XXI. A Raposa

E foi então que apareceu a raposa:

– Boa dia, disse a raposa.

– Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.

– Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira…

– Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita…

– Sou uma raposa, disse a raposa.

– Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste…

– Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. não me cativaram ainda.

– Ah! desculpa, disse o principezinho.

Após uma reflexão, acrescentou:

– Que quer dizer “cativar”?

– Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?

– Procuro os homens, disse o principezinho. Que quer dizer “cativar”?

– Os homens, disse a raposa, têm fuzis e caçam. É bem incômodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que fazem. Tu procuras galinhas?

– Não, disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer “cativar”?

– É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa “criar laços…”

– Criar laços?

– Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo…

– Começo a compreender, disse o principezinho. Existe uma flor… eu creio que ela me cativou…

– É possível, disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra…

– Oh! não foi na Terra, disse o principezinho.

A raposa pareceu intrigada:

– Num outro planeta?

– Sim.

– Há caçadores nesse planeta?

– Não.

– Que bom! E galinhas?

– Também não.

– Nada é perfeito, suspirou a raposa.

Mas a raposa voltou à sua idéia.

– Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra.

O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo…

A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:

– Por favor… cativa-me! disse ela.

– Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.

– A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!

– Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.

– É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto…

No dia seguinte o principezinho voltou.

– Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração… É preciso ritos.

– Que é um rito? perguntou o principezinho.

– É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias!

Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:

– Ah! Eu vou chorar.

– A culpa é tua, disse o principezinho, eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse…

– Quis, disse a raposa.

– Mas tu vais chorar! disse o principezinho.

– Vou, disse a raposa.

– Então, não sais lucrando nada!

– Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.

Depois ela acrescentou:

– Vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te farei presente de um segredo.

Foi o principezinho rever as rosas:

– Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela á agora única no mundo.

E as rosas estavam desapontadas.

– Sois belas, mas vazias, disse ele ainda. Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a redoma. Foi a ela que abriguei com o pára-vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.

E voltou, então, à raposa:

– Adeus, disse ele…

– Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.

– O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.

– Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.

– Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa… repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.

– Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa…

– Eu sou responsável pela minha rosa… repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.

Saint-Exupéry, Antoine de. O Pequeno Príncipe. Editora Agir.

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Atualidade de Espinosa

http://socientifica.com.br/2017/09/por-que-espinosa-ainda-e-importante/

Texto extenso, mas fundamental.

Auto-engano

Eu sou um mosaico de medos,

Mas isso é segredo.

É preciso amoldar-me ao mundo.

Aqui, na ânsia de ser aceito,

Releva-se a poesia emoldurada do que se é

E sublima-se a aparência do que se quer.

Preciso esconder a arte rebuscada dos medos

E exibir a máscara medíocre De minhas falsas certezas.

Quantos incautos crerão Em minha fortaleza interior?

E assim também eu perco a arte do humano.

Finjo perene coragem

E, em alto estilo,

Dissimulo o meu auto-engano.

Nara Rúbia Ribeiro

… para não esparramar raivas.

Do que de uma feita, por me valer, eu entendi o casco de uma coisa. Que, quando eu estava assim, cada de-manhã, com raiva de uma pessoa, bastava eu mudar querendo pensar em outra, para passar a ter raiva dessa outra, também, igualzinho, soflagrante. E todas as pessoas, seguidas, que meu pensamento ia pegando, eu ia sentindo ódio delas, uma por uma, do mesmo jeito, ainda que fossem muito mais minhas amigas e eu em outras horas delas nunca tivesse tido quizília nem queixa. Mas o sarro do pensamento alterava as lembranças, e eu ficava achando que, o que um dia tivessem falado, seria por me ofender, e punha significado de culpa em todas as conversas e ações. O senhor me crê? E foi então que eu acertei com a verdade fiel: que aquela raiva estava em mim, produzida, era minha sem outro dono, como coisa solta e cega. As pessoas não tinham culpa de naquela hora eu estar passeando pensar nelas. Hoje, que enfim eu medito mais nessa agenciação encoberta da vida, fico me indagando: será que é a mesma coisa com a bebedice de amor? Toleima. O senhor ainda me releve. Mas, na ocasião, me lembrei dum conselho que Zé Bebelo, na Nhanva, um dia me tinha dado. Que era: que a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve de tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a ideia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato é. Zé Bebelo falava sempre com a máquina de acerto ― inteligência só. Entendi. Cumpri. Digo: reniti, fazendo finca-pé, em força para não esparramar raivas.

(Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas)

O ilustrador australiano Toby Morris criou o quadrinho intitulado “On a Plate” (“De Bandeja”, em português), em que mostra duas realidades antagônicas, propondo uma reflexão sobre privilégios e oportunidades:

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Lindo filme: C.R.A.Z.Y. – Loucos de Amor

Filme maravilhoso… Trilha sonora fantástica.

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
C.R.A.Z.Y.
C.R.A.Z.Y. – Loucos de Amor (BR)
 Canadá
2005 •  cor •  127 min
Produção
Direção Jean-Marc Vallée
Roteiro François Boulay
Jean-Marc Vallée
Elenco original Michel Côté
Marc-André Grondin
Danielle Proulx
Género drama
Idioma original francês
IMDb: (inglês)(português)
Projeto CinemaPortal Cinema

C.R.A.Z.Y. é um filmecanadense falado em francês de 2005 rodado em Quebec. Ele conta a história de Zac, um jovem lidando com seus emergentes sentimentos homossexuais enquanto cresce com quatro irmãos e um pai conservador no Quebec dos anos de 1960/1970. O filme foi dirigido e co-escrito com François Boulay por Jean-Marc Vallée. O título deriva da junção da primeira letra dos nomes dos cinco irmãos: Christian, Raymond, Antoine, Zachary e Yvan, e também se refere ao amor duradoudo do pai pela clássica canção de Patsy Cline, “Crazy“.

Sinopse

Zachary Beaulieu (Marc-André Grondin) cresce no turbulento Quebec dos anos de 1960/1970. Sendo o segundo filho mais novo de um pai com “mais do que o nível normal de hormônios masculinos” e criado entre outros quatro irmãos, Zac luta para definir sua própria identidade e lida com o conflito entre sua emergente sexualidade e seu intenso desejo de agradar a seu rigoroso, temperamental e conservador pai, que seria considerado como homofóbico até nos dias de hoje. Um dos temas do filme é a minguante influência da Igreja Católica na sociedade de Quebec durante a Revolução Tranqüila.

Produção

Música do período é um elemento importante do filme, e uma porção considerável de seu orçamento foi gasta adquirindo direitos para músicas de Patsy Cline, Pink Floyd, Rolling Stones assim como “Space Oddity” de David Bowie, e muitos outros.[1]

A música Emmenez Moi de Charles Aznavour é repetida várias vezes no filme, geralmente cantada pelo pai. Ele também canta outra música de Aznavour, Hier Encore, como parte das comemorações do 20º aniversário de Zac.

Exibição

O filme estreou em Quebec em 27 de Maio de 2005. Sua duração é de 127 minutos e sua classificação (de acordo com o sistema de classificação de filmes de Quebec) era para 13 anos ou acima.

Bilheteria e prêmios

C.R.A.Z.Y. foi um sucesso de bilheteria para os padrões do relativamente pequeno mercado de Quebec, arrecadando CAD$ 6,2 milhões. Foi bem recebido pela crítica.

No 26º prêmio Genie para filmes canadenses, ganhou 11 dos 13 prêmios, e ganhou vários prêmios no Prix Jutra para filmes de Quebec. Ganhou prêmios em vários festivais internacionais de filmes. Foi também selecionado como candidato do Canadá para o Oscar de melhor filme estrangeiro no Oscar 2006, mas não foi um dos filmes indicados.

