Auto-engano

Eu sou um mosaico de medos,

Mas isso é segredo.

É preciso amoldar-me ao mundo.

Aqui, na ânsia de ser aceito,

Releva-se a poesia emoldurada do que se é

E sublima-se a aparência do que se quer.

Preciso esconder a arte rebuscada dos medos

E exibir a máscara medíocre De minhas falsas certezas.

Quantos incautos crerão Em minha fortaleza interior?

E assim também eu perco a arte do humano.

Finjo perene coragem

E, em alto estilo,

Dissimulo o meu auto-engano.

Nara Rúbia Ribeiro

Ozymandias (por Percy Bysshe Shelley)

“Ozymandias” é um conhecido soneto de Percy Bysshe Shelley, publicado em 1818. Provavelmente o poema mais famoso de Shelley, foi escrito para competir com um amigo, Horace Smith, que escreveu outro soneto intitulado “Ozymandias”. Além do poder de seus temas e imagens, o poema é conhecido por virtuosa dicção. O esquema de rimas é incomum e cria um efeito sinuoso e entrelaçado.
Foi escrito em dezembro de 1817 e publicado no Examiner de 11 de janeiro de 1818 e republicado em Rosalind and Helen volume de 1819. Shelley utiliza a imagem de uma estátua de Ozymandias (apelido grego do faraó Ramsés II) para descrever temas como a arrogância, a transitoriedade do poder, a permanência da arte e a relação entre artista e sua obra.
Texto original:

I met a traveller from an antique land
Who said:—Two vast and trunkless legs of stone
Stand in the desert. Near them on the sand,
Half sunk, a shatter’d visage lies, whose frown
And wrinkled lip and sneer of cold command
Tell that its sculptor well those passions read
Which yet survive, stamp’d on these lifeless things,
The hand that mock’d them and the heart that fed.
And on the pedestal these words appear:
“My name is Ozymandias, king of kings:
Look on my works, ye mighty, and despair!”
Nothing beside remains: round the decay
Of that colossal wreck, boundless and bare,
The lone and level sands stretch far away.

Tradução

Eu encontrei um viajante de uma antiga terra
Que disse:—Duas imensas e destroncadas pernas de pedra
Erguem-se no deserto. Perto delas na areia
Meio enterrada, jaz uma viseira despedaçada, cuja fronte
E lábio enrugado e sorriso de frio comando
Dizem que seu escultor bem suas paixões leu
Que ainda sobrevivem, estampadas nessas coisas inertes,
A mão que os escarneceu e o coração que os alimentou.
E no pedestal aparecem estas palavras:
“Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Contemplem as minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos!”
Nada mais resta: em redor a decadência
Daquele destroço colossal, sem limite e vazio
As areias solitárias e planas espalham-se para longe.

Fonte: Wikipedia

Imagem de Ramsés II que inspirou o poema de Shelley.

Lela (Carlos Nuñez / Maria do Ceo)

Bela música de Carlos Nuñez, em bela língua da Galícia, pela bela voz de Maria do Ceo:

Están as nubes chorrando
Por un amor que morréu
Están as rúas molladas
De tanto como chovéu

Lela, Lela
Leliña por quem eu morro
Quero mirarme
Nas meniñas dos teus ollos

Nom me deixes
E ten compasión de mim
Sen tí non podo
Sen tí non podo vivir

Dame alento das túas palabras
Dame celme do teu corazón
Dame lume das túas miradas
Dame vida co teu dulce amor

Músicas de mim – I (Raiz)

Fado Tropical

(1972-1973: Chico Buarque de Hollanda; Ruy Guerra)

Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro abril
Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

[Recitativo] “Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dose de lirismo (além da Sífilis, é claro)
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar,
trucidar
Meu coração fecha aos olhos e sinceramente chora…”

Com avencas na caatinga
Alecrins no canavial
Licores na moringa
Um vinho tropical
E a linda mulata
Com rendas do Alentejo
De quem numa bravata
Arrebato um beijo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

[Recitativo] “Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto

[Recitativo] Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto

[Recitativo] Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadura à proa
Mas o meu peito se desabotoa

[Recitativo] E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa”

Guitarras e sanfonas
Jasmins, coqueiros, fontes
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre Trás-os-Montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial

De profundis clamavi

(Charles Baudelaire – Fleurs Du Mal – tradução livre)

J’implore ta pitié, Toi, l’unique que j’aime,
Du fond du gouffre obscur où mon coeur est tombé.
C’est un univers morne à l’horizon plombé,
Où nagent dans la nuit l’horreur et le blasphème;

Un soleil sans chaleur plane au-dessus six mois,
Et les six autres mois la nuit couvre la terre;
C’est un pays plus nu que la terre polaire
— Ni bêtes, ni ruisseaux, ni verdure, ni bois!

Or il n’est pas d’horreur au monde qui surpasse
La froide cruauté de ce soleil de glace
Et cette immense nuit semblable au vieux Chaos;

Je jalouse le sort des plus vils animaux
Qui peuvent se plonger dans un sommeil stupide,
Tant l’écheveau du temps lentement se dévide!

Piedade eu te imploro, único amor,
do fosso obscuro onde minh’alma jaz.
Há, do horizonte, um mundo escuro atrás,
onde navegam blasfêmia, horror.

Um sol frio paira por todo um semestre,
e seis meses mais, é noite na terra
deserta mais que no pólo da terra
– nem bestas, nem fontes, nem flor campestre!

Ora pois horror algum ultrapassa
a solar luz cruel, tão fria e baça
e a noite como o caos primordial.

Invejo, sim, o mais vil animal
que ao sono pode se entregar a esmo
até despentear-se o tempo mesmo.

Existência humana

Sou animal porque não posso viver senão à custa de morrer outro ser vivo. Sou humano porque posso saber que sou animal – sofro e faço sofrer – e que nasci – e antes já havia o mundo – e que morrerei – e depois continuará o mundo – e que o mundo sem mim é o mundo, e que eu sem o mundo não sou. Existo animal. Sou porque sei. Não sei porque sou. Quero, mesmo assim: existir, ser, saber e não saber – Deus.

Haikai (3)

Entre as pedras frias e geladas,

teimosas,

crescem flores.

Haikai (2)

Quando o sol nascer,

todos e eu

se encontrarão.

Haikai

Na virada da maré,

de noite, encontro

a mim mesmo.