ser feita é: há uma definição capaz de abranger os produtos do funcionamento de todas essas estruturas fisiológicas dos sentidos e da mente,  quanto à função que desempenham diante de coisas como a razão e a consciência?

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