Lista de prêmios

  • Maine International Film Festival, 2007: Ganhador, Prêmio de Favorito do Público.
  • Prix Jutra, 2006: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Roteiro, Melhor Cinematografia, Melhor Edição, Melhor Direção de Arte, Melhor Figurino, Melhor Som, Melhor Maquiagem, Melhor Penteado, Maior Sucesso de Bilheteria, Filme Mais Ilustre fora de Quebec
  • Prêmio Genie, 2006: Best Motion Picture, Achievement in Art Direction/Production Design, Achievement in Costume Design, Achievement in Direction, Achievement in Editing, Performance by an Actor in a Leading Role, Performance by an Actress in a Supporting Role, Achievement in Sound Editing, Roteiro Original
  • Toronto International Film Festival, 2005: Toronto – City Award for Best Canadian Feature Film
  • Gijon international film festival (Spain), 2005: Prêmio do júri jovem (melhor filme), melhor diretor (Jean-Marc Vallée), melhor script (François Boulay), melhor direção artística (Patrice Bricault-Vermette)
  • Atlantic Film Festival, 2005: Best Canadian Feature
  • AFI Fest (Los Angeles), 2005: Prêmio do Público – Melhor Filme
  • Festival de Filme de Marrakech (Marrocos), 2005: Prêmio do Júri
  • Festival de Filme de Veneza (Itália), 2005: aceito

Elenco

Curiosidades

  • O nome do filme é formado pelas iniciais dos cinco filhos, na ordem do mais velho ao mais novo: Christian, Raymond, Antoine, Zachary e Yvan

Ver também

Referências

Caricaturas equivocadas

Na seção Tendências/Debates da Folha de São Paulo de hoje:

ALEXANDRE VIDAL PORTO

Na década de 1920, a cidade de Berlim conheceu um dos períodos mais tolerantes da história em relação à homossexualidade.

Casais do mesmo sexo eram tratados com respeito, e a cultura homossexual era aceita sem constrangimentos. Essa situação propícia se manteve até a emergência de Adolf Hitler, que mandou dezenas de milhares de homossexuais para campos de extermínio, todos com um triângulo rosa no peito.

No Brasil, ocorre situação análoga. Lentamente, a conquista pela igualdade de tratamento para os homossexuais avança. Mas a luta é inglória. Quando se pensa que os avanços estão consolidados, surge um Silas Malafaia, um Jair Bolsonaro ou um Ives Gandra Martins para lembrar que a questão está longe de ser resolvida.

O último nessa linhagem de homofóbicos é o ator Marcelo Serrado, que interpreta o personagem homossexual Crô, na novela “Fina Estampa”. Em entrevista à jornalista Mônica Bergamo, publicada na edição do último domingo deste jornal (“Arrasa, bii!”), Serrado expôs seu preconceito abertamente ao declarar que não gostaria de que a sua filha de sete anos visse um beijo gay na televisão.

Em sua conta no Twitter, o ator negou que fosse preconceituoso. Como se não querer que uma criança assista a um beijo gay nada tivesse de discriminatório. Exatamente como a senhora que diz que não é racista, mas que preferiria que a filha não se casasse com um negro.

A maneira como Serrado educa a sua filha é problema dele. Não se condena o teor de suas declarações preconceituosas, porque a homofobia ainda não é crime no Brasil.

O condenável em sua atitude é a negação do óbvio. Ele tem o direito de educar a sua filha como quiser, mas não pode enganar a população tentando descaracterizar a natureza do seu preconceito. Ou seja, Serrado é um homofóbico no armário. Precisa sair dele.

Serrado terá alcançado o auge da sua fama às custas da ridicularização dos homossexuais. Para ele, explorar a homofobia da sociedade brasileira deu certo. Para a Rede Globo, também, porque os índices de audiência da novela são altos. É triste, porém, que uma emissora de televisão preste tal desserviço à consolidação da cidadania.

A imagem desrespeitosa que a televisão brasileira difunde dos homossexuais pode dar lucro às emissoras e aos atores. No entanto, causa prejuízo ao Brasil como um todo, porque solapa os esforços do governo e da sociedade no combate ao ódio e à intolerância.

A caricatura homossexual que Aguinaldo Silva compôs e que Marcelo Serrado se presta a interpretar, por exemplo, levará anos para ser desmantelada no imaginário da nação. Produzirá discriminação e gerará violência.

Em defesa da novela, poder-se-ia falar em liberdade de criação artística. No ataque, porém, é necessário recordar a noção de responsabilidade social, que as redes de televisão têm o dever de preservar.

Homossexuais caricatos sempre existiram. Não temos de negá-los. Pergunto-me, no entanto, em que novela ou reality show estarão os homossexuais comuns, que têm relações estáveis, acordam cedo para ir trabalhar e levam uma vida convencional. Eles também existem. São muitos. Pagam impostos e exigem respeito.

Ah, e beijam-se também, Marcelo Serrado, como qualquer ser humano normal. Querer ocultar esse fato de sua filha ou de quem quer que seja constitui homofobia, quer você queira, quer não.

ALEXANDRE VIDAL PORTO, 46, mestre em direito pela Universidade Harvard, é diplomata e escritor

Discurso na ONU da Secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, sobre Direitos Humanos LGBT

A secretária de Estado Hillary Rodham Clinton fez, no dia 6 de dezembro de 2011, um discurso histórico, declarando de forma inequívoca que os direitos LGBT são iguais aos direitos à igualdade racial e aos direitos das mulheres. Falando na Sede da Organização das Nações Unidas para os Direitos Humanos em Genebra, Suíça, em homenagem ao Dia Internacional dos Direitos Humanos – que é sábado, 10 de dezembro – Clinton também anunciou que os EUA, sob a administração Obama, a partir de agora considerarão o tratamento dado pelos países aos seus cidadãos LGBT, ao decidir sobre a concessão de ajuda externa para o país.

A transcrição original do discurso, bem como o respectivo video, estão disponíveis em http://www.dallasvoice.com/transcript-secretary-state-hillary-clintons-speech-today-lgbt-rights-1096073.html

Agradeço desde já a Alison Bechdel por ter dado notícias do discurso em seu blog – http://dykestowatchoutfor.com/gay-rights-are-human-rights-and-human-rights-are-gay-rights

Abaixo, minha tentativa de tradução para o Português, por cujos eventuais erros peço, desde já, desculpas:

Boa noite, e deixem-me expressar a minha profunda honra e prazer por estar aqui. Quero agradecer ao Diretor-Geral Tokayev e à Sra. Wyden, juntamente com outros ministros, embaixadores, excelências, e parceiros das Nações Unidas. Este fim de semana, vamos celebrar o Dia dos Direitos Humanos, o aniversário de uma das grandes realizações do século passado.

A partir de 1947, delegados de seis continentes se dedicaram a elaborar uma declaração de que iria consagrar os direitos e liberdades fundamentais das pessoas em toda parte. No rescaldo da Segunda Guerra Mundial, muitas nações pressionaram por uma declaração deste tipo para ajudar a garantir que iríamos impedir futuras atrocidades e proteger a humanidade e a dignidade inerentes a todas as pessoas. E assim os delegados foram ao trabalho. Eles discutiram, escreveram, revisitaram, reviram, reescreveram, por milhares de horas. E eles incorporaram sugestões e revisões de governos, organizações e indivíduos em todo o mundo.

Às três horas da manhã de 10 de dezembro de 1948, depois de quase dois anos de elaboração e uma última noite de longo debate, o presidente da Assembleia Geral da ONU pediu uma votação do texto final.

Quarenta e oito nações votaram a favor, oito se abstiveram, nenhuma discordou. E a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi adotada. Ela proclama uma ideia simples e poderosa: Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. E com a declaração, ficou claro que os direitos não são conferidos pelo governo, pois eles são o direito inato de todas as pessoas.

Não importa em que país vivemos, quem são nossos líderes, ou até mesmo quem somos nós. Porque somos humanos, temos, portanto, direitos. E porque nós temos direitos, os governos são obrigados a protegê-los.

Nos 63 anos desde que a declaração foi adotada, muitas nações fizeram grandes progressos para tornar os direitos humanos uma realidade humana. Passo a passo, as barreiras que uma vez impediram as pessoas de apreciar a medida plena da liberdade, a plena experiência da dignidade, e os benefícios totais da humanidade, caíram. Em muitos lugares, leis racistas foram revogadas, práticas jurídicas e sociais que relegavam as mulheres a um status de segunda classe foram abolidas, e a capacidade das minorias religiosas para praticar livremente sua fé foi assegurada.

Na maioria dos casos, este progresso não foi facilmente conquistado. Pessoas lutaram e organizaram-se, e fizeram campanha em praças públicas e espaços privados, para mudar não apenas as leis, mas corações e mentes. E graças a esse trabalho de gerações, em benefício de milhões de pessoas cujas vidas foram certa vez estreitadas pela injustiça, elas agora são capazes de viver mais livremente e de participar mais plenamente na vida política, econômica e social de suas comunidades.

Agora, ainda há, como todos sabem, muito a ser feito para assegurar esse compromisso, essa realidade, esse progresso, para todas as pessoas. Hoje, eu quero falar sobre o trabalho que deixamos por fazer, para proteger um grupo de pessoas cujos direitos humanos são ainda negados em muitas partes do mundo de hoje. Em muitos aspectos, eles são uma minoria invisível. Eles são presos, espancados, aterrorizados, mesmo executados. Muitos são tratados com desprezo e violência por parte de seus concidadãos, enquanto autoridades competentes para protegê-los olham para o outro lado, ou, muitas vezes, até mesmo juntam-se ao abuso. Eles têm negadas oportunidades de trabalhar e aprender, são expulsos de suas casas e países, e forçados a suprimir ou negar quem são, para se proteger do mal.

Estou falando das pessoas gays, lésbicas, bissexuais e transexuais, seres humanos nascidos livres e agraciados com igualdade e dignidade, as quais têm o direito de reivindicar; aquilo que é agora um dos desafios restantes dos direitos humanos do nosso tempo. Falo sobre este assunto, sabendo que o registro histórico de meu próprio país sobre direitos humanos para gays está longe de ser perfeito. Até 2003, era ainda um crime em algumas partes do nosso país. Muitos LGBT americanos têm sofrido violência e assédio em suas próprias vidas, e para alguns, incluindo muitos jovens, intimidação e exclusão são experiências diárias. Então, nós, assim como todas as nações, temos mais trabalho a fazer para proteger os direitos humanos em casa.

Agora, eu sei que levantar esta questão é sensível para muitas pessoas, e que os obstáculos no caminho da proteção aos direitos humanos das pessoas LGBT se baseiam em crenças pessoais, políticas, culturais e religiosas profundamente arraigadas. Então, eu venho aqui diante de vocês com respeito, compreensão e humildade. Apesar dos progressos nesta frente não serem fáceis, não podemos postergar uma ação. Então, nesse espírito, quero falar sobre as questões difíceis e importantes que devemos abordar juntos para alcançar um consenso global que reconheça os direitos humanos dos cidadãos LGBT em todos os lugares.

A primeira questão vai ao âmago da questão. Alguns sugeriram que os direitos dos homossexuais e os direitos humanos são separados e distintos, mas, na verdade, eles são uma e a mesma coisa. Agora, é claro, há 60 anos, os governos que elaboraram e aprovaram a Declaração Universal dos Direitos Humanos não estavam pensando em como ela se aplicaria à comunidade LGBT. Eles também não estavam pensando em como isso se aplicava aos povos indígenas ou crianças, ou pessoas com deficiência ou outros grupos marginalizados. No entanto, nos últimos 60 anos, temos vindo a reconhecer que os membros desses grupos têm o direito à medida plena de dignidade e direitos, porque, como todas as pessoas, eles compartilham uma humanidade comum.

Este reconhecimento não ocorreu de uma só vez. Evoluiu ao longo do tempo. E conforme evoluiu, entendemos que estávamos a honrar os direitos que as pessoas sempre tiveram, ao invés de criar direitos novos ou especiais para eles. Ser uma mulher, ser uma minoria racial, religiosa, étnica ou tribal, ser LGBT, não te faz menos humano. E é por isso que os direitos dos homossexuais são direitos humanos e os direitos humanos são direitos dos homossexuais.

É violação dos direitos humanos quando as pessoas são espancadas ou mortas por causa de sua orientação sexual, ou porque eles não estão em conformidade com as normas culturais sobre como homens e mulheres devem olhar ou se comportar. É uma violação dos direitos humanos quando os governos declaram ilegal ser gay, ou permitem que aqueles que prejudicam as pessoas gays fiquem impunes. É uma violação dos direitos humanos quando as mulheres lésbicas ou transexuais são submetidas aos assim chamados estupros corretivos, ou forçosamente submetidas a tratamentos hormonais, ou quando pessoas são assassinadas após chamadas públicas para a violência contra gays, ou quando elas são forçadas a fugir de suas nações e procurar asilo em outros países para salvar suas vidas. E é uma violação dos direitos humanos quando cuidados vitais são negados às pessoas porque elas são gays, ou acesso igual à justiça é negado às pessoas porque são gays, ou espaços públicos estão fora dos limites para as pessoas porque são gays. Não importa como nos parecemos, de onde viemos ou quem somos, nós somos todos igualmente intitulados aos nossos direitos humanos e dignidade.

A segunda questão é uma questão de saber se a homossexualidade surge a partir de uma determinada parte do mundo. Alguns parecem acreditar que é um fenômeno ocidental e, portanto, pessoas de fora do Ocidente têm motivos para rejeitá-la. Bem, na realidade, os gays nascem e pertencem a todas as sociedades do mundo. Eles têm todas as idades, todas as raças, todas as crenças, eles são médicos e professores, agricultores e banqueiros, soldados e atletas, e independente de se nós o sabermos, ou reconhecê-lo, eles são a nossa família, nossos amigos e nossos vizinhos.

Ser gay não é uma invenção ocidental, é uma realidade humana. E proteger os direitos humanos de todas as pessoas, gay ou hétero, não é algo que só os governos ocidentais fazem. A Constituição da África do Sul, escrita no rescaldo do Apartheid, protege a igualdade de todos os cidadãos, incluindo os homossexuais. Na Colômbia e Argentina, os direitos dos gays também estão legalmente protegidas. No Nepal, a Suprema Corte decidiu que a igualdade de direitos se aplica aos cidadãos LGBT. O governo da Mongólia se comprometeu a buscar uma nova legislação que irá abordar a discriminação anti-gay.

Agora, alguns temem que a proteção dos direitos humanos da comunidade LGBT é um luxo que só os países ricos podem pagar. Mas, na verdade, em todos os países, há custos por não se protegerem esses direitos, em vidas tanto de gays quanto heterossexuais, perdidas para a doença e a violência, no silenciar de vozes e pontos de vista que fortaleceriam as comunidades, e em ideias nunca concretizadas por empreendedores que acontece de serem gays. Incorre-se em custos sempre que qualquer grupo é tratado como menos que outro, sejam eles mulheres, minorias raciais ou religiosas, ou a LGBT. O ex-presidente Mogae, do Botswana, assinalou recentemente que enquanto as pessoas LGBT forem mantidas nas sombras, não poderá haver um programa de saúde pública eficaz de combate ao HIV e à AIDS. Bem, isso vale para outros desafios também.

A terceira, e talvez mais problemática questão, surge quando as pessoas citam valores religiosos ou culturais como uma razão para violar ou para não proteger os direitos humanos de cidadãos LGBT. Isto não é diferente da justificativa oferecida para práticas violentas contra as mulheres, como crimes de honra, queima de viúvas ou mutilação genital feminina. Algumas pessoas ainda defendem essas práticas como parte de uma tradição cultural. Mas a violência contra as mulheres não é cultural, é criminal. Da mesma forma a escravidão, que uma vez já foi justificada como sendo sancionada por Deus, e é agora devidamente rechaçada como uma violação inadmissível dos direitos humanos.

Em cada um destes casos, viemos a aprender que nenhuma prática ou tradição supera os direitos humanos, que pertencem a todos nós. E isso vale para o infligir da violência sobre as pessoas LGBT, a criminalização de seu estado ou comportamento, a sua expulsão de suas famílias e comunidades, ou a aceitação tácita ou explícita de sua morte.

É claro que vale a pena observar que raramente tradições culturais e ensinamentos religiosos estão realmente em conflito com a proteção dos direitos humanos. De fato, nossa religião e nossa cultura são fontes de inspiração e de compaixão para com nossos companheiros seres humanos. Não foram apenas os que já justificaram a escravidão a se inclinaram sobre a religião; fizeram-no também aqueles que buscavam aboli-la. E devemos ter em mente que os nossos compromissos para proteger a liberdade de religião e de defender a dignidade de pessoas LGBT emanam de uma fonte comum. Para muitos de nós, a crença e a prática religiosa é uma fonte vital de significado e identidade, e fundamental para quem nós somos como povo. E da mesma forma, para a maioria de nós, os laços de amor e familiares que forjamos também são fontes vitais de significado e identidade. E cuidar dos outros é uma expressão do que significa ser plenamente humano. É porque a experiência humana é universal que os direitos humanos são universais e passam através de todas as religiões e culturas.

A quarta questão é o que a história nos ensina sobre como devemos progredir rumo aos direitos para todos. O progresso começa com a discussão honesta. Agora, há alguns que dizem e acreditam que todos os gays são pedófilos, que a homossexualidade é uma doença que pode ser diagnosticada ou curada, ou que gays recrutam outras pessoas para se tornarem gays. Bem, estas noções simplesmente não são verdade. Eles também não são susceptíveis de desaparecer se aqueles que as promovem ou aceitam forem afastados em vez de convidados a compartilhar seus medos e preocupações. Ninguém jamais abandonou uma crença, por ter sido forçado a fazê-lo.

Direitos humanos universais incluem a liberdade de expressão e a liberdade de crença, mesmo que nossas palavras ou crenças insultem a humanidade dos outros. No entanto, enquanto somos livres para acreditar no que quer que escolhamos, não podemos fazer o que quer que escolhamos; não em um mundo onde nós protejamos os direitos humanos de todos.

Alcançar a compreensão dessas questões exige mais do que fala. Exige diálogo. Na verdade, é preciso uma constelação de diálogos em lugares grandes e pequenos. E é preciso força de vontade para ver rígidas diferenças de crença como uma razão para começar o diálogo, e não evitá-lo.

Mas o progresso vem de mudanças nas leis. Em muitos locais, incluindo o meu próprio país, a proteção legal ter precedido, e não seguido, um reconhecimento mais amplo dos direitos. Leis têm um efeito educativo. Leis que discriminam validam outros tipos de discriminação. Leis que exigem proteções iguais reforçam o imperativo moral da igualdade. E falando praticamente, é frequente que as leis devam mudar antes de os temores sobre a mudança se dissiparem.

Muitos no meu país pensaram que o presidente Truman estava fazendo um grave erro quando ordenou a dessegregação racial dos nossos militares. Eles argumentaram que isso poderia prejudicar a coesão da unidade. E não foi senão quando ele foi em frente e fez isso, que nós vimos como ele fortaleceu nosso tecido social de uma forma que até mesmo os defensores da política não poderiam prever. Da mesma forma, alguns se preocuparam, em meu país, que a revogação do “não pergunte, não conte” teria um efeito negativo sobre nossas forças armadas. Agora, o comandante dos Fuzileiros Navais, que foi uma das mais fortes vozes contra a revogação, diz que suas preocupações eram infundadas e que os marines têm abraçado a mudança.

Finalmente, o progresso vem de estarmos dispostos a caminhar uma milha nos sapatos de outra pessoa. Precisamos nos perguntar: “Como eu me sentiria se fosse um crime de amar a pessoa que eu amo? Como é a sensação de ser discriminado por algo sobre mim que eu não posso mudar?” Este desafio se aplica a todos nós, ao refletirmos sobre nossas crenças mais profundas, à medida que trabalhamos para abraçar a tolerância e o respeito pela dignidade de todas as pessoas, e ao humildemente nos envolvermos com aqueles de quem discordamos, na esperança de criar uma maior compreensão.

Uma quinta e última questão é a forma como fazemos a nossa parte para levar o mundo a abraçar os direitos humanos para todas as pessoas, incluindo as pessoas LGBT. Sim, as pessoas LGBT deve ajudar a conduzir esse esforço, como tantos de vocês estão a fazer. Seus conhecimentos e experiências são inestimáveis, e sua coragem, inspiradora. Sabemos os nomes dos valentes ativistas LGBT que, literalmente, deram suas vidas por esta causa, e há muitos mais cujos nomes nunca saberemos. Mas muitas vezes aqueles a quem são negados os direitos são também os menos habilitados para trazer as mudanças que buscam. Agindo sozinhas, as minorias nunca poderão alcançar a maioria necessária para a mudança política.

Assim, quando qualquer parte da humanidade é posta de lado, o resto de nós não pode virar as costas. Toda vez que uma barreira ao progresso caiu, isto exigiu um esforço cooperativo daqueles em ambos os lados da barreira. Na luta pelos direitos das mulheres, o apoio dos homens continua a ser crucial. A luta pela igualdade racial tem contado com contribuições de pessoas de todas as raças. O combate à islamofobia e ao antissemitismo é uma tarefa para pessoas de todas as fés. E o mesmo é verdade com esta luta pela igualdade.

Por outro lado, quando vemos negações e violações dos direitos humanos e deixamos de agir, isto se torna uma mensagem para os negadores e abusadores, de que eles não vão sofrer quaisquer consequências por seus atos, e assim eles continuam. Mas quando nós agimos, enviamos uma poderosa mensagem moral. Aqui em Genebra, a comunidade internacional agiu este ano para reforçar um consenso global em torno dos direitos humanos das pessoas LGBT. No Conselho de Direitos Humanos em março, 85 países de todas as regiões apoiaram uma declaração pedindo o fim da criminalização e da violência contra pessoas por causa de sua orientação sexual e identidade de gênero.

Na sessão seguinte do Conselho, em junho, a África do Sul assumiu a liderança em uma resolução sobre a violência contra as pessoas LGBT. A delegação da África do Sul falou eloquentemente sobre sua própria experiência e luta pela igualdade humana e sua indivisibilidade. Quando a medida foi aprovada, tornou-se a primeira resolução da ONU que reconhece os direitos humanos das pessoas em todo o mundo gay. Na Organização dos Estados Americanos deste ano, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos criou uma unidade sobre os direitos das pessoas LGBT, um passo em direção ao que esperamos que venha a ser a criação de um relator especial.

Agora, temos de ir mais longe e trabalhar aqui e em todas as regiões do mundo para estimular um maior apoio aos direitos humanos da comunidade LGBT. Aos líderes dos países onde as pessoas são presas, espancadas ou executadas por serem gays, eu peço que considerem isto: Liderança, por definição, significa estar na frente do teu povo, quando é chamado para tal. Isso significa defender a dignidade de todos os seus cidadãos e persuadir seu povo a fazer o mesmo. Significa, também, garantir que todos os cidadãos sejam tratados como iguais em suas leis, porque – e deixem-me ser clara – não estou dizendo que os gays não podem cometer ou não cometem crimes. Eles podem e o fazem, tanto quanto os heterossexuais. E quando o fazem, eles devem ser responsabilizados, mas ser gay nunca deveria ser um crime.

E para pessoas de todas as nações, eu digo que o apoio aos direitos humanos é de sua responsabilidade, também. As vidas das pessoas gays são moldadas não apenas por leis, mas pelo tratamento que recebem todos os dias das suas famílias, de seus vizinhos. Eleanor Roosevelt, que tanto fez para promover os direitos humanos a nível mundial, disse que esses direitos começam nos lugares pequenos perto de casa – as ruas onde as pessoas moram, as escolas que frequentam, as fábricas, fazendas e escritórios onde trabalham. Esses lugares são o domínio de vocês. As ações que vocês tomarem, os ideais que vocês defenderem, podem determinar se os direitos humanos florescerão onde vocês estão.

E, finalmente, para os homens e mulheres LGBT em todo o mundo, deixem-me dizer isto: Onde quer que vocês morem e quaisquer que sejam as circunstâncias de sua vida, quer vocês estejam conectados a uma rede de apoio, quer se sintam isolados e vulneráveis, por favor, saibam que vocês não estão sozinhos. Pessoas em todo o mundo estão trabalhando duro para apoiá-los e acabar com as injustiças e perigos que vocês enfrentam. Isso é certamente verdade para o meu país. E vocês têm um aliado nos Estados Unidos da América, e vocês têm milhões de amigos entre o povo americano.

A administração Obama defende os direitos humanos das pessoas LGBT como parte de nossa política abrangente de direitos humanos e como uma prioridade da nossa política externa. Em nossas embaixadas, nossos diplomatas estão levantando preocupações sobre casos específicos e leis, e trabalhando com uma gama de parceiros para fortalecer a proteção dos direitos humanos para todos. Em Washington, criamos uma força-tarefa do Departamento de Estado para apoiar e coordenar este trabalho. E nos próximos meses, iremos prover cada embaixada com um kit de ferramentas para ajudar a melhorar os seus esforços. E criamos um programa que oferece apoio emergencial aos defensores dos direitos humanos das pessoas LGBT.

Esta manhã, de volta a Washington, o presidente Barack Obama colocou em prática a primeira estratégia do governo EUA dedicada ao combate aos abusos dos direitos humanos contra pessoas LGBT no exterior. Partindo dos esforços já em curso no Departamento de Estado e de todo o governo, o presidente determinou a todas as agências governamentais dos EUA que atuam no exterior para combater a criminalização do status e da conduta LGBT, reforçar os esforços para proteger os refugiados LGBT vulneráveis e em busca de asilo, garantir que nossos ajuda externa promova a proteção dos direitos LGBT, para engajar organizações internacionais na luta contra a discriminação e responder rapidamente aos abusos contra as pessoas LGBT.

Também estou satisfeita por anunciar que estamos lançando um novo Fundo para Igualdade Global, que vai apoiar o trabalho das organizações da sociedade civil que trabalham sobre estas questões em todo o mundo. Este fundo irá ajudá-las a registrar números, para que possam direcionar suas campanhas, a aprender a usar a lei como uma ferramenta, a gerir os seus orçamentos, a treinar seus funcionários e a estabelecer parcerias com organizações de mulheres e outros grupos de direitos humanos. Nós aplicamos mais de 3 milhões de dólares para iniciar este fundo, e temos esperança de que outros se juntem a nós no apoio dele.

As mulheres e os homens que defendem os direitos humanos para a comunidade LGBT em lugares hostis, alguns dos quais estão aqui hoje conosco, são corajosos e dedicados, e merecem toda a ajuda que possamos dar a eles. Sabemos que a estrada adiante não será fácil. Um grande volume de trabalho está diante de nós. Mas muitos de nós já vimos em primeira mão o quão rápido a mudança pode vir. Em nossas vidas, as atitudes em relação às pessoas homossexuais em muitos lugares foram transformadas. Muitas pessoas, inclusive eu, têm experimentado um aprofundamento de nossas próprias convicções sobre o tema ao longo dos anos, ao dedicar mais atenção a ele, envolver-se em diálogos e debates, e estabelecer relações pessoais e profissionais com pessoas que são gays.

Esta evolução é evidente em muitos lugares. Para destacar um exemplo, a Alta Corte de Delhi descriminalizou a homossexualidade na Índia há dois anos, escrevendo, e eu cito, “Se há um princípio que pode ser dito que é um tema subjacente da Constituição indiana, é a inclusão.” Há pouca dúvida em minha mente que o apoio aos direitos humanos LGBT continuará a aumentar. Porque para muitos jovens, isso é simples: Todas as pessoas merecem ser tratadas com dignidade e têm seus direitos humanos respeitados, não importa quem são ou quem elas amam.

Há uma frase que as pessoas nos Estados Unidos invocam, ao demandarem de outros o apoio aos direitos humanos: “Esteja no lado certo da história”. A história dos Estados Unidos é a história de uma nação que tem repetidamente confrontado a intolerância e a desigualdade. Nós lutamos uma guerra civil brutal sobre a escravidão. Pessoas de costa a costa juntaram-se em campanhas para reconhecer os direitos das mulheres, dos povos indígenas, das minorias raciais, crianças, pessoas com deficiência, imigrantes, trabalhadores e assim por diante. E a marcha em direção à igualdade e justiça continuou. Aqueles que advogam a expansão do círculo de direitos humanos foram e estão do lado certo da história, e a história os honra. Aqueles que tentaram restringir os direitos humanos estavam errados, e a história reflete isto também.

Eu sei que os pensamentos que compartilhei hoje envolvem questões sobre as quais as opiniões ainda estão evoluindo. Como já aconteceu tantas vezes antes, as opiniões irão convergir, mais uma vez, com a verdade, a imutável verdade de que todas as pessoas são criadas livres e iguais em dignidade e direitos. Nós somos chamados mais uma vez para tornar reais as palavras da Declaração Universal. Vamos responder a essa chamada. Vamos estar do lado certo da história, para o nosso povo, nossas nações e as futuras gerações, cujas vidas serão moldadas pelo trabalho que fizermos hoje. Estou diante de vocês com grande esperança e confiança de que não importa quão longa a estrada à frente, vamos percorrê-la juntos com sucesso.

Muito obrigada.

Que lindo

De Franz Schubert,
por Imogen Cooper e Paul Lewis,
Fantasia em Fá menor para Piano a quatro mãos (Opus póstumo 103, D. 940).

O Trenzinho do Caipira

Música de Heitor Villa-Lobos

Letra de Ferreira Gullar

Adaptação de Edu Lobo

Atenção: o áudio só começa aos 0:53 de exibição. É normal.

Comovente

Casamento Civil Igualitário: Questões e Respostas

Ótimo texto, desmistificador de bobagens e argumentos capciosos.

TEXTO: BRUNO BIMBI (*)

— “A finalidade do casamento é a procriação”.

— Falso. Se assim fosse, o casamento deveria ser proibido às pessoas estéreis, aos anciãos e às mulheres depois da menopausa. Seria necessário se instaurar um exame de fertilidade prévio e cada casal deveria jurar que vai procriar, sob pena de nulidade se não assim não fizer num certo prazo. Por outro lado, muitos casais de lésbicas recorrem a métodos de fertilização assistida e tem muitos gays com filhos, naturais ou adotivos. Mas a finalidade do casamento é outra: as pessoas se casam porque se amam, têm um projeto de vida em comum e querem receber a proteção da lei. Algumas pessoas casam e nunca procriam, porque não podem ou não querem, enquanto outras têm vários filhos sem casar nunca.

 

— “A legalização do casamento gay vai destruir a família”.

— Falso. A legalização do casamento gay vai incluir milhares de famílias que hoje estão excluídas. Essas famílias vão receber a proteção do Estado e o reconhecimento jurídico — e também simbólico — de uma instituição que, além de assegurar uma séria de direitos civis, sociais e econômicos fundamentais, tem efeitos ordenadores em nossa cultura. A Constituição brasileira deixa em claro que a finalidade do casamento civil é a proteção da família. E essa proteção e o direito de todas as pessoas a contrair matrimônio são reconhecidos pela Declaração Universal dos Direitos Humanos (art. 16), pela Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem (art. VI), pelo Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (art. 23), pela Convenção Americana sobre direitos humanos (art. 17) e pelo Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (art. 10), de modo que a proibição do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo é uma violação ao direito humano a contrair matrimônio e ao direito humano a receber a proteção estatal para a família. Existem milhares de famílias formadas a partir da união de dois homens ou de duas mulheres, que não estão recebendo a proteção que o Estado é obrigado a garantir. A partir da legalização do casamento gay, essas famílias serão incluídas, sem que isso prejudique de forma alguma as famílias formadas a partir da união de homem e mulher. Muitos ganham, mas ninguém perde.

 

— “Deus criou o homem e a mulher para que se unam. O casamento gay vai contra o plano de Deus”.

— No Brasil, como no resto do mundo, tem pessoas que acreditam em Deus e tem outras que não acreditam. Alguns acreditam num único Deus, outros em vários deuses e em outras entidades. Tem pessoas que acreditam no mesmo Deus, mas de formas diferentes. E tem pessoas que, a partir da própria fé, leem e interpretam os textos sagrados de suas religiões — por exemplo, a Bíblia — de diferentes maneiras. Há muitos debates teológicos sobre o que esses textos dizem — ou não dizem — a respeito da homossexualidade. Todas as crenças são legítimas e devem ser respeitadas, mas não devem interferir no debate das leis civis. O sistema político adotado pela Constituição brasileira é a democracia e não a teocracia, sistema que impera, por exemplo, no Irã, onde os homossexuais são condenados à morte por leis baseadas numa leitura fundamentalista do Alcorão. As leis devem levar em consideração os direitos dos que creem — de uma ou de outra maneira — e dos que não creem. Por isso é importante distinguir o casamento civil do casamento religioso: o primeiro é regulado pelas leis civis e deve ser para todos e todas, o segundo é regulado pelas leis de cada igreja, que podem ser diferentes entre si. Por outro lado, não podemos esquecer que outros direitos foram negados, em distintas épocas, em nome de Deus. Em meados do século XX, nos EUA, uma sentença de um juiz de Virgínia justificou a proibição do casamento entre pessoas brancas e pessoas negras com o seguinte argumento: “Deus Todo-poderoso criou as raças branca, negra, amarela, malaia e vermelha e as colocou em continentes separados. O fato de Ele ter separado as raças demonstra que Ele não tinha a intenção de que as raças se misturassem”. Em nome de Deus foram negados os direitos das mulheres (que, segundo a Igreja, não tinham alma), foram massacrados os índios (que não eram pessoas), escravizados os negros (que eram uma raça inferior) e perseguidos os judeus (que eram infiéis, porque negavam Jesus Cristo). Ao longo da história, muitas vezes, os homens têm se desculpado pelos seus próprios preconceitos, atribuindo-os a Deus, como se a culpa fosse dele.

 

— “A Bíblia diz que a homossexualidade é pecado”.

— Mesmo que isso fosse verdade, vamos repetir: as leis civis são para todos e todas, os que creem e os que não creem. A regulação do casamento civil não pode se basear no que a Bíblia diz — ou o Talmude, o Alcorão e outros livros sagrados. No entanto, devemos esclarecer essa questão: a Bíblia não fala aquilo em lugar nenhum. A palavra “homossexualidade” não existia quando a Bíblia foi escrita, não porque não existissem homens que se apaixonassem por outros homens ou tivessem atração sexual por eles, ou mulheres que sentissem o mesmo por outras mulheres, mas porque esse não era um critério classificatório das línguas faladas pelos primeiros leitores da Bíblia — nem, portanto, das culturas em que essas línguas eram faladas. Da mesma maneira que nós não classificamos os seres humanos de acordo com a cor dos seus parceiros sexuais e afetivos — por exemplo, “negrossexuais” e “brancossexuais” —, os antigos não classificavam as pessoas como homos e héteros. Portanto, a Bíblia não poderia jamais dizer que “a homossexualidade é pecado”, da mesma maneira que não diz que seja pecado usar internet ou assistir à novela da Globo. Essas não eram as preocupações daquela época.

 

— “A Bíblia diz: ‘Não te deitarás com homem como com mulher, isso é abominação’”.

— Certo; Levítico 18:22. Entretanto, nesse mesmo texto, também diz: não farás a barba, não cortarás o cabelo, não usarás roupas que misturem fios diferentes, não plantarás sementes distintas na mesma horta, não comerás mariscos etc. Do ponto de vista do Levítico, se fizermos uma leitura literal, as relações sexuais entre dois homens são tão “abomináveis” como as empadas de camarão e os cabeleireiros. No mesmo capítulo, a Bíblia aprova a escravidão e diz que os adúlteros e os filhos rebeldes merecem a morte, e que as mulheres, depois de terem filhos, são imundas. No início do texto em que essa frase sobre “deitar-se com homem como com mulher” está incluída, a Bíblia ordena e regulamenta os sacrifícios de animais, por exemplo, cordeiros e pombas, cujo sangue deve ser usado em rituais de expiação dos pecados. No entanto, de tudo o que esse capítulo da Bíblia diz, os fundamentalistas cristãos apenas se lembram dessa frase: “Não te deitarás com homem como com mulher, isso é abominação” e esquecem o resto. O Levítico — livro proibido durante a Inquisição, considerado pela Igreja católica “a lei morta de Moisés” — era um código de conduta dos judeus anteriores a Cristo, que servia para diferenciar seus ritos e costumes dos que eram praticados por outros povos daquela época. Alguns judeus ortodoxos ainda seguem muitas regras desse código de conduta quase ao pé da letra. No entanto, a proibição de “deitar-se com homem como com mulher” não tinha nada a ver com a homossexualidade, que, como já dissemos, não era uma categoria daquela cultura, mas com a pureza das práticas rituais e com a conservação do sêmen, que devia ser usado para a procriação. A palavra “abominação” também não significava uma coisa má. As edições contemporâneas da Bíblia traduzem assim o termo hebraico “toevá”, que designava uma prática não habitual, impura, mas não implicava um juízo moral. Cortar o cabelo não era imoral, mas violava os costumes dos judeus da época, da mesma maneira que o sexo entre homens. Essa e outras passagens da Bíblia são distorcidas pelos fundamentalistas — que nada sabem de teologia ou de história — para justificar seus preconceitos irracionais contra gays e lésbicas.

 

— “A palavra ‘casamento’ pertence à religião”.

— Falso. A Constituição brasileira, no artigo 226 § 1, diz claramente: “O casamento é civil”. No parágrafo seguinte, o texto constitucional estabelece que “o casamento religioso produz efeitos civis”. O casamento religioso e o casamento civil são duas instituições diferentes, com regulações diferentes — o casamento civil, por exemplo, admite o divórcio, que não é permitido por várias religiões. O que a legislação brasileira regulamenta é o casamento civil. Também é falso que o casamento, como instituição, tenha sua origem na religião cristã. O casamento como contrato civil é bem anterior ao sacramento que leva o mesmo nome: foi no ano 1215 que a Igreja adotou o casamento como sacramento religioso, mas ele já existia como contrato civil desde muito antes do nascimento de Cristo e também era praticado por outras religiões, de diferentes maneiras e com diferentes regras — os judeus, por exemplo, já se casavam desde muito antes do nascimento de Cristo, mas não têm “sacramentos” e sempre admitiram o divórcio. No âmbito religioso, algumas igrejas aceitam o casamento homossexual e outras não — entre as últimas, a Igreja católica.

 

— “O casamento gay viola a liberdade religiosa, porque os padres e pastores serão obrigados a casar homossexuais”.

— Falso. O projeto de emenda constitucional do deputado Jean Wyllys se refere única e exclusivamente ao casamento civil, da mesma maneira que as leis aprovadas na Argentina, em Portugal, na Espanha, na Suécia, na África do Sul, na Islândia, na Holanda, na Bélgica, na Noruega, no Canadá etc. Se o projeto do Jean Wyllys for aprovado, os casais homossexuais brasileiros vão poder se casar no cartório, não na igreja, a não ser que as igrejas, por própria e livre vontade, decidam aceitar o casamento homossexual. Em alguns países, tem igrejas protestantes — por exemplo, luteranos, metodistas e anglicanos — que casam homossexuais, e a Igreja católica dá a bênção aos casais que casam pelo civil. Pois é, a Igreja católica faz isso em alguns países! Também tem rabinos judeus que aceitam o casamento homossexual. No entanto, essa decisão corresponde a cada religião e a lei civil não tem nada a dizer a respeito, porque o Estado deve respeitar a liberdade religiosa. Se as igrejas não querem casar os gays, ninguém vai obrigá-las. O que nós defendemos é o direito ao casamento civil.

 

— “O casamento sempre foi entre um homem e uma mulher”.

— Falso. Na história do ocidente, o casamento homossexual foi proibido pela primeira vez no ano 342, por um decreto do Imperador romano. Até então, era permitido. O casamento era um contrato privado que produzia efeitos jurídicos e existe evidência histórica de que também havia casamentos homossexuais cujos efeitos — entre outros, a herança — eram reconhecidos pela justiça da época. O imperador Nerão, por exemplo, casou duas vezes, em cerimônia oficial, com homens. Suetônio se refere a ele com ironia, dizendo que “se o pai de Nerão tivesse casado com esse tipo de esposa, a humanidade teria tido melhor sorte”. A proibição do casamento homossexual se deu no contexto do avanço do cristianismo, adotado como religião oficial do Império Romano. No entanto, também existe evidência histórica de que a própria Igreja, séculos atrás, aceitava o casamento homossexual. O historiador americano John Boswell, que fora professor de história medieval na Universidade de Yale, escreveu um livro sobre isso, “As bodas da semelhança”. Atualmente, o casamento gay é legal em dez países: Holanda, Bélgica, Noruega, África do Sul, Canadá, Espanha, Portugal, Suécia, Islândia e Argentina, na Cidade do México e nos estados americanos de Massachusetts, Iowa, Vermont, Washington DC, Nova Hampshire e Nova Iorque. E o tema está sendo debatido, entre outros países, no Uruguai, na Colômbia, no Chile, na França e nos Estados Unidos. Entretanto, vamos supor que o casamento sempre tivesse sido entre um homem e uma mulher… E daí? A escravidão sempre tinha sido legal até que foi proibida e as mulheres nunca tinham podido votar até que conquistaram esse direito. A história é assim: as coisas mudam.

 

— “A homossexualidade não é natural”.

— Falso. Se ao longo da história, em todas as épocas e em todas as culturas, houve sempre uma proporção mais ou menos estável de pessoas homossexuais, e se a homossexualidade também existe em muitas espécies animais, é claro que ela também faz parte da natureza. Quando um homem se apaixona ou se sente atraído por outro homem, ou quando isso acontece entre duas mulheres, é porque essa é a inclinação natural que eles têm. Não é uma escolha, como algumas pessoas pensam (Você é heterossexual? Quando escolheu sê-lo? Alguma vez considerou a outra possibilidade e “decidiu” se gostaria de homens ou de mulheres ou, simplesmente, sempre gostou do que gosta? Pois é, foi assim mesmo para nós!).

 

— “A homossexualidade não é normal”.

— Não devemos confundir “maioria” com “normalidade”, como muitas vezes se faz. A homossexualidade é tão normal quanto a heterossexualidade, só que é minoritária. Não é melhor nem pior, nem mais nem menos saudável, da mesma maneira que não é melhor ser branco ou negro. Lembre-se que os canhotos, durante muito tempo, foram considerados anormais, e eram obrigados a escrever com a mão direita, só porque eram minoria e, para a maioria, eram “raros”. Os ruivos, as pessoas que vivem mais de cem anos, os que têm olhos azuis, os albinos, os gênios da matemática e os atletas olímpicos também são minoria, e nem por isso devem ser perseguidos e estigmatizados. E todos eles têm direito a casar.

 

— “O casamento provém da natureza. O casamento gay é antinatural”.

— Falso. O casamento é uma invenção humana, uma construção social e cultural que apareceu em um determinado momento da história, respondendo às necessidades da época, e foi mudando ao longo do tempo, à medida que as necessidades a que respondia mudaram — e continuará mudando. O casamento não é para nós a mesma coisa que era para as nossas avós, ou para as avós delas. E isso não tem nada a ver com a natureza. O casamento heterossexual é tão “antinatural” como o casamento homossexual — os cachorros e os cavalos não casam, não moram juntos, não praticam a monogamia, não são fiéis entre si, não têm propriedades para dividir ou se herdar, não registram o parceiro no plano de saúde nem passam o sobrenome aos filhotes. Nada disso é natural, mas tudo isso faz parte do casamento. Também não são naturais a medicina, a ciência, os sambas de Cartola, os romances de Machado de Assis e Jorge Amado, a luz elétrica e o fogão. E nós não poderíamos viver sem eles. A humanidade subverte a natureza e muitas vezes luta contra ela: com antibióticos para curar as doenças, máquinas para atravessar os céus e os oceanos, redes informáticas para se comunicar à distância, aquecedores e ar condicionado para fazer com que a intensidade do inverno e do verão sejam mais toleráveis, roupas para cobrir a nudez e perfumes para ficar cheirosos. O casamento é mais uma dessas invenções.

 

— “Se todos fossem homossexuais, a espécie humana acabaria logo”.

— Não sabemos. Num exercício de ficção científica, podemos imaginar que, se isso acontecesse, a humanidade acharia uma maneira de sobreviver, talvez massificando a reprodução assistida, que hoje auxilia as pessoas que não podem ter filhos por alguma doença ou por falta de parceiro, entre outras razões. Mas essa hipótese é ficção científica mesmo, porque desde que o mundo é mundo e os seres humanos apareceram nele, tem pessoas que são homossexuais e outras que são heterossexuais, e estes últimos sempre foram maioria. No entanto, vamos imaginar outras variantes do raciocínio proposto: se o mundo inteiro falasse apenas português, não teriam existido Dom Quixote, Romeu e Julieta nem Rashkólnikov, e se todos fossem brasileiros, não existiria a Copa do Mundo — cadê os adversários? Isso poderia ser um argumento legítimo contra os brasileiros e os falantes de português? A diversidade é uma das coisas mais lindas que o nosso mundo tem. Felizmente, não somos todos iguais, mas devemos ser, sim, iguais perante a lei. E a legalização do casamento gay não vai fazer com que haja mais gays, da mesma maneira que a proibição não impede, hoje, que nós existamos.

 

— “O Congresso deveria se ocupar de assuntos mais urgentes, como a saúde, a educação e a segurança pública”.

— Esse argumento é terrivelmente falaz, já que poderia ser usado como desculpa para frear qualquer debate: sempre vai ter algum assunto mais importante. No entanto, a legalização do casamento homossexual é uma tarefa muito simples: o único que o Congresso deve fazer é mudar algumas palavras de um artigo da Constituição e, depois, adaptar o texto do Código Civil. É fácil e rápido. Dá para resolver em poucos dias, levando em conta o debate e a votação na Câmara dos Deputados e no Senado. E a aprovação do casamento gay não impede nem obstaculiza nem demora em forma alguma a solução de outros problemas. O Congresso pode aprovar o casamento gay e também se ocupar de outros temas que preocupam a sociedade. No entanto, quem disse que o casamento gay não tem a ver com a saúde? O direito dos homossexuais a ser dependentes do plano de saúde do parceiro é um dos efeitos da legalização do casamento gay. E quem disse que não tem a ver com a educação? O Estado estará educando a sociedade, combatendo o preconceito. E quem disse que não tem a ver com a segurança: a homofobia mata, vemos isso toda semana nos jornais, e nos países que aprovaram o casamento gay, isso ajudou muito a reduzir a homofobia e aumentar o respeito e a integração social dos homossexuais. Além disso, sempre vão dizer que há temas mais urgentes, mas nós, gays e lésbicas, temos de viver as nossas vidas agora. Não podemos continuar esperando que os outros achem que já é tempo de se lembrar da gente e reconhecer os nossos direitos. Queremos igualdade, e tem de ser agora!

 

— “Se o casamento gay for legalizado, deveria ser legalizada também a poligamia”.

— Uma coisa não tem nada a ver com a outra. E, de fato, nos países em que a poligamia é legal, as uniões poligâmicas são heterossexuais… e machistas: é sempre um homem com muitas mulheres. Então, o casamento heterossexual tem muito mais a ver com a poligamia realmente existente no mundo do que o casamento gay. No entanto, são assuntos diferentes. E não existe, no Brasil, nenhum setor da sociedade que reivindique o direito às uniões legais poligâmicas, sejam homo, hétero ou bissexuais. Então, por favor, não mudemos de assunto para confundir!

 

— “Se dois homens ou duas mulheres podem casar, por que eu não posso casar com meu cachorro?”.

— Parece piada, mas tem pessoas que, para ridicularizar o direito dos homossexuais ao casamento civil, fazem esse tipo de pergunta. Na Argentina, durante o debate da lei de casamento igualitário, um senador ultra homofóbico falou isso aos jornalistas — no entanto, depois, ele mudou de opinião e acabou votando a favor da lei. O questionamento é tão absurdo que nem merece resposta, mas o objetivo deste guia e responder a todos os questionamentos que existem e, infelizmente, temos visto essa pergunta em vários fóruns e nas redes sociais, de modo que vamos responder. O Código Civil estabelece que, para casar, as pessoas têm que dar o consentimento. É aquele famoso: “Sim, eu quero”. Então, tem um problema: seu cachorro fala português?

 

— “Não há discriminação contra os homossexuais: eles podem casar, desde que seja com alguém do sexo oposto. É a mesma regra para todos”.

— Absurdo! Os homossexuais desejam, apaixonam-se e constroem projetos de vida com pessoas do mesmo sexo. O ministro da Corte Suprema da Justiça argentina Raúl Zaffaroni já disse que, se aceitarmos aquele raciocínio, deveríamos aprovar também “a proibição dos matrimônios mistos do regime nazista ou a racista norte-americana, dado que nada impedia aos judeus e aos afro-americanos de casar entre eles nem aos ‘arianos’ e brancos fazer o mesmo”.

 

— “Não é necessário aprovar o casamento gay. Os homossexuais deveriam se conformar com a união civil”.

— Jamais. Não existe a quase-igualdade, mas somente a igualdade e a desigualdade. E a única maneira de garantir a igualdade em relação ao casamento é que todas as pessoas tenham acesso a ele. Quando um homem homossexual aluga um apartamento, ele assina um contrato de “aluguel”, não de “vínculo imobiliário gay” e as “carteiras de trabalho” das mulheres homossexuais não se chamam “livro de assinaturas de emprego lésbico”. Da mesma forma, quando um gay ou uma lésbica casa, esse casamento não deve receber uma denominação diferente: a única razão para chamá-lo diferente é querer manter o preconceito. Algum político democrático defenderia que quando um negro se casa, seu casamento fosse chamado pela lei com outro nome, por exemplo, “união civil de negros”? É a mesma coisa! A “união civil”, como instituição alternativa ao casamento, destinada aos casais do mesmo sexo, seria uma sorte de gueto. Trata-se de uma alternativa inspirada na doutrina “Iguais, mas separados”, que serviu para justificar as leis racistas que vigoraram até as décadas de 1950 e 1960 em alguns estados dos EUA: no caso Plessy v. Ferguson, em 1896, a Corte Suprema dos Estados Unidos convalidou uma lei de Luisiana que estabelecia assentos separados para brancos e negros nos ônibus, alegando que, desde que os assentos de uns e outros fossem do mesmo tipo e qualidade, não violavam o princípio de igualdade perante a lei. Essa doutrina se manteve até meados do século XX, e agora parece ressuscitar nos discursos de alguns dos opositores ao casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. O projeto de emenda constitucional do deputado Jean Wyllys defende que o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo deve ser o mesmo, deve ter os mesmos requisitos e efeitos, deve garantir os mesmos direitos e deve levar o mesmo nome que o casamento civil entre pessoas de distinto sexo.

 

— “Em muitos países, os direitos dos casais do mesmo sexo foram reconhecidos através da união civil e o problema ficou resolvido”.

— Falso: sem casamento, nunca ficará resolvido. Em alguns países, a união civil foi o primeiro passo, numa época — faz mais de uma década — em que a discussão sobre o casamento parecia impossível, mas tempo depois, o assunto voltou a ser debatido e o casamento gay foi aprovado, ou será aprovado em breve. Em outros, a união civil foi a resposta de políticos sem coragem que se recusaram a aceitar a igualdade jurídica, mas os coletivos LGBT continuam lutando pelo direito ao casamento. A alternativa da união civil foi defendida pelos setores mais reacionários da política, por exemplo, na Espanha, em Portugal e na Argentina. Esses mesmos setores antigamente se opunham à união civil e só começaram a defendê-la quando perceberam que o casamento gay seria aprovado, como uma maneira de tentar impedi-lo — eles chamavam de “mal menor”. Acontece que, nos últimos anos, a disputa pelos direitos dos casais homossexuais vem passando, aos poucos, do terreno jurídico ao da linguagem. À medida que a negação de direitos materiais como a herança, a pensão, o plano de saúde e outros semelhantes deixa de ser “politicamente correta”, o preconceito resiste na “defesa” dos símbolos. Em Portugal, onde essa discussão dominou o debate na Assembleia da República, que legalizou o casamento gay em 2010, o ex primeiro-ministro José Sócrates explicou sua oposição à união civil com as seguintes palavras: “Falemos claro: o que acontece é que essa proposta mantém a discriminação, e uma discriminação tanto mais ofensiva quanto, sendo quase inútil nos seus efeitos práticos, é absolutamente violenta na exclusão simbólica, porque atinge pessoas na sua dignidade, na sua identidade e na sua liberdade (…) Em matéria de dignidade, de identidade e de liberdade, pela minha parte, não aceito ficar a meio caminho”. Tanto na Espanha quanto na Argentina, os coletivos LGBT defenderam o lema “Os mesmos direitos com os mesmos nomes”, o mesmo que nós defendemos no Brasil.

 

(*) Bruno Bimbi  nasceu em Buenos Aires em 1978, mas mora no Rio de Janeiro desde 2009. É jornalista, mestre em Letras pela PUC-Rio, ativista gay e autor do livro “Matrimonio igualitario. Intrigas, tensiones y secretos en el camino hacia la ley” (Ed. Planeta, 2010). Foi um dos responsáveis da campanha pelo casamento igualitário na Argentina e atualmente colabora com o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ).

Requiem

“não tenho nenhum preconceito, mas…”

No meio do caminho

Jovem gay é torturado por pai religioso para “curar” homossexualidade

Jovem gay é torturado por pai religioso para “curar” homossexualidade

Por Redação em 07/10/2011 às 19h33

Jovem gay é torturado por pai religioso para "curar" homossexualidade

Foi divulgado esta semana um vídeo do projeto “I’m From Driftwood”, que percorre vários estados do EUA para coletar histórias de homossexuais que ainda são mantidas à margem da sociedade.com, com o depoimento de Samuel Brinton.

No vídeo, Brinton relata as torturas que seu pai lhe infligiu para deixar de ser gay. Segundo ele, o pai, que é missionário da Igreja Batista, o queimou, espancou e deu choques com correntes elétricas.

Brinton contou que sua família, que vive em uma base missionária em Iowa, percebeu que ele era gay aos 12 anos. Em dada ocasião, o jovem disse ao pai que se sentia mais atraído por um amigo do que pelas modelos da revista “Playboy”. O pai, então, o espancou e ele teve que ser internado por conta dos ferimentos.

O rapaz também relatou que seu pai lhe disse que ele era o único gay existente e que se o governo descobrisse a sua orientação sexual, iria assassiná-lo. Brinton já foi hospitalizado seis vezes por conta das sessões de tortura que o seu pai lhe obrigava a passar. Aos médicos, o pai sempre dizia que ele havia sofrido algum tipo de acidente.

Várias foram as formas de tortura que Samuel Brinton sofreu. Entre elas, cubos de gelo eram colocados sobre o seu órgão genital, enquanto imagens de homens eram mostrada; agulhas eram colocadas embaixo de sua unha e emitiam choques quando Samuel se excitava com as imagens de homens fazendo sexo. A intenção do pai era fazer com que o filho ligasse a atração por homens à dor.

Nos piores momentos, Brinton conta que pensou em se matar. Em certa ocasião, decidiu se jogar de um prédio de três andares. A sua mãe, ao tentar dissuadi-lo da ideia, disse que se ele “virasse” heterossexual ela voltaria a amá-lo.

O jovem fingiu por um tempo que era heterossexual e os seus pais o aceitaram. Quando entrou na universidade contou a verdade para os seus pais, desde então, nunca mais se falaram. Brinton diz que a oportunidade deles se redimirem e pedirem desculpas está aberta e que ele aceitaria.

Confira abaixo o vídeo com o depoimento de Samuel Brinton.

O Mundo vs. Wall Street

Postado:  5 outubro 2011
Milhares de norte-americanos ocuparam sem violência a Wall Street – um epicentro do poder financeiro global e da corrupção. Eles são os últimos raios de luz em um novo movimento pela justiça social que está se espalhando rapidamente pelo mundo: de Madrid a Jerusalém e a 146 outras cidades, com outras aderindo a cada instante. Mas eles precisam de nossa ajuda para triunfarem.

Como são as famílias de trabalhadores que estão pagando a conta de uma crise financeira causada por elites corruptas, os manifestantes estão exigindo uma verdadeira democracia, justiça social e combate à corrupção. Mas eles estão sob forte pressão das autoridades e alguns meios de comunicação estão retratando-os como grupos extremistas. Se milhões de nós de todo o mundo os apoiarem, vamos aumentar a sua determinação e mostrar a mídia e aos líderes que os protestos fazem parte de um movimento massivo pela mudança.

Este ano pode ser o nosso 1968 desse século, mas para ter sucesso ele deve ser um movimento de todos os cidadãos, de todas classes sociais. Clique para participar da campanha para a democracia real – um contador gigante será erguido no centro da ocupação em Nova York mostrando ao vivo cada um de nós que assinarmos a petição e retransmitido ao vivo na página da petição.

Eu não quero voltar sozinho

Children will listen

(Stephen Sondheim)

How do you say to your child in the night?
Nothing’s all black, but then nothing’s all white
How do you say it will all be all right
When you know that it might not be true?
What do you do?

Careful the things you say
Children will listen
Careful the things you do
Children will see and learn
Children may not obey, but children will listen
Children will look to you for which way to turn
Co learn what to be
Careful before you say “Listen to me”
Children will listen

Careful the wish you make
Wishes are children
Careful the path they take
Wishes come true, not free
Careful the spell you cast
Not just on children
Sometimes the spell may last
Past what you can see
And turn against you

Careful the tale you tell
That is the spell
Children will listen

How can you say to a child who’s in flight
“Don’t slip away and i won’t hold so tight”
What can you say that no matter how slight Won’t be misunderstood
What do you leave to your child when you’re dead?
Only whatever you put in it’s head
Things that you’re mother and father had said
Which were left to them too
Careful what you say
Children will listen
Careful you do it too
Children will see
And learn, oh guide them that step away
Children will glisten
Tample with what is true
And children will turn
If just to be free
Careful before you say
“Listen to me”

Children will listen (repeat 3x)

Lord Anthony

(Belle & Sebastian)

Anthony, bullied at school
Get your own back now you are cool
Or are you scared bunking off though you’re a toff?
It’s all gone wrong again, you’ve got Double Maths.

But the teacher’s got no control
The boys all run riot
“You will stay quiet or you will die.”

Tony, at the back of the gym
Smoke another one, your chances are slim,
‘Cause here they come again
And they got you on the ground.
Tasting blood again;
At least it’s your own.

When will you realize it doesn’t pay
To be smarter than teachers, smarter than most boys?
“So shut your mouth, start kicking the football.”
Bang on the teeth. You are off for a week, boy.

You may as well take it in the guts, it can’t get worse.
Just take it in the guts, it can’t get worse than this.

‘Cause you’ll soon be old enough to leave them
Without a notion of a care
You’ll leave two fingers in the air
To linger there.

Tony, you’re a bit of a mess;
Melted Toblerone under your dress.
If the kids could see you they would pass you right by.
Blue mascara running over your eye.

When will you realize it doesn’t pay
To be smarter than teachers, smarter than most boys?
“Shut your mouth, start kicking the football”
Bang on the teeth. You were off for a week, boy.

(Anthony. it could be worse)
(Anthony, it could be worse)

They call you Lord Anthony but hey, it could be worse.
Lord Anthony but hey, it could be worse.
Lord Anthony but hey, it kind of suits you anyway…

You’ll soon be old enough to leave them
Without a notion of a care
You’ll leave two fingers in the air
To linger there.